As dúvidas sobre o IPO da PicPay

Publicada em 04/05/2021 às 06:00
Foto: Frame Photo/Folhapress

Operadores do mercado financeiro que analisam a oferta inicial de ações da PicPay na bolsa americana Nasdaq têm sérias dúvidas sobre a confiabilidade das informações divulgadas pela empresa perante a Securities and Exchange Commission, a SEC, órgão regulador do mercado de capitais nos Estados Unidos.

Entre outras questões, a fintech dos irmãos Batista apresentou dados aparentemente frágeis sobre um dos pontos fundamentais para avaliar a solidez e o potencial de crescimento da empresa: o número de clientes.

De acordo com o prospecto da PicPay, a empresa tinha 38,8 milhões de usuários registrados e 28,4 milhões de usuários ativos em 31 de dezembro de 2020. O documento também cita 16,2 milhões de usuários “ativos em transações” nesse período. Para aumentar a dúvida, o site da PicPay informa mais de 50 milhões de usuários. 

A PicPay define usuários “registrados” como alguém que baixou o aplicativo e criou uma conta. Usuários “ativos” são os que abriram o aplicativo pelo menos uma vez nos últimos 12 meses. Os usuários “ativos em transações” são os que realizaram pelo menos uma operação financeira nesse período.

Embora o mercado das fintechs ainda esteja em desenvolvimento, carecendo de definições mais precisas sobre as medidas de sucesso dos negócios, analistas apontam uma excessiva criatividade nos tipos de usuários - clientes - descritos pela PicPay. A diferença entre "mais de 50 milhões" e 16,2 milhões não é, por óbvio, irrelevante. Mesmo o conceito de "usuários ativos em transações" é criticado por não refletir, aparentemente, a base de clientes que, de fato, usam os serviços da PicPay.

As dúvidas dos analistas do mercado financeiro são reforçadas pelo quadro societário da empresa. Os irmãos Joesley e Wesley Batista são os controladores da holding J&F. Ela tem 95,27% do capital da PicPay. Anderson Chamon, fundador da empresa, tem 3,33% das ações e José Antonio Costa Batista, sobrinho de Joesley e Wesley, tem 1,4%.

Os irmãos Batista foram pivôs de um dos maiores escândalos de corrupção do Brasil, a ponto de paralisar o governo de Michel Temer em maio de 2017. No final do ano passado, conseguiram reverter a posição da Procuradoria-Geral da República, que decidira rescindir os acordos de delação dos irmãos ainda em 2017. Mesmo sem apresentar fatos novos, eles convenceram a PGR, discretamente, a "repactuar" as colaborações, mediante pagamento de multa. Ficaram livres.

A assessoria de comunicação da PicPay diz que o prospecto é muito abrangente sobre as informações necessárias ao lançamento das ações. Aduz que as demonstrações financeiras foram submetidas a revisões e controles. A partir de 2018, todas as demonstrações foram aprovadas por empresas de auditoria externa visando garantir a segurança dos números apresentados, garante a PicPay.