Descrentes da possibilidade de recuperação da Fictor, credores passaram a buscar bens e ativos ligados ao conglomerado e a seus executivos fora do Brasil. Eles suspeitam que parte dos bilhões de reais captados de investidores tenha sido enviada ao exterior e tentam localizar recursos que possam reduzir seus prejuízos.
As buscas chegaram a Portugal, aos Países Baixos e a Luxemburgo. Documentos reunidos pelos credores revelam uma aplicação pessoal do fundador da Fictor, Rafael Góis, num fundo português, sua participação numa empresa holandesa e uma conta bancária dessa sociedade numa instituição de Luxemburgo, que identifica Luiz Phillippe Gomes Rubini, ex-sócio do grupo, como controlador da empresa.
A dificuldade de localizar dinheiro no Brasil contribuiu para a mudança de estratégia dos credores. Em agosto, a Justiça de São Paulo autorizou o bloqueio de bens e ativos da Fictor Invest e de executivos ligados ao grupo para garantir o pagamento de 664 mil reais cobrados por um investidor. As buscas, porém, não encontraram saldo suficiente nas contas dos envolvidos.
Uma das iniciativas dessa caça aos ativos no exterior ocorreu em 10 de outubro, quando um grupo de investidores apresentou uma notícia-crime à Polícia Federal pedindo a investigação de possíveis crimes financeiros e o rastreamento de bens fora do país ligados aos executivos da Fictor.
Esses credores trabalham com a hipótese de que os sócios tenham cometido evasão de divisas e ocultação de patrimônio. Querem descobrir se recursos captados dos investidores brasileiros foram enviados para empresas e contas bancárias no exterior. Os documentos reunidos até agora, porém, não comprovam que essas estruturas tenham recebido dinheiro desviado do conglomerado.
Em nota, a Fictor esclareceu que a estrutura internacional citada pelos credores fazia parte de sua estratégia de expansão internacional. Disse também que a iniciativa foi descontinuada e que hoje não tem investimentos, ativos ou operações na Europa. “A companhia rejeita qualquer tentativa de associar projetos empresariais divulgados publicamente a supostas práticas de ocultação patrimonial ou transferência irregular de recursos”, diz o texto. (Leia a íntegra da nota abaixo).
Uma das descobertas desses credores está na declaração de Imposto de Renda de Góis referente a 2024, que consta no processo de recuperação judicial. Nela, o CEO da Fictor informou uma aplicação pessoal de 3,05 milhões de reais no FCT Equity, um fundo de capital de risco sediado em Portugal. O documento identifica um contrato de câmbio de 1º de outubro daquele ano, realizado por meio do Banco do Brasil, para a remessa dos recursos.
Administrado pela gestora portuguesa Above Capital, o FCT Equity tinha como objetivo captar 50 milhões de euros para investir em projetos de energia renovável. A Fictor Energia, empresa do conglomerado brasileiro, atuava como consultora do fundo. Góis afirmou que o grupo também participava como coinvestidor.
A relação desperta o interesse dos credores, que querem esclarecer a origem do dinheiro aplicado por Góis e seu destino. A documentação enviada à PF não mostra se os recursos vieram exclusivamente do patrimônio pessoal do executivo ou se passaram por empresas do grupo. Uma consulta aos registros da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, órgão regulador português, indica que o FCT Equity foi liquidado em 2026.
A presença da Fictor em Portugal não era desconhecida. Em dezembro de 2024, pouco mais de dois meses depois da remessa declarada por Góis, o empresário anunciou ao jornal português ECO um investimento de 250 milhões de euros, o equivalente a 1,61 bilhão de reais na época, na construção de uma usina solar na região de Lisboa.
O empreendimento seria desenvolvido em parceria com uma multinacional, cujo nome seria divulgado até março de 2025. Na entrevista, Góis apresentou Portugal como a principal porta de entrada da Fictor na Europa e disse que pretendia expandir os negócios para outros mercados. Afirmou também que os investimentos previstos no país poderiam gerar retornos anuais de 12% a 18%.
