O líder do governo no Senado Jaques Wagner, do PT da Bahia, foi um dos alvos da 9ª fase da operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (18), pela Polícia Federal. Os investigadores cumprem 18 mandados de busca e apreensão, em endereços ligados ao parlamentar, ao ex-sócio do Banco Master, Augusto Ferreira Lima, e a outros alvos.
Segundo o mandado expedido pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, Wagner é suspeito de ter recebido propina para atuar em projetos legislativos favoráveis aos interesses do Banco Master. O documento mostra indícios de que o parlamentar ganhou um apartamento, avaliado em 2,45 milhões de reais, e pelo menos outros 3,5 milhões de reais em dinheiro.
A decisão cita duas situações que, segundo a PF, Wagner atuou em favor do Master. A primeira se deu na aprovação de uma medida provisória, ainda no governo Bolsonaro, que ampliava a margem de empréstimos consignados a trabalhadores celetistas, aposentados e pensionistas, além de autorizar crédito a beneficiários do BPC e de outros programas de transferência de renda.
A segunda foi a atuação do petista em favor da “Emenda Master”, apresentada pelo senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí, que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de 250 mil reais para 1 milhão de reais por pessoas física por quatro anos. A principal plataforma de captação de clientes do Master era oferecer CDBs que prometiam pagar até 140% do CDI, num mercado onde as maiores taxas ficam em 120%, com garantia da cobertura do FGC. A Polícia Federal descobriu que a emenda foi redigida por um funcionário do Banco Master, impressa e entregue na casa de Ciro Nogueira, que a apresentou no Senado.
A decisão cita vínculos entre Jaques Wagner e Augusto Lima e o Master. Afirma que, em 2022, o Master fez os primeiros contratos com a BN Financeira, que pertence à nora do senador, Bonnie Bonilha, em período próximo à atuação de Wagner no projeto dos consignados. Esses contratos funcionaram como canal pelo qual o banco repassava dinheiro ao entorno do parlamentar — em troca, na leitura dos investigadores, do empenho do senador em pautas de interesse do Master. De acordo com documentos da CPI do Crime Organizado, a BN recebeu 12 milhões de reais do Master entre 2022 e 2025.
A investigação aponta que Wagner e Lima possuem um relacionamento “antigo, próximo e marcado por elevado grau de confiança pessoal”. A decisão afirma que, além da propina, a polícia encontrou registros de vantagens pessoais concedidas pelo banqueiro ao senador, como vôos aeronaves particulares e ingressos de camarote em shows internacionais. Num caso, segundo a PF, Lima orientou sua secretária a comprar ingressos para Wagner ir ao show de uma cantora em Los Angeles em junho de 2023. A compra de 63 mil reais foi feita pela Reag, a gestora de recursos de João Carlos Mansur, parceira do Master na fraude.
Em relação ao apartamento, a PF afirma que foi uma operação de ocultação de patrimônio. A PF mostra mensagem em que Wagner envia a Lima o contato da gerente da construtora Moura Dubeux em Salvador no final de novembro de 2024 com o texto “a unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi (milhões de reais)”. A unidade, no empreendimento Poème Horto, em Salvador, foi comprada formalmente pela Epítome S.A., com recursos de fundos do grupo, e não em nome do senador.
De acordo com a PF, as tratativas sobre o imóvel continuaram mesmo após a deflagração da primeira fase da operação Compliance Zero, em novembro do ano passado, por meio de operadores que trocavam minutas e instrumentos de cessão de direitos. Mensagens entre Wagner e Lima mostram o parlamentar enviando ao banqueiro dados sobre o imóvel, para finalizar formalmente a transação.
Os pagamentos enfrentaram dificuldades devido à derrocada do Master no ano passado. Em meio à tentativa de venda do banco para o BRB, o enteado de Wagner, Eduardo Mendonça Sodré Martins, ligado à BN Financeira, cobrava de Augusto Lima os valores em aberto — em uma das mensagens, alertava que vencimentos altos estavam próximos.
Lima, por sua vez, atribuía a dificuldade de pagar ao insucesso da operação de venda do Master ao BRB. A pendência só foi quitada em 17 de outubro de 2025, um mês antes da primeira fase da operação Compliance Zero, quando a BN Financeira recebeu a transferência de 3,5 milhões de reais, paga pela PKL One Participações, companhia vinculada a Lima e dirigida por uma prima dele, Andréa Lima Novaes. Para os investigadores, a operação também tinha como objetivo ocultar a origem e o destino do dinheiro.
Em nota, a defesa de Augusto Lima afirma que “as diligências realizadas pela Polícia Federal nesta data eram desnecessárias, uma vez que Augusto Lima está há seis meses à disposição das autoridades para esclarecer os fatos em apuração. De todo modo, as medidas contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos. Augusto Lima sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública”.
A defesa do senador Jaques Wagner ainda não se manifestou.

