O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta terça-feira (23), após discursar na Assembleia-Geral da ONU, que abraçou o presidente Lula nos bastidores e combinou um encontro para a próxima semana. O governo brasileiro confirmou a cena. Acreditar que isso significa abertura para uma aproximação e negociação entre Brasil e Estados Unidos é ser inocente como uma criança.

Trump disse o seguinte: “Eu estava entrando e o líder do Brasil estava saindo. Eu o vi, ele me viu e nos abraçamos. Combinamos que vamos nos encontrar na próxima semana. Não tivemos muito tempo para conversar, uns 20 segundos. Em retrospecto, que bom que eu esperei, porque isso não tem funcionado bem (o diálogo entre os dois), mas conversamos, tivemos uma boa conversa, e combinamos de nos encontrar na semana que vem. Mas ele parecia um homem muito legal. Na verdade, ele gostou de mim, eu gostei dele. Eu só faço negócios com pessoas de quem eu gosto. Quando eu não gosto, eu não gosto. Tivemos ao menos 39 segundos de uma química excelente. É um bom sinal”.

Partidários de Lula e do ex-presidente Jair Bolsonaro interpretarão a fala de maneiras opostas e farão seu papel propagandístico nas redes sociais e no Congresso. Faz parte da rotina.

Quem está fora desse jogo, no entanto, deve saber que a experiência recente desautoriza esperanças. Declarações de Trump devem ser tomadas com extremo cuidado. O presidente americano é conhecido por mudar de opinião diversas vezes e de mudar o tratamento dispensado a questões diplomáticas e chefes de Estado de um dia para o outro. Faz isso o tempo todo com o presidente da Ucrânia, Volodmyr Zelenski, e com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, para ficar em dois exemplos.

Nada mudou nos últimos dias e não será um abraço em Lula que fará com que Trump aceite sentar-se para negociar a sério a redução das tarifas impostas ao Brasil ou a retirada das sanções da Lei Magnitsky sobre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e sua mulher, ou rever a retirada de vistos de autoridades.

O tratamento ao Brasil faz parte de uma decisão de Trump de punir o país por condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro e por atrapalhar os negócios das big techs americanas. Nada disso mudou.  

Outros chefes de Estado usam momentos como o desta terça-feira, em Nova York, como gestos de política. Trump não é um chefe de Estado como outros, não é dado a sinais e não respeita o jogo diplomático. Portanto, suas palavras devem ser vistas com extrema reserva. Acreditar nelas é mais uma questão de desejo do que de razão.

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