Uma entrevista do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, confirmou nesta quarta-feira (22) que a detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem foi detido pelo ICE, o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos, não está relacionada exatamente a uma ação de cooperação entre Brasil e Estados Unidos, como divulgou a Polícia Federal na ocasião.
Rodrigues deu entrevista à GloboNews devido à repercussão da decisão do governo americano de exigir que o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que fazia a ligação entre a PF e o ICE em Miami, deixasse os Estados Unidos. O ato é consequência do caso Ramagem. Nesta quarta, em represália, a PF retirou as credenciais de um policial norte-americano.
Rodrigues rememorou o episódio. Afirmou que Alexandre Ramagem foi parado após ter cometido uma infração leve. Durante a checagem de documentos, a situação irregular de seu visto foi identificada pelos policiais norte-americanos. “Foi feita uma abordagem em razão de uma infração de trânsito e, a partir da identificação de uma infração de trânsito, solicitada a documentação e identificado que ele estava com o visto cancelado pelo próprio ICE”, afirmou Andrei em entrevista à GloboNews.
Sem fornecer maiores detalhes, Rodrigues afirmou que foi a PF quem comunicou ao ICE a situação irregular de Ramagem. O ex-deputado fugiu do Brasil com o passaporte diplomático, que foi cancelado em seguida. Depois pediu asilo ao governo americano, sob o argumento que sofre perseguição política. O pedido ainda não foi examinado.
Para Rodrigues, o fato de o ato burocrático da PF de informar ao ICE a situação de Ramagem – condenado a 16 anos de prisão, foragido e sem passaporte – configura uma cooperação entre autoridades brasileiras e norte-americanas. “A informação que chega ao ICE, ao agente de trânsito, ela partiu da Polícia Federal brasileira. A informação toda que as agências norte-americanas tem, se não fosse a cooperação internacional, não teriam”, disse Andrei. Logo depois, Andrei afirmou que o ICE é quem tem as “bases de dados” e foi quem cancelou o visto do ex-deputado.
Após a detenção de Ramagem, na semana passada, a Polícia Federal divulgou nota na qual dizia que “a prisão decorreu de cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e as autoridades policiais dos EUA”. Em entrevista à CNN Brasil, Andrei também havia dito naquele dia que a ação foi “fruto da cooperação internacional entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado”.
Nesta quarta, ficou claro na entrevista que a “cooperação” foi o fato de a PF ter informado o ICE que Ramagem estava sem passaporte. Dúbia, a versão inicial dava a entender que todo o processo seria resultado de uma ação conjunta – o que, agora, está claro não ter sido o caso.
Sobre a situação do delegado Marcelo Ivo de Carvalho, oficial de ligação da PF em Miami, Rodrigues negou que ele tenha sido expulso pelo governo americano. Afirmou à GloboNews que foi ele próprio quem determinou o retorno do delegado ao Brasil, após suas credenciais terem sido barradas ao tentar acessar a unidade do ICE.
“Não há nenhuma expulsão de funcionário brasileiro. Ele voltou por determinação minha, em razão desse episódio, para que possamos esclarecer se há algum processo formal no Departamento de Estado ou no próprio ICE”, disse Rodrigues.
O diretor afastou qualquer responsabilidade de Marcelo Ivo no caso e negou a ocorrência de irregularidades em sua atuação. “Não há a menor dúvida de que essa participação da PF está alicerçada na cooperação internacional, nos acordos que temos com os Estados Unidos, que permitem a atuação dos nossos policiais no exterior”, afirmou.
Andrei informou ainda que aplicou o princípio da reciprocidade e determinou a retirada das credenciais de um policial norte-americano que atuava na sede da Polícia Federal, em Brasília. A medida já havia sido antecipada pelo presidente Lula na terça-feira (21), durante agenda em Hannover, ao final de sua viagem à Alemanha, antes de seguir para Lisboa.

