Os empresários Mohamad Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, afirmaram ao Ministério Público de São Paulo que foram enganados por João Carlos Mansur, fundador da Reag, em uma relação que começou com a criação de estruturas para esconder negócios e terminou em acusações de uso indevido de dinheiro para beneficiar o Banco Master.
A acusação aparece nas propostas de delação premiada da dupla, às quais o Bastidor teve acesso com exclusividade, entregues ao Ministério Público do Estado de São Paulo em outubro do ano passado. A oferta foi recusada pelos promotores em maio deste ano por, no entendimento deles, conter lacunas nas informações e pela falta de disposição da dupla em ressarcir o governo de São Paulo pelos prejuízos tributários causados pela Copape. Antes disso, a Procuradoria-Geral da República também já havia recusado uma oferta de delação dos dois.
Mohamad é o dono da Copape, a distribuidora de petróleo que deve 9 bilhões de reais do fisco de São Paulo. Ele e Beto são apontados como responsáveis, além da Copape, pela distribuidora Aster Petróleo. As empresas são consideradas peças centrais de um esquema de fraudes no setor de combustíveis.
No anexo 10 da proposta, Mohamad e Beto Louco narram o início, a expansão e o rompimento da relação com a Reag. O primeiro contato ocorreu em 2016, quando Beto Louco comprou 65% da EGCEL, fornecedora de combustíveis de Mato Grosso, por 10 milhões de reais.
Segundo sua proposta de delação, Beto Louco queria manter o controle da empresa, mas sem aparecer como dono. Na época, ele ainda não tinha relação direta com a Reag, mas conhecia Walter Ferreira III, funcionário da gestora. Foi Walter quem apresentou Beto Louco a Mansur numa reunião na sede da gestora.
Segundo as propostas dos donos da Copape, Mansur orientou a criação de um fundo em que Beto Louco seria o único cotista e faria os aportes a partir de uma conta em seu nome. Assim, ele ocultaria sua posição de controlador da EGCEL.
Uma fórmula parecida, segundo as propostas de delação, voltou a ser usada em 2020, quando Mohamad negociava a compra da Copape e da Aster, mas também queria ficar fora da estrutura formal do negócio. Beto Louco, seu sócio, procurou novamente Mansur.
Mohamad afirma que contou ao fundador da Reag que a operação da Copape não pagaria impostos estaduais. Segundo o empresário, Mansur não demonstrou preocupação com isso, nem com a origem do dinheiro. Ainda de acordo com a proposta de delação, ele disse que o melhor caminho era montar uma estrutura com um terceiro como acionista do fundo.
Mansur apresentou, então, um fundo de prateleira da Reag, o Location. A estrutura foi usada para viabilizar a operação. Técnicos da gestora prepararam a entrada de Renato Camargo como cotista do Location. O aporte inicial foi de 52 milhões de reais. O fundo fez os pagamentos à família Santiago, antiga dona dos ativos, e a Copape e a Aster foram transferidas ao Location.
Com os negócios em expansão, Mohamad e Beto Louco voltaram a procurar Mansur e Silvano Gerstel, descrito na delação como seu principal executivo. Em nova reunião na sede da Reag, acertaram a criação de um segundo fundo, o Mabruk.
Segundo os delatores, o Mabruk foi usado para comprar álcool futuro, emprestar dinheiro a usinas e fazer outros negócios, como a aquisição de imóveis e veículos. Depois, Mansur e Gerstel apresentaram uma nova proposta: um aporte inicial de 100 milhões de reais em um terceiro fundo, também com ocultação dos reais beneficiários. Nasceu assim o Mabruk II.
O Mabruk II foi estruturado para operar com duplicatas performadas. Em linguagem simples, a operação antecipa dinheiro a uma empresa tendo como garantia um pagamento futuro já previsto em duplicatas. Segundo a delação, os negócios deveriam envolver apenas companhias de baixo risco e contar com o aceite delas. Também havia previsão para empréstimos consignados.
Mohamad afirma que a finalidade do fundo foi desviada. Segundo ele, Mansur passou a operar com empresas de alto risco. Esse foi o primeiro grande atrito entre a dupla e a Reag. Mohamad e Beto Louco cobraram Mansur e Gerstel para que o fundo voltasse ao perfil combinado: empresas de baixo risco ou operações de consignado.
O acordo previa que a Reag ficaria com 5% do resultado líquido das operações do Mabruk II. Mansur e Gerstel também prometeram, segundo os delatores, rentabilidade mínima de 25% ao ano sobre os valores investidos.
