O ministro Gilmar Mendes discursava nesta quinta-feira (19) em homenagem aos nove anos do colega Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal, quando disse o seguinte: “Vossa Excelência evitou que caíssemos em um abismo autoritário, onde provavelmente ainda estaríamos vivendo tempos sombrios. O Brasil tem uma dívida para com vossa excelência, ministro Alexandre. As futuras gerações…”, e interrompeu a fala, com a voz embargada. Tomou um gole de água e terminou: “… saberão reconhecê-lo”.
Mendes fazia referência ao processo que levou à condenação de Jair Bolsonaro e seus auxiliares por tentativa de golpe de estado num desagravo a Moraes, que agora é atingido por suspeitas devido a contatos com Daniel Vorcaro, e ao contrato de 3,6 milhões de reais mensais do escritório de sua esposa, Viviane Barci, com o Banco Master.
Horas antes, Mendes barrara a segunda tentativa da CPI do Crime Organizado de investigar os negócios da sociedade anônima do ministro Dias Toffoli com um fundo ligado a negócios do Banco Master em menos de um mês. Mendes se tornou o defensor público número 1 dos colegas enrolados com o escândalo.
Em janeiro, Mendes saiu em defesa de Dias Toffoli após questionamentos sobre sua atuação como relator do caso Banco Master. Nos dias 22 e 26, publicou mensagens nas redes sociais em que respaldou a atuação do colega e citou uma manifestação da Procuradoria-Geral da República pela regularidade de sua permanência nos casos.
No final do mês passado, por meio de uma gambiarra processual, Mendes evitou que a CPI tivesse acesso aos sigilos da Maridt Participações S.A., empresa da família de Toffoli. A decisão desta quinta-feira (19) impediu a quebra dos sigilos do fundo Arleen, que comprou a parte da Maridt no Tayayá Resort.
Mendes afirmou que a CPI tentou contornar uma decisão anterior do próprio Supremo e falou em “burla” e “fraude à decisão judicial”. Mas um detalhe que chamou atenção é que a decisão foi acionada a partir do mesmo precedente construído semanas antes no caso da Maridt.
A defesa de Gilmar Mendes veio num dia ruim para o Supremo. O Estadão mostrou que um filho do ministro Kassio Nunes de Marques, Kevin Marques, advogado de 25 anos, com menos de dois anos de atuação, recebeu pagamentos de uma consultoria que, por sua vez, recebeu 18 milhões de reais do Master e da JBS.
Gilmar Mendes pode ter muito trabalho extra para defender os colegas.

