O BTG Pactual anunciou nesta quarta-feira (8) a assinatura de um acordo vinculante para a aquisição do Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus. A operação ainda não foi concluída e depende de etapas adicionais.

Pelo acordo, o Digimais será submetido a um processo competitivo, no qual outras instituições poderão apresentar propostas. O negócio também depende da aprovação do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade. Na prática, o BTG se coloca como principal interessado, mas ainda não garantiu a compra.

O modelo segue diretrizes do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, que deve estruturar o processo e pode oferecer suporte financeiro à operação, segundo uma pessoa a par das negociações ouvida pelo Bastidor.

O histórico recente do Digimais ajuda a explicar a participação do FGC. Em meio à piora de sua situação financeira, o banco de Edir Macedo passou a adotar uma estratégia agressiva de captação de recursos com oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de remuneração elevada, entre 120% e 130% do CDI, distribuídos em plataformas de investimento – mesmo modelo usado pelo Banco Master. Como esses títulos são cobertos pela garantia do FGC, uma eventual quebra do Digimais ampliaria a exposição do fundo, que pode alcançar bilhões de reais, considerando depósitos à vista e a prazo.

Desde 2025, o Digimais vem sendo monitorado pelo BC, diante do aumento da inadimplência e da necessidade de aportes de capital por Edir Macedo. Ao longo desse período, o banco tentou encontrar um comprador, sem sucesso. Houve conversas com diferentes interessados, entre eles o Nubank e o empresário Tércio Borlenghi Júnior, da Ambipar.

Em janeiro de 2025, Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, tentou comprar o Digimais. A proposta previa a incorporação ao BlueBank (antigo Letsbank), criado após sua saída do Master, mas não foi autorizada pelo Banco Central. Posteriormente, o BlueBank voltou ao controle do Master, retomou o nome Letsbank e acabou sendo liquidado junto com o banco de Daniel Vorcaro , em novembro de 2025.

O Digimais também acumula disputas judiciais relacionadas à venda de carteiras de crédito, o que contribuiu para o aumento da percepção de risco sobre a instituição.

Para que a operação avance, ainda será necessário cumprir três etapas: a realização do processo competitivo, a definição do vencedor e a aprovação dos órgãos reguladores. O BTG precisará ter sua proposta vencedora e atender às exigências das autoridades.

No balanço mais recente, fechado no fim de 2025, o Digimais informou ter 10,06 bilhões de reais em bens e aplicações e 9,13 bilhões de reais captados com clientes. Uma parte grande desse valor veio de CDBs: 6,89 bilhões de reais em títulos com rendimento atrelado à taxa básica do mercado e 1,65 bilhão de reais em papéis com taxa definida no momento da aplicação. Para atrair investidores, o banco precisou oferecer remuneração acima da média. Com isso, gastou 1,27 bilhão de reais para captar recursos ao longo do ano.

Os números mostram que a situação do banco não preocupa só por causa dos empréstimos. No fim de 2025, o Digimais tinha 1,68 bilhão de reais em operações de crédito, já descontadas as perdas esperadas, e 4,29 bilhões de reais aplicados em papéis financeiros, incluindo fundos e dívidas de empresas. Isso indica que uma parte relevante do patrimônio estava em ativos mais difíceis de analisar e vender.

Os auditores aprovaram o balanço com ressalvas e disseram não ter conseguido checar cerca de 3,1 bilhões de reais desses investimentos. Também apontaram dúvidas sobre uma operação feita com empresa ligada ao próprio grupo, que ajudou o resultado do banco. Ao mesmo tempo, o Digimais terminou o ano com 2,14 bilhões de reais em caixa, o que indica fôlego no curto prazo. Ainda assim, a incerteza sobre parte importante dos ativos ajuda a explicar a dificuldade de encontrar um comprador.