Em dezembro de 2025, o Banco Digimais, do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, extinguiu seu conselho de administração, uma das principais instâncias de controle e governança. O colegiado havia sido criado no ano anterior, como parte do plano de gestão de crise negociado com o Banco Central.
Três semanas após a extinção, o banco vendeu 741,3 milhões de reais em cotas do fundo de investimento Hermon à sua controladora indireta, a holding B.A. Empreendimentos e Participações. A operação teve peso decisivo no lucro do banco em 2025, mas levou auditores a alertar que a transação não refletia condições usuais de mercado.
A extinção do conselho foi aprovada em assembleia em 8 de dezembro de 2025. Na ata, o Digimais usou inicialmente a palavra “desconstituição”. Em 2 de abril de 2026, outra assembleia corrigiu o documento e passou a registrar a “extinção do conselho de administração”. Em 7 de abril, cinco dias depois, o BC aprovou a alteração estatutária.
O intervalo é relevante porque o conselho havia sido criado justamente para supervisionar operações sensíveis. Pelo estatuto aprovado em 2024, cabia ao órgão orientar os negócios do banco, fiscalizar a diretoria, examinar documentos, pedir informações sobre contratos, aprovar vendas de ativos fora do curso regular das operações e supervisionar controles internos e gestão de riscos.
O conselho foi instalado em 2024 com seis integrantes, três deles independentes e com experiência no mercado financeiro. A criação aparece nos documentos do banco como parte do plano estratégico aprovado pelo BC em 11 de abril daquele ano. Na prática, o órgão acrescentava uma camada profissional de supervisão sobre um banco em crise, até então comandado pelos bispos João Luiz Urbaneja e Thiago Rodrigues Urbaneja, pai e filho, ambos dos quadros da Igreja Universal.
João Urbaneja presidia o conselho, e Thiago era vice-presidente. Entre os conselheiros independentes estavam Daniella Marques Consentino, ex-presidente da Caixa; Abelardo Duarte de Melo Sobrinho, ex-servidor do Banco Central; e Cláudio Pracownik, executivo com passagem por instituições financeiras. Em relatório de riscos, o próprio Digimais colocou o conselho no topo da governança prudencial, responsável por definir o apetite a risco e revisar estratégias.
A tentativa de profissionalizar a gestão também chegou à diretoria executiva. No final de novembro de 2025, em meio à crise, o Digimais trouxe Aldemir Bendine para ser seu CEO. Ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, Bendine foi preso em 2017 na Operação Lava Jato e condenado pela Justiça, mas sua condenação foi anulada depois. No Digimais, assumiu com a missão de arrumar a casa e conduzir a venda do banco. Sua chegada ocorreu no mesmo período em que foi aprovada a extinção do conselho de administração.
Auditores em alerta
A venda do fundo Hermon ocorreu em 29 de dezembro de 2025, 21 dias após a extinção do conselho. No balanço da B.A., a operação não aparece como pagamento à vista. A empresa registrou o fundo como ativo e, em contrapartida, uma dívida com o próprio Digimais, com vencimento em dezembro de 2032.
No balanço do banco, a venda melhorou o resultado em 126 milhões de reais. O ganho veio da reversão de uma provisão registrada anteriormente para cobrir uma possível perda no valor do ativo, ligada a um compromisso assumido com o BC. O Digimais fechou 2025 com lucro líquido de 31,3 milhões de reais. Ou seja, o efeito contábil da venda foi várias vezes superior ao lucro do ano.
Os auditores do Digimais afirmaram que a operação poderia não refletir condições usuais de mercado. Também disseram não ter obtido evidências suficientes para concluir sobre a classificação, a mensuração do ativo reconhecido e a razoabilidade dos efeitos contábeis.
No balanço da B.A., a ressalva foi mais direta. Os auditores afirmaram que a compra do Hermon não refletia condições usuais de mercado porque não previa remuneração compatível com sua natureza econômica e dependia de recebimento pela compradora ou de aporte dos controladores finais.
