A resposta institucional do governo Lula à operação contra o Comando Vermelho no Rio expõe, até o momento, a ignorância técnica e o oportunismo político das mais altas autoridades de Brasília sobre o problema do crime organizado.

De ontem para hoje, dos ministros da Justiça e da Fazenda, passando pelo diretor-geral da Polícia Federal, ouviu-se uma mixórdia inútil. Ela deixou evidente, mais uma vez, o desconhecimento profundo acerca da natureza do funcionamento do crime organizado violento no país.

Em linhas gerais, as autoridades, como o ministro Ricardo Lewandowski e Gleisi Hoffmann, insistiram na necessidade de o Congresso aprovar a PEC da Segurança, como se esse novo arcabouço fosse uma solução. Não é. É uma mera contribuição, se tanto. Quem entende do assunto sabe que, estivesse em vigor a PEC da Segurança, não faria grande diferença no combate efetivo ao crime organizado violento. É band aid para buraco de fuzil. Não impede cobrança de gatonet nem lavagem com bet.

Ao optar por falar, falar e falar da PEC da Segurança diante da operação mais letal da história do Rio, os ministros empobrecem o debate. Atribuem, sem grande sutileza, parte da responsabilidade pelo resultado da operação, que julgam desastroso, embora não digam isso publicamente, à inércia do Congresso.

Falar platitudes numa crise, seja lá qual crise, é especialidade de ministros, seja lá qual ministro. Quando a crise é de segurança pública, nunca se perde a oportunidade de errar. A atribuição é do estado – no caso, do Rio, e do governador Cláudio Castro. Mas o assunto é grande demais para ser ignorado pelo governo federal. O resultado, há décadas, revela-se em declarações inócuas, no melhor dos casos, e politiqueiras, nos piores – aquelas que só servem para somar crise política à crise de segurança.

Fala-se em inteligência e asfixiamento financeiro das facções. Novamente: obviedades. Ao se falar disso, presume-se que não houve inteligência nem tentativa de identificar e bloquear ativos de criminosos. Pode ser. Mas, sem informações confiáveis e detalhadas sobre a operação, como afirmar isso? O uso de inteligência operacional e a tentativa de buscar o dinheiro estão no manual de todos. Não excluem operações em campo, seja de busca e apreensão, seja de prisão.

Os números da matança no Rio são, evidentemente, suspeitos. Assim como a retórica carbonária sobre narcoterrorismo – uma asneira ideológica. Sugerem uma ação com inteligência falha e objetivos duvidosos. Ainda assim, é preciso, por óbvio, se informar antes de dar declarações. Até o momento, o governo do Rio ainda não explicou a contento quais eram os objetivos da operação. Sem saber os objetivos, é impossível avaliar o sucesso ou o fracasso. Um dos principais líderes do Comando Vermelho escapou, por exemplo. Mas não se sabe se a apreensão dele, de fato, era o principal objetivo. Provavelmente, não, em virtude da estrutura assimétrica da organização de comando e controle da facção; há um plano sucessório claro nas posições operacionais e estratégicas do CV.

Além de falar de PEC da Segurança e de bobagens midiáticas como decretação de GLO, as autoridades de Brasília resolveram acrescentar um item exótico em suas declarações: a operação Cadeia de Carbono. Até Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann falaram abertamente que essa operação visava ao crime organizado e ao mercado de combustíveis. Associaram, portanto, o combate ao Comando Vermelho feito ontem no Rio às ações da Receita de apreensão de navios com cargas de combustível. Criticaram a resposta do governo do Rio nesse caso.

Essas declarações reforçam a politicagem do momento e a – não há outra palavra – incompetência do governo Lula em enfrentar o crime organizado. Como o Bastidor expôs, houve falhas fundamentais e graves na ação da Agência Nacional do Petróleo, a ANP, da Receita e do Ministério de Minas e Energia. O próprio nome “operação” é enganoso; trata-se de uma ação administrativa, sem qualquer participação policial e do Ministério Público – e sem supervisão judicial. Ademais, e isso é o principal, o Comando Vermelho não tem participação conhecida no mercado de combustíveis. E, nesse caso, nada tem a ver com a ação da ANP e da Receita. Se há alguma relação entre uma coisa e outra, os ministros prestariam um grande serviço se a revelassem.

A tal “operação” Cadeia de Carbono seria – mas não é – um filhote da operação Carbono Oculto. Esta, de fato, foi e é uma operação, liderada pelos promotores do Ministério Público de São Paulo, com controle judicial. Foi deflagrada junto com as operações Quasar e Tank, tocadas pela Polícia Federal. Na verdade, a Receita contribuiu – e nem tanto, a julgar pelas análises incluídas nos autos – para as investigações sobre o uso de fundos de investimento na lavagem de dinheiro de operadoras de combustíveis associadas ao PCC. O centro nervoso da investigação estava no MP de São Paulo. A PF entrou para ajudar.

Mas o governo federal assenhorou-se publicamente das investigações. Fez uso político delas. Como o Bastidor também expôs, as entrevistas coletivas dos ministros Lewandowski e Haddad no dia das três operações teve muito barulho e pouca substância. Disseram que entraram na Faria Lima. Exageraram a participação do mercado financeiro na engrenagem das organizações criminosas e, especialmente, a participação do PCC na estrutura da Copape. Nada disseram sobre um fato gravíssimo: os principais líderes da Copape, Mohamad Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme da Silva, fugiram dias antes das operações. Coisa que nunca havia acontecido.

Esse é o resultado prático da opção pelo uso político e midiático das operações de combate ao crime organizado: barulho momentâneo e prejuízo duradouro. Além de perda de tempo num assunto de extrema gravidade e urgência para o país. Para quem passou anos condenando a Lava Jato, a ironia é incontornável. Resultado bom exige gente séria, com compromisso em enfrentar o problema, e não em faturar politicamente. Gente séria trabalha duro. Investiga para produzir provas, não manchetes e slogans – tampouco corpos.

O Bastidor está investigando e noticiando há anos a infiltração do crime organizado no mercado de combustíveis e o uso de fintechs na lavagem de dinheiro de facções. Esse corpo de notícias, o teor das investigações policiais sobre esses casos e os resultados frágeis até agora confirmam a maior obviedade de todas: avanços requerem seriedade, competência, trabalho técnico e obediência a princípios legais. Demora, mas é o que pode mudar as coisas. O resto é barulho. E desserviço.

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