Toffoli socorre Odebrecht
Em mais um capítulo do movimento político e judicial para anistiar o cartel de empreiteiras do petrolão, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, atendeu a um pedido da Odebrecht (hoje Novonor) e suspendeu os pagamentos do acordo de leniência da empresa.
A decisão ocorre após precedente criado pelo próprio Toffoli. Em dezembro, o ministro determinou a suspensão dos pagamentos da multa imposta à J&F no acordo de leniência firmado com o Ministério Público Federal.
A decisão de Toffoli sobre o acordo de leniência da J&F, por sua vez, decorreu de decisão anterior sobre a validade das provas entregues pela Odebrecht em sua colaboração. Em setembro, Toffoli decidiu que as provas são imprestáveis.
A sucessão de decisões deu-se num processo movido pelo então advogado de Lula e hoje ministro do Supremo, Cristiano Zanin. A ação foi relatada por Ricardo Lewandowski, antecessor de Zanin no STF, e que agora toma posse como ministro da Justiça no governo do petista. Com uma manobra regimental, Toffoli assumiu os processos da Lava Jato, evitando que fossem redistribuídos a outro relator.
O processo em questão, a Reclamação 43007, começou em agosto de 2020. A defesa de Lula pedia acesso ao acordo de leniência da Odebrecht e a anulação de umas das ações penais nas quais o petista fora condenado por corrupção. Em novembro do mesmo ano, o acesso foi liberado por Lewandowski, mas ações ainda corriam.
Um mês depois, Lewandowski determinou acesso às mensagens da operação Spoofing, que investigou a invasão digital de hackers nas contas de integrantes da força-tarefa da Lava Jato. Algumas semanas depois, o ministro tornou públicas algumas das mensagens. Embora não tenha usado formalmente os trechos para votar pela suspeição de Moro, os diálogos descontextualizados serviram para justificar a decisão. Todas as decisões foram referendadas pelo plenário.
Com o passar do tempo, os gabinetes de Lewandowski e de Edson Fachin se tornaram o guichê judicial para suspender investigações de corrupção contra políticos e grandes empresários. Foram suspensas, por exemplo, Eduardo Cunha, Arthur Lira, Ciro Nogueira, entre outros.
Toffoli ampliou ainda mais o escopo já largo da Reclamação. Seguiu uma escada lógica que conduziu da anulação de provas da Odebrecht para a suspensão de pagamentos de valores acertados nos acordos da J&F e, agora, da própria Odebrecht. Em tese, todas as empresas que firmaram acordos de leniência nos últimos anos, e não apenas na Lava Jato, podem pleitear a Toffoli a suspensão de seus pagamentos. Em tais acordos, as companhias assumiram que cometeram atos de corrupção.
A Odebrecht se aproveitou do caso J&F e recorreu ao STF para ter acesso ao material da operação Spoofing. A defesa da empreiteira pediu a suspensão dos pagamentos até que os documentos sejam analisados. O objetivo é rever os termos firmados com a Procuradoria-Geral da República, a Controladoria-Geral da União e a Advocacia-Geral da União nos acordos de leniência.
Na decisão, Toffoli diz que “diante das informações obtidas até o momento no âmbito da Operação Spoofing, no sentido de que teria havido conluio entre o juízo processante e o órgão de acusação há, no mínimo, dúvida razoável sobre o requisito da voluntariedade da requerente ao firmar o acordo de leniência com o Ministério Público Federal que lhe impôs obrigações patrimoniais, o que justifica, por ora, a paralisação dos pagamentos, tal como requerido pela Novonor.”
A dívida da Odebrecht com o MPF, de 3,5 bilhões de reais, se junta à falta de pagamento da empreiteira também à CGU, como mostrou o Bastidor. A determinação acontece em meio a um movimento das empreiteiras condenadas na Lava Jato de revisar os acordos de leniência. O Bastidor mostrou que seis construtoras têm parcelas em atraso nos acordos de leniência com a CGU: além da Odebrecht, OAS, Nova Participações (ex-Engevix), Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e UTC.
Quatro delas - Camargo, Engevix, OAS e Odebrecht - pediram ao governo Lula a revisão de seus respectivos acordos logo após interromperem ou informarem que interromperiam os pagamentos. Argumentam que os débitos se tornaram impagáveis porque o mercado ainda não reagiu à Lava Jato, à pandemia de covid-19 e à instabilidade do mercado global diante das guerras.
Leia a íntegra da decisão de Toffoli:
Governo e oposição travam projeto do Novo Código Eleitoral e encurtam espaço para debate do projeto
Leia MaisPesquisa Quaest mostra que até o núcleo do eleitorado do presidente está descontente com seu governo
Leia MaisMais próximo de Bolsonaro, o presidente do PSD quer ser vice de Tarcísio ou candidato a governador
Leia MaisTST anula processo em que sobrinha e tio simularam ação trabalhista para não fugir de credores
Leia MaisGoverno e oposição se unem e aprovam projeto para retaliar tarifas impostas pelos EUA
Leia MaisPrazo para Âmbar Energia, da J&F, assumir de vez a Amazonas Energia termina no fim de abril
Leia MaisMPF denuncia 13 ex-executivos por fraude de R$ 25 bilhões na Americanas
Leia MaisDois desembargadores querem disputar a presidência, mas dependem da posição de Torres Garcia
Leia MaisAgente da Abin afirma que governo Lula fez operação para hackear autoridades paraguaias
Leia MaisRei do Laranjal aparece em evento como representante de empresa que nega ser sua
Leia MaisDeputado da oposição tenta convocar ministra dos Povos Indígenas para falar sobre acerto com Ambipar
Leia MaisPrimeira Turma do STF forma maioria para obrigar Bolsonaro a pagar por propaganda irregular em 2022
Leia MaisMoraes encerra investigação contra Bolsonaro por falsificar de cartão de vacinação
Leia MaisDias Toffoli vota para manter sua decisão que anula atos da Lava Jato contra Palocci
Leia MaisApós atingir limite de R$ 15 bilhões, programa será suspenso e auditado pela Receita Federal
Leia Mais