A estrutura financeira da B.A. reforça as dúvidas. No fim de 2025, a empresa tinha 209,7 milhões de reais em caixa, valor muito inferior aos 741,3 milhões de reais do Hermon. Seu fluxo de caixa mostra que a compra do fundo foi acompanhada por aumento quase equivalente, de 745,4 milhões de reais, em dívidas com empresas ligadas ao mesmo grupo, entre elas o próprio Digimais. Na prática, os documentos indicam que o ativo saiu do banco e permaneceu dentro do grupo, sem entrada imediata de dinheiro em valor equivalente.
As atas e fichas cadastrais também mostram sobreposição de comando. João Luiz Urbaneja e Thiago Rodrigues Urbaneja aparecem em posições relevantes tanto no banco vendedor quanto na holding compradora. No Digimais, João foi CEO e depois presidente do conselho de administração. Thiago foi diretor-executivo e vice-presidente do conselho. Na B.A., João presidiu assembleias, aparece como acionista e foi eleito diretor-presidente em 2026. Thiago foi secretário de assembleia em 2025 e, no ano seguinte, eleito diretor, com mandato até abril de 2028.
A venda do banco também já estava formalmente em preparação. No mesmo 2 de abril em que o Digimais corrigiu a ata para registrar a extinção do conselho, a B.A. autorizou seus administradores a avançar, por meio da Digimais Participações, nos procedimentos para a futura venda das ações do banco a outra instituição financeira.
Seis dias depois, em 8 de abril, o BTG Pactual anunciou ter assinado documentos vinculantes para comprar o banco de Edir Macedo. A operação ainda não foi concluída e depende de etapas adicionais. Primeiro, o Digimais será submetido a um processo competitivo, no qual outros bancos poderão apresentar propostas. O negócio também precisa ser aprovado pelo BC e pelo Cade. Na prática, o BTG se coloca como principal interessado, mas ainda não garantiu a compra.
O modelo segue as diretrizes do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, que deve estruturar o processo e pode oferecer suporte financeiro à operação, segundo uma pessoa a par das negociações ouvida pela reportagem.
A crise do Digimais não é recente. Em 2022, o banco saiu de lucro de 49,1 milhões de reais para prejuízo de 322,7 milhões de reais. As provisões para perdas de crédito chegaram a 902,5 milhões de reais, e a inadimplência atingiu 41,75%. No mesmo ano, os auditores da CLA Brasil já haviam feito ressalva sobre uma operação com a B.A.: a licença de uso da marca “Digimais”, avaliada em 93 milhões de reais.
Em 2023, o foco passou aos FIDCs. O banco tinha 855,5 milhões de reais em cotas de fundos de direitos creditórios, que geraram 520,8 milhões de reais em receitas com títulos e valores mobiliários. A auditoria ressalvou a mensuração desses ativos, e o próprio Digimais reconheceu ajuste prudencial de 200 milhões de reais.
Em março de 2024, o banco apresentou ao BC um plano de recomposição de capital e reestruturação. O plano previa aumento de capital de 250 milhões de reais, provisão prudencial de 200 milhões de reais para os fundos e revisão da governança, do planejamento estratégico e da estrutura de riscos. Foi nesse contexto que o conselho foi criado e apresentado como reforço institucional.
A melhora de 2024 veio acompanhada de maior exposição a ativos complexos. Os títulos e valores mobiliários somavam 2,207 bilhões de reais naquele ano e chegaram a 4,29 bilhões de reais em 2025. A auditoria apontou limitações sobre cerca de 3,1 bilhões de reais desses investimentos.
No início da tarde de sexta-feira (12), o Bastidor enviou perguntas à assessoria do Banco Digimais sobre a extinção do conselho, a venda do fundo Hermon à B.A, as avaliações dos auditores e sobre a atuação dos pastores João Luiz Urbaneja e Thiago Urbaneja. Voltou a procurar a instituição nesta segunda (15). O Banco Digimais preferiu não comentar.