Ao longo da relação, Mohamad e Beto Louco fizeram reuniões frequentes na Reag com Mansur, Gerstel e outros funcionários da gestora. Nessas conversas, dizem ter reforçado a preocupação com a blindagem dos recursos, por medo de bloqueios contra a Aster e a Copape.
Beto Louco relata que Mansur ofereceu uma operação com cártulas do Banco do Estado de Santa Catarina, o Besc. Afirma que Mansur substituía, de forma irregular, recursos do fundo por títulos podres do Besc. O dinheiro verdadeiro, segundo as propostas de delação, era transferido para outros fundos ocultos controlados por Mansur.
A finalidade da manobra, afirmam os candidatos a delatores, era proteger os recursos de bloqueios contra a Copape. Nessa estrutura, bloqueios alcançariam apenas os papéis do Besc, ativos sem valor de mercado. Como garantia, Mohamad e Beto Louco recebiam periodicamente uma espécie de título ao portador, mostrado como prova da real propriedade do dinheiro.
A versão de Beto Louco contraria depoimento prestado por Mansur à Comissão de Valores Mobiliários em setembro de 2024. Na ocasião, Mansur afirmou que os papéis do Besc tinham grande valor de mercado. A realidade está ao lado de Beto Louco e contra Mansur: usadas também na fraude do Banco Master, as cártulas do Besc nada valem.
A relação começou a desmoronar no fim de 2023. Mohamad afirma que recebeu um telefonema de Lucas Pimentel, funcionário da Reag, que dizia estar desconfortável com o que ocorria na gestora sob o comando de Mansur e Gerstel.
Segundo Mohamad, Pimentel relatou que recursos do Mabrock II, que deveriam ser destinados a operações de consignado e investimentos em empresas de baixo risco, estavam sendo usados para comprar títulos de empresas quebradas, fazer empréstimos com juros de 5% ao mês e financiar companhias em situação de insolvência. Também disse que os recursos haviam sido usados em operações com títulos do Banco Master, nas quais o dinheiro do fundo de Mohamad e Beto Louco sustentava uma operação alavancada em oito vezes.
Depois da ligação, Mohamad e Beto Louco pediram uma reunião com Mansur e Gerstel na Reag. Disseram que haviam sido enganados e cobraram uma apresentação detalhada das operações dos fundos. Segundo as propostas, a apresentação confirmou as suspeitas. A reunião terminou em briga. Os empresários exigiram a devolução dos recursos aportados, o pagamento da rentabilidade mínima de 25% ao ano e a transferência do dinheiro para operações de consignado, como havia sido combinado. Mansur prometeu resolver o problema em três semanas. Não resolveu.
Um mês depois, houve nova reunião, ainda mais tensa. Mohamad e Beto Louco disseram que denunciariam o esquema de Mansur e Gerstel. No meio da crise, Walter Ferreira III, o funcionário que havia apresentado a Reag à turma da Copape, telefonou para Beto Louco com uma nova informação. Segundo ele, todos os fundos de Mohamad e Beto Louco na gestora, não apenas o Mabruk II, estavam “bookados”: alienados em garantia aos CDBs emitidos pelo Master. Mohamad e Beto Louco ligaram então para Lucas Pimentel. De acordo com os candidatos a delatores, ele acessou registros internos da Reag e confirmou a informação.
A dupla voltou a cobrar Mansur e Gerstel e exigiu uma reunião de emergência. Segundo as propostas, os executivos passaram a evitar os empresários, alegando viagens e dando respostas evasivas. Quando respondiam, diziam que a situação podia ser um erro de sistema. Depois de dias de pressão, os recursos de Mohamad e Beto Louco foram desalienados.
Em meio às revelações, os empresários contrataram o advogado e consultor financeiro Rogério Peres para ajudá-los a deixar a Reag e transferir os fundos para outras gestoras. O processo levou meses. Após a desalienação dos ativos, Mohamad e Beto Louco retiraram os recursos da gestão da Reag. Ao longo de aproximadamente um ano, fizeram a migração gradativa para novas gestoras, até encerrar a relação com a empresa de Mansur.
Na noite da terça-feira (16), o Bastidor entrou em contato com a assessoria de imprensa da Reag e com a defesa de João Carlos Mansur, mas não houve retorno. A defesa de Silvano Gersztel não foi localizada.
Os advogados de Mohamad e Beto Louco criticaram o vazamento de informações das propostas de delação. Afirmou que não comentará detalhes do conteúdo da colaboração. Leia abaixo a íntegra da nota da defesa.

