Mistura de vacinas para grávidas causa controvérsia

Publicada em 21/07/2021 às 19:09
Foto: Danilo Verpa/Folhapress

A recomendação do governo de São Paulo para que grávidas que se vacinaram com uma primeira dose de AstraZeneca tomem agora uma segunda dose de Pfizer provocou controvérsia em Brasília. Técnicos do PNI, o Programa Nacional de Imunizações, dizem que está mantida a recomendação nacional de não misturar marcas de vacina nas duas doses - o que se chama, no jargão, de esquema de vacinação heteróloga.

A Anvisa, que aprova as bulas das vacinas, não foi consultada pelo governo de São Paulo sobre a decisão - o mesmo vale para a Prefeitura do Rio, que fez opção semelhante. Formalmente, não há essa necessidade: são os gestores de Saúde que definem o esquema de vacinação. Mas, diante dos esforços para padronizar as ações nacionais de imunização, seria recomendável a interlocução com o PNI e a Anvisa.

Procurada, a agência ressaltou a ausência de estudos disponíveis que apontem a segurança e a eficácia da vacinação heteróloga."Não foram apresentados à Anvisa estudos sobre a intercambialidade entre vacinas, ou seja, que tratem da eficácia e geração de imunização a partir de diferentes combinações e esquemas terapêuticos entre vacinas diferentes", disse a agência, em nota. "Dessa forma, e com as informações atualmente conhecidas, não é possível fazer afirmações sobre a intercambialidade das vacinas, ou seja, se podem ser substituídas e combinadas umas com as outras."

Gestores, médicos e cientistas estão confiantes de que os estudos e a experiência de imunização global mostrarão em breve a segurança e a eficácia da mistura de vacinas distintas - seja para o esquema de primeira e segunda dose, seja para um eventual reforço, caso se mostre necessário. Alguns países europeus já adotam a vacinação heteróloga, com aparente sucesso.

Ainda não há, porém, consenso nos países mais avançados, sobretudo em relação à vacinação heteróloga em grávidas. No Brasil, a Anvisa e o Ministério da Saúde recomendam que gestantes tomem Pfizer (mRNA) ou Coronavac (vírus inativado), conforme indicação das respectivas bulas. Vacinas de vetor viral, como a AstraZeneca e a Janssen, não são recomendadas, em face do risco, ainda que baixíssimo, de efeitos adversos em mulheres abaixo de 50 anos (grávidas ou não). Salvo, é claro, se houver recomendação médica em contrário - grávidas, tenham comorbidades ou não, constituem um grupo de risco para COVID e devem se proteger de acordo.

Por razões semelhantes, o Reino Unido e a agência sanitária europeia (EMA) recomendam que grávidas tomem vacinas de mRNA (Pfizer e Moderna) e evitem a Janssen ou a AstraZeneca. No entanto, o governo britânico diz que grávidas que tenham tomado a primeira dose de AstraZeneca antes do anúncio de restrições a essa vacina devem tomar a segunda dose da mesma AstraZeneca, caso não tenham sentido efeitos colaterais fortes após a primeira aplicação. Não recomenda a mistura de vacinas.

As agências fazem essa recomendação por abundância de cautela. Há estudos em curso que devem, em pouco tempo, confirmar a segurança e a eficácia da vacinação heteróloga - observações iniciais indicam isso, embora, no Reino Unido, tenha sido detectado um leve aumento de efeitos colaterais de curto prazo após o uso de duas doses distintas em grupos que não incluem grávidas.

Se tomadas conforme prevê a bula, ou seja, com duas doses iguais ou uma dose, no caso da Janssen, as vacinas em uso no Brasil são seguras e eficazes para maiores de 18 anos. Feita, mais uma vez, a ressalva de que grávidas devem evitar vacinas de vetor viral, como AstraZeneca e Janssen.

É igualmente importar frisar que o Brasil e outros países com agências regulatórias sérias estão aprendendo rapidamente com a experiência de imunização, o avanço científico das vacinas e a necessidade urgente de conter a pandemia. Trata-se de um trabalho em evolução, que busca conciliar a maior imunização possível no menor prazo disponível, desde que respeitados protocolos razoáveis de segurança.

Esse trabalho envolve avaliações constantes de benefício e riscos. O governo de São Paulo avalia que, no caso da vacinação heteróloga de grávidas, os imensos benefícios da imunização já superam, de longe, os riscos. Como se vê, outros gestores e algumas das principais agência discordam - ao menos por ora.

Confira as bulas atuais das vacinas da Pfizer, da AstraZeneca, da Janssen, além da Coronavac.