Desde 2020, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sabe e investiga a Reag Investimentos e seu fundador, João Carlos Mansur, por suspeitas de irregularidades envolvendo cártulas do Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), papéis sem valor algum que ficaram conhecidos por terem sido usados em operações suspeitas do Banco Master.

O Besc foi extinto e incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Suas cártulas nada valem no mercado. Mas o Master usou esses títulos para inflar artificialmente o patrimônio de fundos ligados à Reag e viabilizar operações consideradas fraudulentas. Um esquema semelhante tocado pela Reag já estava sob apuração da CVM antes disso.

A investigação começou após denúncia da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) em um processo de execução fiscal contra a MKS Soluções Integradas, então controlada por dois fundos da Reag. A empresa ofereceu cártulas do Besc como garantia de pagamento de uma dívida de 80 milhões de reais. Ao analisar a documentação, a Procuradoria identificou inconsistências relevantes.

Segundo a PGFN, a MKS afirmou ter adquirido os papéis do fundo Gold Style FIDC-NP, ligado à Reag. As cártulas, no entanto, não estavam registradas em nome do fundo, mas de uma madeireira. Além disso, não foram apresentados documentos que comprovassem a aquisição dos títulos.

A Procuradoria também apontou que o Gold Style não registrou movimentações financeiras compatíveis com a tal compra dos ativos. O fundo sequer possuía conta bancária e tinha praticamente todo o seu patrimônio lastreado nas cártulas do extinto Besc.

Com base na denúncia, a CVM passou a investigar operações envolvendo cinco fundos ligados à Reag: Gold Style FIDC-NP, Excalibur FIM-CP, Novo FIM-CP, Pabbie FIM-CP e Black Eagle FIDC-NP.

Uma escalada de preços sem lastro

Em maio de 2021, a área técnica da CVM solicitou a abertura de inquérito administrativo para aprofundar as apurações. O processo só foi instaurado um ano e meio depois, em dezembro de 2022, e tem sete réus: a Reag, João Carlos Mansur, as gestoras Monetar, Terra Investimentos e WNT, além de Marcelo de Macedo Soares e Silva, da Monetar, e Rafael Barbosa Santos Coelho, da WNT.

A acusação, apresentada em abril do ano passado, após três anos e meio, descreve uma sequência de operações com as mesmas cártulas, marcadas por compras a preços irrisórios, transferências sucessivas entre fundos com beneficiários finais comuns, reavaliações rápidas que inflaram os valores e tentativas de uso desses ativos fora do ambiente dos fundos.

A cadeia começou em 11 de março de 2020, quando o fundo Excalibur adquiriu 18,1 milhões de ações do Besc da EBN Comércio, Importação e Exportação por 50 centavos cada, num total de cerca de 9,08 milhões de reais. Na época, o fundo era gerido pela Reag e administrado pela Monetar.

Quinze dias depois, o Excalibur transferiu 6,4 milhões dessas ações ao Pabbie FIDC-NP por 32 milhões de reais, ao preço de 5 reais por papel. A operação gerou um ganho imediato de aproximadamente 28,8 milhões de reais, uma valorização próxima de 900% em duas semanas.

A escalada continuou em 30 de março. O Pabbie utilizou o mesmo lote para pagar por cotas do Novo FIDC-NP, agora avaliando as ações a 75 reais cada. Com isso, o valor contábil do pacote saltou para cerca de 480 milhões de reais, alta adicional de aproximadamente 1.400% em apenas quatro dias.

Segundo a acusação, em 19 dias as mesmas ações trocaram de mãos com uma valorização acumulada de 14.900%, sem qualquer comprovação de respaldo jurídico ou econômico.

No mesmo período, as cártulas também foram usadas para subscrever cotas do Gold Style FIDC-NP, igualmente avaliadas a 75 reais por ação. O Excalibur ainda transferiu ao fundo outras 11,4 milhões de ações do Besc pelo mesmo preço. Com essas operações, o Gold Style passou a exibir patrimônio superior a 1,3 bilhão de reais, quase integralmente lastreado nesses papéis.

Para a CVM, as subscrições ocorreram sem a entrada proporcional de dinheiro e se basearam em laudos contratados pela própria Reag, considerados frágeis do ponto de vista jurídico e econômico. Um dos documentos atribui valor de 758,69 reais a cada ação do Besc, adquirida originalmente por 50 centavos.

Em depoimento à CVM, em setembro de 2024, João Carlos Mansur, ex-sócio da Reag, afirmou que cada papel poderia valer até 1.000 reais. Com base nessa avaliação, os ativos comprados pelo Excalibur por cerca de 9 milhões de reais em 2020 teriam alcançado valor estimado de 18 bilhões de reais em 2024, uma valorização de 199.900% em quatro anos.

A Reag, no entanto, nunca entrou com ação judicial contra o Banco do Brasil para cobrar a quantia bilionária. Questionado pela CVM, Mansur afirmou que a gestora manteve conversas com a área de ativos estressados do banco e que ainda avaliava a melhor estratégia para levar adiante a tese de compensação, segundo a qual o BB teria de pagar os detentores das cártulas. Se fizesse isso, as cártulas obrigatoriamente seriam oficialmente avaliadas, o que ameaçaria a avaliação feita pela Reag e pelos fundos.

Cinco anos depois, o processo administrativo sancionador continua na CVM. Reag, Mansur e os demais réus foram acusados de violar o dever de diligência, negociar ativos que não poderiam ser objeto de negociação e descumprir regras de gestão de fundos. A Procuradoria Federal Especializada junto à CVM aceitou a acusação e recomendou o envio do caso ao Ministério Público Federal, por entender que há indícios de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

PF bate à porta

No mês passado, Mansur foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura crimes contra o Sistema Financeiro Nacional envolvendo a Reag e o Master. No momento da ação policial, o empresário já estava afastado da gestora e administradora de fundos, que foi liquidada pelo Banco Central no dia seguinte.

Antes disso, em agosto de 2025, a Reag foi alvo da Operação Cardono Oculto, que investigou a infiltração do crime organizado no mercado financeiro. Entre os fundos atingidos pela operação, suspeitos de lavar dinheiro para o PCC, estão o Gold Style FIDC-NP e o Novo FIM-CP, os mesmos usados pela Reag nas operações com cártulas e também investigados pela CVM.

Procuradas, a Monetar e a Terra informam que apenas prestaram serviços de administração fiduciária, sem participação na gestão ou na tomada de decisões de investimentos dos fundos citados no processo sancionador, funções que competem ao gestor.

A WNT e Rafael Barbosa Santos Coelho informaram que o caso remonta a 2020, quando analisaram uma tese de investimento em direitos creditórios. “A empresa deixou a gestão da operação ainda em 2020 e, desde então, apenas acompanha os desdobramentos do processo administrativo relacionado ao tema. A iniciativa não teve continuidade por decisão da própria WNT e envolve questionamentos de natureza formal sobre a estrutura utilizada naquele ano”, diz a nota.

O Bastidor também procurou a Reag, mas não obteve retorno. A reportagem busca contato com as defesas de João Carlos Mansur e Marcelo de Macedo Soares.

Texto atualizado às 13h10 desta segunda-feira (9) para acrescentar o posicionamento da WNT e de Rafael Barbosa Santos Coelho, diretor responsável pelos fundos da gestora à época dos fatos apurados pela CVM.