Na mesma entrevista, o empresário confirmou a participação da Fictor no FCT Equity, mas não revelou quanto havia sido captado pelo fundo. Também não informou a identidade da empresa parceira no projeto solar, a localização exata da usina nem quanto cada companhia investiria. Na página institucional da Fictor, o empreendimento ainda é apresentado como um projeto com implementação prevista para os próximos anos.
Outro caminho investigado pelos credores passa pelos Países Baixos. Na mesma declaração de Imposto de Renda, Góis informou possuir uma ação da Fictor B.V., sociedade constituída na Holanda em julho de 2023, pelo valor nominal de um euro.
O Bastidor teve acesso a uma correspondência do European Depositary Bank, instituição financeira sediada em Luxemburgo, que identifica uma conta em euros em que a empresa holandesa aparece como titular. Datada de 22 de maio de 2025, a carta informa que dados financeiros referentes a 2024 seriam comunicados às autoridades tributárias brasileiras por meio do sistema internacional de troca automática de informações fiscais.
O documento é dirigido a Rubini, ex-sócio da Fictor, identificado pelo banco como controlador da sociedade holandesa. A documentação estabelece, assim, vínculos de Góis e Rubini com a mesma empresa, mas não esclarece como seu capital estava distribuído nem quais recursos eram mantidos na conta bancária.
A correspondência não informa o saldo da conta nem suas movimentações. Os credores afirmam, porém, que a Fictor não havia informado aos investidores a existência da sociedade holandesa ou de sua relação bancária em Luxemburgo. Por isso, querem que a PF identifique os controladores da empresa e investigue a origem dos recursos eventualmente movimentados.
Rubini também aparece ligado a uma empresa portuguesa. Em 28 de outubro de 2025, ele outorgou uma procuração pública na condição de gerente da Fictor Lda., sediada em Lisboa, concedendo a Tiago Velleca poderes para movimentar uma conta da sociedade no Banco BPI, sem limite de valor.
A data chamou a atenção dos investidores. A procuração foi assinada 18 dias depois da interrupção dos saques, quando a Fictor já enfrentava dificuldades para devolver o dinheiro aplicado por seus clientes.
A autorização não comprova que tenha ocorrido uma transferência, mas os credores querem saber se a conta recebeu recursos de empresas brasileiras do conglomerado durante a crise. Também pretendem identificar eventuais movimentações realizadas depois da concessão dos poderes a Velleca.
Procurado pelo Bastidor, Rubini afirmou que as empresas na Holanda e em Portugal foram constituídas para atividades empresariais e que as remessas recebidas do Brasil se destinaram a despesas de implantação e manutenção das operações. Segundo ele, o projeto holandês foi descontinuado, enquanto a estrutura portuguesa chegou a manter escritório em Lisboa e cerca de dez funcionários. O ex-sócio disse que a procuração concedida a Velleca tinha como objetivo resolver questões bancárias e contratuais relacionadas ao encerramento das atividades em Portugal. Afirmou ainda que as movimentações foram documentadas e negou possuir recursos pessoais em contas ou aplicações no exterior. (Leia a íntegra da nota abaixo).
Na notícia-crime, os investidores pedem que a Polícia Federal obtenha registros bancários e societários, identifique os beneficiários das estruturas no exterior e solicite cooperação internacional a Portugal e aos Países Baixos. O objetivo é reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro desde a captação dos investidores no Brasil até eventuais contas e aplicações fora do país.
A documentação conhecida até agora identifica investimentos, participações societárias e relações bancárias na Europa, mas não estabelece uma ligação entre essas estruturas e os recursos captados dos clientes da Fictor.
A busca por patrimônio no exterior ocorre enquanto a recuperação judicial do conglomerado avança sem uma perspectiva concreta de pagamento aos credores.
Com dívidas de 4,3 bilhões de reais, a Fictor conseguiu em 14 de outubro adiar para 4 de dezembro a assembleia que discutiria seu plano de recuperação, mesmo sem apresentar uma nova proposta ou documentos que demonstrassem a viabilidade do negócio.
