O Superior Tribunal de Justiça, o STJ, abriu processo administrativo disciplinar, chamado de PAD, contra Daimler Alberto de Campos, ex-chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti. Em maio, a Procuradoria-Geral da República, a PGR, o denunciou ao Supremo Tribunal Federal, o STF, no esquema de venda de minutas de decisões investigado na Operação Sisamnes. As acusações são corrupção passiva, violação de sigilo funcional qualificada e organização criminosa.

O PAD foi instaurado em 19 de outubro, cinco meses depois da denúncia da PGR ao STF, e tem prazo de 60 dias para conclusão, prorrogável, segundo o tribunal.

O atual presidente do STJ é o ministro Luis Felipe Salomão, que sucedeu o ministro Herman Benjamin. Na gestão de Benjamin, Daimler respondia apenas a uma sindicância investigativa. Segundo o próprio STJ, esse procedimento é preparatório e serve para decidir se há base para um processo acusatório. Não leva a punição. Em dezembro, o Bastidor revelou que Daimler era o único servidor suspeito do caso nessa situação. Outros dois servidores citados no mesmo inquérito haviam sido alvo de PAD.

Daimler chefiou o gabinete de Isabel Gallotti a partir de 2010. A denúncia da PGR o aponta como responsável pela distribuição de processos dentro do gabinete e pelo encaminhamento de minutas para assinatura da ministra. Segundo a acusação, uma funcionária do advogado Roberto Zampieri registrou em mensagem, em setembro de 2021, ter falado com Daimler por telefone sobre a tramitação de um processo. A ministra Isabel Gallotti não é investigada.

Zampieri era o intermediário do lado privado de um esquema de venda de decisões no STJ. Ele foi assassinado em Cuiabá em 5 de dezembro de 2023, e as mensagens encontradas em seu celular revelaram a organização. Do outro lado estava o lobista Andreson Gonçalves, apontado pela PGR como o articulador que ligava advogados interessados a assessores com acesso às minutas.

O dinheiro pago por interessados com processos no STJ passava pela Florais Transportes, empresa de Andreson em Mato Grosso, que recebeu 572,5 milhões de reais entre outubro de 2019 e novembro de 2024. Parte dos recursos chegava às mãos de operadores encarregados de sacar em espécie. Um deles, o empresário Diego Cavalcante Gomes, movimentou 60,2 milhões de reais entre 2018 e 2024, como o Bastidor mostrou em outubro de 2025.

Márcio José Toledo Pinto, que atuou nos gabinetes das ministras Isabel Gallotti e Nancy Andrighi, também foi denunciado pela PGR. Ele foi demitido em setembro de 2025, ao fim de um PAD. Segundo a denúncia, a empresa aberta pela mulher dele, Vanessa Resende Gonçalves, recebeu cerca de 4,09 milhões de reais da Florais.

Daimler é analista judiciário concursado. Em fevereiro de 2025, o STJ nomeou outra servidora para a chefia do gabinete de Gallotti, na vaga aberta com a exoneração dele, conforme portaria assinada por Herman Benjamin e publicada no Diário Oficial da União. Daimler continua no cargo efetivo, mas está afastado das funções por decisão do ministro Cristiano Zanin, relator do caso no Supremo.

Ao Bastidor, o advogado de Daimler, Bernardo Fenelon, disse que ainda não teve acesso à decisão. Em nota, afirmou que a abertura do PAD é um desdobramento das investigações criminais e “não decorre de qualquer fato ou elemento novo”. Segundo ele, não há provas da participação de Daimler nos fatos, e o nome do cliente foi usado “de forma espúria” por causa do cargo de chefe de gabinete que ocupava.