O filho do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, atuava no escritório do hoje ministro da Controladoria-Geral da República, Vinícius Carvalho, quando a banca representou a Raízen em processo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, contra a Refit, a antiga Refinaria de Manguinhos.

Nas últimas semanas, numa ação politicamente heterodoxa, Haddad passou a atacar pública e sistematicamente a Refit, concorrente da Raízen, joint venture entre Shell e a Cosan, de Rubens Ometto. O movimento do ministro da Fazenda contra a Refit coincidiu com a chegada de André Esteves, do BTG, à Cosan.

Por meio do banco, Esteves não se tornou apenas sócio de Ometto; virou o principal acionista individual da Cosan. A empresa de Ometto detém ativos altamente estratégicos em energia e logística. Mas está endividada, a tal ponto que seu futuro é incerto. Depende do capital prometido por Esteves e de apoio regulatório e do governo para sobreviver.

O escritório VMCA, fundado pelo ministro da CGU e no qual o advogado Frederico Haddad, o filho do ministro da Fazenda, trabalhava, representa a Raízen, ao menos, desde 2020, no Cade. O VMCA se transformou numa potência após Carvalho deixar o comando do Cade e passar a advogar perante o órgão. Tem, entre seus clientes, além da Raízen e da Rumo, de Rubens Ometto, nomes de peso como Novonor (antiga Odebrecht), Facebook, Gol Linhas Aéreas, Mercado Livre e Vale.

Em ao menos um dos processos de 2020, a Raízen denunciou concorrentes no Rio de Janeiro. Uma delas é a Refit, alvo do ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

No processo, a Raízen buscava reverter o arquivamento de um inquérito que investigava supostas práticas anticoncorrenciais no mercado de etanol hidratado. A empresa acusou distribuidoras concorrentes de adotarem inadimplência fiscal recorrente como estratégia comercial para reduzir artificialmente custos e ganhar participação de mercado. O recurso não prosperou.

Entre os advogados que assinam a petição está Carvalho, hoje ministro de Lula. O filho de Haddad atuou formalmente no escritório até 2023. Era um consultor. No período que lá esteve, o VMCA já tinha a Raízen entre seus principais clientes – talvez o principal. Hoje, Frederico Haddad tem escritório próprio.

A Refit, concorrente da Raízen, tem sido alvo constante de críticas do ministro da Fazenda, que a associa constantemente ao crime organizado, sem citar evidências disso. Haddad chegou a comemorar decisão do presidente do Superior Tribunal de Justiça, Herman Benjamin, que acolheu pedido da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e interditou a refinaria em outubro.

A Refit trava na Justiça uma disputa contra fiscalização da Agência Nacional do Petróleo, a ANP, que interditou a refinaria em setembro. Como mostrou o Bastidor, com base em documentos internos e relatos reservados de servidores convocados ao caso, foi uma ação de governo, coordenada entre Fazenda, Receita, Alexandre Silveira, das Minas e Energia, e a ANP. Numa série de reportagens, o Bastidor expôs evidências de irregularidades e ilegalidades nas ações do governo Lula e da ANP, agência que, em tese, é independente. Os fatos descobertos pela reportagem põem em sérias dúvidas os motivos para as ações e a lisura delas.

Nas últimas semanas, houve desdobramentos. Primeiro, após uma série de contestações sobre a legalidade da fiscalização, ANP recuou e liberou parcialmente o funcionamento da refinaria. Na sequência, decisão da Justiça do Rio de Janeiro autorizou a volta total. Dois dias depois, o STJ derrubou a determinação.

“Eu deixo um apelo para o governador do Rio de Janeiro de se inteirar da situação. Me parece que o governador não está inteirado do que está acontecendo no Rio de Janeiro deste ponto de vista, a julgar pela atuação do governo do Estado neste caso. Nosso inimigo está em outro lugar. E nós estamos chegando em quem organiza o crime”, afirmou Haddad após a decisão do STJ.

Também falou, sem detalhar, em asfixiar o crime organizado. “Nós entendemos que asfixiar o crime organizado passa por uma atividade de inteligência para chegar aos verdadeiros mandantes e orquestradores da atividade criminosa, que obviamente estão em lugares protegidos, estão fora do alcance muitas vezes da Polícia Militar, às vezes da Polícia Federal, que atuam nas sombras, mas nós estamos dando um passo hoje muito importante nessa direção”, declarou.

O escritório fundado por Carvalho ainda tem a Raízen entre os clientes. O Bastidor teve acesso a processos de 2025 que envolvem a empresa no Cade. Os representantes são advogados do VMCA.

A reportagem procurou na terça-feira o advogado Frederico Haddad e perguntou sobre sua atuação no escritório de Carvalho. Ele se limitou a dizer que não representa “a Raízen ou qualquer outra empresa no Cade. Deixei de ser associado do VMCA em abril de 2023, conforme averbado na OAB/SP.”

O Bastidor também buscou o ministro da Fazenda e perguntou sobre um potencial conflito de interesse ao ter um familiar associado a escritório que atua em defesa de empresas concorrentes de quem ele critica. Não houve resposta. O escritório VMCA também não se manifestou.

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