Por que Marielle?
A investigação da Polícia Federal conclui que a vereadora Marielle Franco foi assassinada a mando dos irmãos Francisco e Domingos Brazão por ter desencorajado moradores a aderir a terrenos em áreas de milícia e por seu partido o PSol, ter se oposto ao à legalização de terras griladas por milicianos na Zona Oeste do Rio.
Conforme os depoimentos, o assassinato foi um meio de assustar a bancada do Psol, considerada afrontosa e ingrata ao MDB por Chiquinho Brazão. A conclusão é calcada na delação de Ronnie Lessa, o assassino, e no histórico interesse e influência da família Brazão na Zona Oeste.
Não há menções no relatório a um motivo específico que levou à escolha da então vereadora. Antes de Marielle, os milicianos levantaram a vida de outros integrantes do Psol: entre 2013 e 2017, checaram informações sobre Marcelo Freixo e sua filha, Isadora, Renato Cinco e Chico Alencar.
O único momento em que parece haver uma predileção por Marielle é quando, numa das reuniões para planejar o crime, Brazão diz ter sido alertado por um infiltrado no Psol de que a vereadora pediu para a população não aderir a loteamentos em áreas de milícia.
Mesmo com as rusgas junto ao MDB, a convivência entre Chiquinho e o Psol na Assembleia Legislativa do RJ foi boa até 26 de maio de 2017. Até então, Francisco costumava apoiar pedidos e projetos dos psolistas; depois mostrou que esperava reciprocidade.
Naquele 26 de maio, o plenário Alerj discutia um projeto de lei que garantiria o registro de terrenos na Zona Oeste carioca, área ocupada pela milícia ligada aos Brazão. O argumento era a destinação social das áreas. Porém, os imóveis eram para pessoas de classe média.
A vitória apertada (27 votos a 26) pela falta de apoio do Psol irritou Chiquinho, disse às autoridades Arlei de Lourival Assucena, ex-assessor de Marielle Franco."Ele, que antes apoiava tudo do Psol, então ficou puto com o partido e deixou de ajudar."
Assucena relatou ainda que Chiquinho reclamou, pois "teve que correr para caramba para aprovar" o texto porque PMDB estava muito fragilizado naquele período - por conta da Operação Lava-Jato - em grande parte devido ao Psol, porque o partido sempre afrontava "os interesses da cúpula do PMDB".
Como?
A morte de Marielle começou a ser traçada no segundo semestre de 2017, quando Lessa foi procurado pelo ex-policial militar Edmilson Macalé, amigo de longa data dos Brazão.
A primeira reunião ocorreu no começo de 2018 - a data precisa não é informada pela PF, nem por Lessa - nas imediações do Hotel Transamérica, na Barra da Tijuca. Participaram Lessa, Macalé, Robson Calixto Fonseca, assessor de Domingos Brazão e conhecido como Peixe ou Peixão, e os irmãos Brazão.
Diz a PF: “Ali, Domingos Brazão, segundo Lessa o mais verborrágico da dupla, passou a limpo todo o contexto da demanda e indicou que havia alocado um infiltrado de nome Laerte Silva de Lima nas fileiras do Psol para levantar informações internas do partido. Segundo Lessa, Domingos lhe relatou, de forma superficial, que Laerte o alertou que Marielle Franco, em algumas reuniões comunitárias, pediu para a população não aderir a novos loteamentos situados em áreas de milícia.”
Após explicar a situação, Domingos ordenou a Lessa que a execução não fosse próxima à Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, para não dar ares políticos ao crime. A ideia, de acordo com a PF, partiu de Rivaldo Barbosa, então diretor da Divisão de Homicídios.
O delegado, que seria empossado chefe da Polícia Civil do RJ no dia seguinte ao assassinato de Marielle, garantiu aos envolvidos a impunidade pelo crime. Só que essa proteção também passava pela arma a ser usada.
Domingos não queria um revólver, então seus contatos milicianos conseguiram uma submetralhadora alemã HK MP5, mesmo modelo usado por Lessa quando integrou o Bope. Também exigiu que a submetralhadora fosse devolvida após o crime. Ele não explicou o motivo, mas a investigação mostrou que o armamento foi roubado da PF.