Durante a assembleia do dia 14, o advogado da Fictor, Daniel Machado Amaral, disse que a empresa poderia usar direitos creditórios para pagar parte das dívidas. Entre os ativos mencionados estavam cotas do fundo Krispy, ligado a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.
Em outubro de 2025, a Fictor assinou um contrato de 500 milhões de reais com a Titan Capital Holding, empresa ligada a Vorcaro e registrada nas Ilhas Cayman, para adquirir cotas do fundo Krispy. O negócio envolvia direitos creditórios ligados a duas usinas de açúcar e etanol, avaliados à época em cerca de 1,6 bilhão de reais. São créditos conhecidos como pré-precatórios, cujo recebimento depende do desfecho de disputas judiciais. O contrato previa pagamentos em etapas, e ainda havia pendências na transferência das cotas. Em vez de tranquilizar os credores, a referência a negócios ligados ao Master aumentou a desconfiança sobre a capacidade da Fictor de pagar suas dívidas.
Para esses investidores que já não acreditam na recuperação da Fictor, a identificação de patrimônio no exterior tornou-se uma alternativa à espera por um plano de pagamento. Mais do que esclarecer o destino dos investimentos anunciados pelo conglomerado na Europa, eles querem descobrir se existem recursos que possam ser alcançados pela Justiça e utilizados para diminuir seus prejuízos.
O Bastidor também procurou a Above Capital, gestora do FCT Equity, na tarde de segunda-feira (19), para esclarecer a origem e o destino dos recursos investidos no fundo e a situação dos projetos que seriam financiados por ele. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.
Leia a nota enviada pela Fictor:
Os investimentos e projetos mencionados fazem parte de uma estratégia de expansão internacional da companhia, desenvolvida à época com o objetivo de ampliar sua atuação no mercado europeu, especialmente no setor de energia. As iniciativas foram divulgadas publicamente, com repercussão em veículos de imprensa portugueses e informações disponibilizadas no próprio site da Fictor.
A Fictor destaca que as iniciativas de expansão internacional foram descontinuadas e que atualmente não possui investimentos, ativos ou operações na Europa. Ressalta, ainda, que as informações patrimoniais mencionadas estão devidamente declaradas, tanto no Imposto de Renda de Rafael Góis quanto na documentação apresentada no âmbito do processo de recuperação judicial.
A companhia rejeita qualquer tentativa de associar projetos empresariais divulgados publicamente a supostas práticas de ocultação patrimonial ou transferência irregular de recursos. O Grupo Fictor reafirma seu compromisso com a transparência, a prestação de esclarecimentos e a colaboração com as autoridades competentes.
Leia a nota enviada por Luiz Phillippe Gomes Rubini:
As estruturas do grupo Fictor na Holanda e em Portugal foram constituídas para fins empresariais, com recursos destinados à sua implantação, funcionamento e manutenção.
Nos Países Baixos, a Fictor B.V. integrou um projeto de reorganização societária internacional posteriormente descontinuado. Foram constituídas duas sociedades, sem desenvolvimento de atividades operacionais relevantes. As despesas de estruturação, assessoria e manutenção foram pagas por meio de remessas bancárias documentadas.
Em Portugal, a estrutura foi constituída em 2023, com a participação de Luiz Rubini, posteriormente transferida aos atuais sócios da Fictor. A operação manteve escritório em Lisboa e chegou a contar com aproximadamente dez funcionários. Os recursos recebidos do Brasil destinaram-se ao custeio das operações ao longo de três a quatro anos.
A procuração concedida a Tiago Velleca, em 28 de outubro de 2025, destinou-se a providências bancárias e contratuais relacionadas ao encerramento das atividades em Portugal.
As movimentações financeiras foram realizadas regularmente por meio de contas bancárias de empresas do grupo Fictor, com documentação contratual e registros contábeis e cambiais.
Rubini afirma não possuir recursos pessoais nessas estruturas ou em qualquer outra conta ou aplicação no exterior e permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.