Ordens de Bolsonaro favoreceram baderna lucrativa na negociação de vacinas

Diego Escosteguy
Publicada em 19/07/2021 às 15:47
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Há uma informação essencial para compreender a zona em que se tornou o Ministério da Saúde entre fevereiro e março - momento no qual o general Eduardo Pazuello, o coronel Elcio Franco e o ex-homem do centrão na pasta Roberto Dias negociavam vacinas com qualquer um que aparecesse.

A vacinação começou no Brasil em janeiro, por meio da Coronavac. Em seguida, viria a AstraZeneca, em parceria com a Fiocruz.

Quando João Doria, padrinho político da Coronavac, parecia ganhar força em virtude da vacinação, o presidente Jair Bolsonaro disse a seus subordinados no Planalto e no Ministério da Saúde que o governo precisava reagir. Era imperativo diminuir a vitória política de Doria.

Em fevereiro, o presidente deu seguidas ordens e cobrou seus auxiliares para que conseguissem outras vacinas - e as mesmas vacinas de outros fornecedores, mesmo que isso fosse impossível, como sabiam alguns desses subordinados.

Bolsonaro queria que Pazuello negociasse doses da AstraZeneca sem o intermédio da Friocruz, órgão repleto de comunistas, no entender do presidente. Também não queria doses da Coronavac do "calça apertada", como se refere a Doria.

Misturadas à incompetência dos militares e à atuação de espertalhões, as ordens de Bolsonaro logo se traduziram em patuscada no Ministério da Saúde. Criaram um ambiente permissivo dentro da pasta.

Cobrados subitamente por vacinas, militares que até então ignoravam a Pfizer e outras farmacêuticas passaram a procurar e a receber qualquer um. Assinaram de modo atabalhoado a compra da Covaxin e da Sputnik - no começo de março, chegaram a pedir ainda mais doses das duas vacinas.

Em meio a essa barafunda, encontraram-se com um PM de Minas que dizia ter 400 milhões de doses da AstraZeneca sem os "comunistas" da Fiocruz e atravessadores que arrotavam ter como obter doses da Coronavac sem o Butantan do "calça apertada".

As suspeitas de corrupção nas negociações da Covaxin e da Pfizer surgem nesse ambiente de pânico e inépcia.

De longe, pode ser difícil acreditar em demonstrações tão flagrantes de, digamos, inteligência curta. De perto, tudo fica óbvio.