Mohamad Hussein Mourad e seu sócio Roberto Augusto Leme Silva, o Beto Louco, afirmam, em propostas de delação obtidas pelo Bastidor, que começaram a utilizar o BK Bank, hub de lavagem investigado na Carbono Oculto, para movimentar dinheiro da Copape e da Aster Petróleo depois de receberem aval da direção da fintech para criar contas em nome de laranjas e operar sem bloqueios judiciais.

Segundo relatos dos dois, o BK Bank cedeu dois funcionários ao escritório de Mohamad, em São Paulo. Identificados apenas pelos primeiros nomes, Wesley e Marcos eram responsáveis por comandar operações financeiras das contas da Copape e da Aster e tinham ciência do uso das contas abertas em nome de terceiros.

Mohamad narra que conheceu a fintech em 2018 por meio de Marcelo Dias Moraes, conhecido como Peludo. Segundo os candidatos a delatores, o principal atrativo da instituição era o uso das contas bolsão: contas únicas que recebem e enviam dinheiro de vários clientes ao mesmo tempo, sem individualização. À época, Beto Louco optou por não dar seguimento ao negócio por avaliar que havia risco de perder o dinheiro.

A relação do grupo de Mohamad com o BK Bank foi retomada após a compra da Copape, em 2020. A Aster Petróleo operou nos mesmos moldes. A fintech passou a disponibilizar maquininhas de cartão para os postos controlados pelo grupo. Todo o dinheiro era depositado diretamente em contas bolsão do BK que, sem rastreio e fiscalização, permitiam ao grupo usar o dinheiro livremente.

A abertura de contas para laranjas ocorria sem exigência de documentação ou autorização dos titulares. A manutenção das contas era comandada diretamente por Mohamad, com o auxílio de Andrea Cristina Alves Borges, funcionária da Copape que também aparece como ex-sócia de outras empresas controladas pelo grupo.

Com a saída de Peludo, Mohamad passou a tratar diretamente com Danilo Augusto Tonin Elena, sócio do BK Bank. Segundo os empresários, a relação entre a Copape e a fintech se intensificou após a mudança. Beto Louco, por exemplo, ganhou cartão de crédito da fintech em seu próprio nome para custear despesas pessoais, depois do encerramento de sua conta no Banco Heritage, no Uruguai.

As operações com o BK, de acordo com anexos da delação de Mohamad e Beto Louco, se estenderam até junho de 2025, cerca de dois meses antes da deflagração da Operação Carbono Oculto. No caso de Beto Louco, o encerramento ocorreu em 2024, após Mohamad comunicar o rompimento com a fintech. As propostas de delação não explicam a motivação para o fim da parceria entre o BK e a Copape.

As investigações mostraram que o BK Bank movimentou, em cinco anos, 46 bilhões de reais de diversos clientes. A instituição é descrita pela Receita Federal e pelo Ministério Público como um “buraco negro” no sistema financeiro. As operações Carbono Oculto, Quasar, Tank e Spare, deflagradas desde o ano passado e voltadas a fraudes no setor de combustíveis, têm em comum o BK Bank como instrumento de lavagem de dinheiro.

Quando ainda se chamava Berlin Finance, o BK venceu licitações para processar pagamentos da Câmara dos Deputados, do Senado, do Serpro e de diversas prefeituras. Os contratos foram cancelados após a fintech se tornar alvo da Carbono Oculto. Em 2021, o BK Bank foi citado na CPI da Pandemia por intermediar repasses entre empresas do lobista Danilo Trento e de Francisco Maximiano, da Precisa Medicamentos.

O Bastidor procurou Danilo Augusto Tonin Elena na quarta-feira (17), às 21h40, por telefone. Ele não respondeu até a publicação desta reportagem. Andrea Cristina Alves Borges foi procurada e não retornou o contato.

O BK Bank afirma por meio de nota que “não mantinha qualquer relação com os investigados, limitando-se apenas à prestação de serviços de meios de pagamento”. Leia a íntegra abaixo.

Os advogados de Mohamad e Beto Louco criticaram o vazamento de informações das propostas de delação e afirmaram que não comentarão detalhes do conteúdo da colaboração. Leia abaixo a íntegra da nota da defesa.