O governo antecipou do dia 30 para esta segunda-feira (19), a seis dias do segundo turno das eleições, os pagamentos do Bolsa Família para todos os inscritos. Cerca de 19 milhões de famílias vão receber os pagamentos como reajuste de 15,04%, decretado em setembro, antes da votação, no domingo (25). Os depósitos terminam na quarta-feira (21).

Pela regra habitual, os depósitos são escalonados de acordo com o último dígito do Número de Identificação Social, o NIS, que identifica cidadãos que recebem benefícios sociais ou têm direitos previdenciários e trabalhistas. Com a portaria publicada nesta segunda, quem tem NIS de final 1 recebeu nesta segunda e quem tem final 2 receberá na terça-feira (20). Todos os demais, de final 3 a 0, receberão na quarta-feira (21).

O benefício médio subiu de 678,18 reais, em setembro, para 782,92 reais em outubro. Serão 15,06 bilhões de reais injetados na economia a poucos dias da eleição. A medida se soma a outras benesses, como o Desenrola 3.0 e o corte de tributos sobre os combustíveis.

Ao anunciar o reajuste, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, estimou o custo em 5,8 bilhões de reais neste ano e em cerca de 22 bilhões em 2027. Ele defendeu a medida como reposição da inflação autorizada pela lei do programa e afirmou que a despesa de 2026 será coberta com o remanejamento de sobras do Orçamento.

Em 25 de setembro, nove dias antes do primeiro turno, Lula assinou a medida provisória que criou o Desenrola 3.0, nova fase do programa de renegociação de dívidas de pessoas físicas. O governo estima que até 150 bilhões de reais em dívidas possam ser renegociados. O chamamento dos credores está previsto para novembro, depois da eleição.

Em 9 de outubro, a 16 dias do segundo turno, um decreto zerou os tributos federais sobre a gasolina. A desoneração vale de 10 de outubro a 9 de novembro, duas semanas depois da votação, e o governo estimou o custo em 2,4 bilhões de reais por mês. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou relação entre a medida e o calendário eleitoral.

Em nota publicada nesta segunda-feira (19), o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, o MDS, apresenta a concentração dos pagamentos do Bolsa Família como medida preventiva diante do El Niño e afirma que o formato será repetido em novembro e dezembro. A decisão coube ao comitê permanente do ministério para respostas de proteção social em calamidades públicas e emergências. O texto não menciona a eleição.

Para justificar a medida, a pasta cita dois conjuntos de dados. O primeiro é o número de reconhecimentos federais de situação de emergência e de calamidade pública em agosto e setembro. Foram 518, ante 253 no mesmo período de 2025.

Segundo o ministério, a alta veio principalmente das tempestades no Sul. Os reconhecimentos por chuva, granizo, vendaval e inundação passaram de 81 para 272. Já os reconhecimentos por estiagem e seca subiram de 172 para 239.

O segundo é o Boletim nº 4 do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por órgãos federais de meteorologia, monitoramento ambiental e defesa civil. Para o último trimestre, o boletim prevê chuva abaixo da média em grande parte do Norte e em áreas do Nordeste e do Centro-Oeste. No Sul, em parte do Sudeste e no leste do Nordeste, a previsão é de chuva acima da média.

O ministério afirma que a unificação de pagamentos já foi usada antes e cita as enchentes do Rio Grande do Sul, em maio de 2024. Na ocasião, no entanto, a medida alcançou apenas as famílias dos 497 municípios gaúchos. Desta vez, a concentração vale para todos os beneficiários do país, inclusive os que vivem em cidades sem emergência reconhecida.

A mudança de calendário às vésperas de uma votação tem precedente. Em 3 de outubro de 2022, um dia depois do primeiro turno, o então Ministério da Cidadania publicou uma instrução normativa que antecipou os pagamentos do Auxílio Brasil, nome que o Bolsa Família tinha no governo Jair Bolsonaro. Os depósitos, previstos para 18 a 31 de outubro, passaram a ocorrer de 11 a 25, cinco dias antes do segundo turno.

Há, porém, diferenças entre as duas medidas. Em 2022, o escalonamento por final de NIS foi mantido e a mudança valeu apenas para outubro. Agora, o pagamento fica concentrado em três dias e a regra se estende a novembro e dezembro.