Uma empresa controlada por Luiz Augusto do Valle de Lima adotou o nome de instituição de pagamento, registrou em cartório e passou a atuar como correspondente de instituições financeiras sem nunca ter obtido autorização do Banco Central para funcionar como tal. Documento obtido pelo Bastidor mostra que a BDN Instituição de Pagamento Ltda. “nunca esteve na condição de instituição autorizada a funcionar” pelo regulador. A BDN tem sede num apartamento residencial no Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro.

Luiz Augusto é o único sócio e administrador da empresa. Enquanto acumula pendências com o fisco, como mostrou o Bastidor, ele é dono de um conjunto de empresas e agora avança sobre o sistema financeiro regulado.

A BDN foi fundada em 1999 em Matias Barbosa, Minas Gerais, com o nome de EML Consultoria Empresarial. Por mais de duas décadas, funcionou como uma consultoria genérica, longe do sistema financeiro. Em 2021, Luiz Augusto a transferiu para o apartamento no Leblon. Três anos depois, rebatizou a empresa de BDN Instituição de Pagamento e a reorientou para atuar como correspondente de instituições financeiras. Até a última segunda-feira (15), a BDN não tinha autorização do BC. (Leia no fim do texto).

De acordo com documentos obtidos pela reportagem, em agosto de 2024, quatro meses após a mudança de nome, a BDN comprou a Seidemann Corretora de Seguros, registrada na Susep, a Superintendência de Seguros Privados, e sediada em Alphaville. Luiz Augusto assumiu a administração da corretora no mesmo ato em que assinou a compra.

O apartamento no Leblon não era o único endereço do grupo no edifício. Outra unidade abrigava a BDN Participações e Consultoria, fundada por Luiz Augusto em 2013 com Antônio Pacífico Vaz Pereira Pinto.

Em 2018, os sócios constituíram a BDN Investments USA LLC, na Flórida, nos Estados Unidos. Em janeiro de 2026, Antônio Pacífico saiu da BDN Participações, cedendo suas quotas para a XPCZ Capital Invest Ltd, empresa britânica criada em novembro de 2025 e representada por Alexandre Martins, morador de Alphaville. A sede então migrou para Barueri, em São Paulo, junto com o controle.

É também em Barueri que fica a Joia Holding Financeira. O Bastidor revelou na semana passada que Luiz Augusto abriu a holding em novembro de 2025, capitalizou com 1 bilhão de reais e definiu um objeto social com a finalidade de participar em instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central. Ele detém cerca de 95% das ações.

O histórico de Luiz Augusto remonta às últimas duas décadas. Entre 2001 e 2007, segundo denúncia do Ministério Público Federal e relatório da Receita Federal, ele e um sócio foram os donos de fato da Huss Willians, distribuidora de bebidas e cigarros cujo quadro societário era composto por laranjas. O esquema girava em torno de uma liminar obtida no Tribunal Regional Federal da 3ª Região em 2005, que suspendeu a cobrança do IPI sobre saídas de cigarros. Com a decisão na mão, a Huss Willians vendia cigarros sem recolher o tributo.

O dinheiro chegava aos beneficiários por duas rotas, segundo o relatório da Receita. Por depósitos diretos nas contas de Luiz Augusto e por transferências para a Pioneira Consultoria Financeira, empresa sob seu controle. A investigação registrou saques em espécie, compra de veículos de grande valor, de uma aeronave e aportes para uma casa de bingo. O caso foi investigado na Operação Reluz, derivação da Operação Bola de Fogo, que combatia contrabando, descaminho de cigarros e lavagem de dinheiro.

O contador e o advogado que operavam com Luiz Augusto foram alvos, mais tarde, da Operação Têmis, que investigou a venda de decisões no próprio TRF-3, o mesmo tribunal que havia concedido a liminar usada pelo esquema.

Houve consequências na esfera administrativa. Em dezembro de 2014, o Carf, o Conselho de Administração de Recursos Fiscais, manteve por unanimidade a responsabilidade tributária solidária de Luiz Augusto pela autuação da Huss Willians. O crédito era de 23,5 milhões de reais, agravado por multa qualificada de 225% e juros da Selic, conjunto que eleva o débito a mais de 75 milhões de reais. A fiscalização estimou em cerca de 189 milhões de reais as receitas omitidas no período. Luiz Augusto ainda figura na lista de devedores da PGFN, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, com cerca de 60 milhões de reais inscritos em dívida ativa.

O Bastidor tenta contato Luiz Augusto desde a semana passada por telefone, Whatsapp e e-mail. Ele bloqueou o número da reportagem e não retornou. Antônio Pacífico Vaz Pereira Pinto também foi procurado e não respondeu até a publicação deste texto.

O advogado Ricardo Magalhães Pinto foi contactado. A reportagem apresentou seu nome em empresas ligadas a Antônio Pacífico ao longo de mais de duas décadas, incluindo a BDN Participações e a BDN Investments USA LLC, constituída na Flórida em 2018 e dissolvida administrativamente em 2024. Magalhães Pinto também não respondeu.

O BC não respondeu sobre a compatibilidade do endereço residencial com os requisitos regulatórios, sobre eventual pedido de autorização em análise e sobre o cadastro de impedidos.