A arma, segundo Lessa, foi retirada por Macalé na Comunidade de Rio das Pedras junto com Peixão e o policial militar Marcus Vinicius Reis dos Santos, conhecido como Fininho e um dos primeiros aliados dos Brazão em áreas de milícia. Junto com a submetralhadora vieram dois carregadores com munição colombiana Indumil.
O carro usado no assassinato, um Chevrolet Cobalt, foi obtido no início de 2018 com Otacílio Antônio Dias Júnior, o Hulkinho, a pedido de Maxwell Simões Corrêa, conhecido como Suel. Antes do crime o veículo pertenceu a um homem chamado Big Mac, morto a tiros naquele ano.
Com todos os equipamentos em mãos, Lessa passou a vigiar Marielle. Foi à sua casa, a seu curso de inglês, a eventos em que a vereadora participou e ficou na porta da Câmara dos Vereadores. Foi nesse último endereço que o ex-PM viu o maior potencial para consumar o plano dos Brazão. Nos outros, disse, a falta de local para estacionar e a movimento excessivo na via, inclusive de viaturas policiais, inviabilizavam a estratégia.
Lessa então pediu a Macalé que convocasse nova reunião com os Brazão, para convencê-los a contrariar Rivaldo. “Sob pena, inclusive, dele desistir de participar do enlace", segundo Élcio Queiroz, motorista do carro usado no assassinato. Mas Domingos e Chiquinho mantiveram a posição inicial.
Na data do crime, 6 de março de 2018, ao meio-dia, Lessa conta que recebeu uma ligação de Macalé e que este dizia ter sido avisado pelo major Ronald Paulo Alves Pereira, já preso por participação no assassinato, de que Marielle estaria, naquela noite, num evento na Casa das Pretas.
“Nesse mesmo dia 6, o deslocamento de major Ronald é compatível com o local no qual Marielle, Anderson e Fernanda foram emboscados em 14/03/2018, o que denota a ideia de que major Ronald teria sido um dos responsáveis pelo levantamento de informações da rotina de Marielle para a horda, o que converge para a dinâmica narrada por Ronnie Lessa, especificamente no que se refere à ligação recebida por Macalé ao meio-dia do fatídico dia do homicídio”, diz a PF.
Após falar com Macalé, Lessa aguardou Élcio em sua casa, no Condomínio Vivendas da Barra. O motorista chegou faltando 1 minuto para as 17h; a partir desse momento, os celulares da dupla foram desligados até às 22:11h. Os dois então partiram da Barra da Tijuca, já no Chevrolet Cobalt, que estava estacionado nas redondezas, rumo à Casa das Pretas. Ao verem o Chevrolet Agile onde estavam Marielle e Anderson, atiraram.
Colo da mãe
A fuga da dupla após o assassinato levou até a casa dos pais de Lessa. Lá, ele pediu que seu irmão, Denis Lessa, guardasse uma mala vermelha (onde estava a submetralhadora) por alguns dias e lhe pedisse um táxi. O ex-PM não contou nada ao irmão.
O táxi levou a dupla para o condomínio Vivendas da Barra, onde pegaram o carro de Lessa e foram até o bar Resenha, onde encontraram Suel para assistir a um jogo do Flamengo e pedir ajuda com o sumiço do carro. O veículo foi entregue no dia seguinte a Edilson Barbosa dos Santos, conhecido como Orelha, dono de desmanches em Rocha Miranda, Zona Norte do Rio.
Antes de entregarem o carro, Lessa o levou até a garagem de Élcio, onde trocaram as placas, limparam o veículo e colaram um adesivo da Apple no vidro. Suel então levou o automóvel até Rocha Miranda, para Orelha, segundo Élcio.
Lessa foi até a casa de sua mãe dias depois buscar a arma. Como era domingo, aproveitou para almoçar com a família. O ex-PM encontraria-com Brazão posteriormente, para devolver a arma, com ajuda de Macalé.
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