Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão tiveram sua campanha sob escrutínio da Justiça Eleitoral. Foram acusados de usar empresários (como Luciano Hang) para financiar disparos em massa nas eleições de 2018. Nada foi provado após dois anos de investigações e pouco mais de cinco mil páginas do processo sigiloso ao qual o Bastidor teve acesso. Mesmo com o fim do caso, o TSE manteve os autos sob segredo.
O que se vê na ação é uma briga de bairro, em que todos discutem e nada é resolvido. O processo é um compilado de notícias usado para justificar acusações de parte a parte. O PT dizia que Bolsonaro e Mourão mentiam para vencer o pleito. E a campanha dos militares acusava o PT e a Folha de S.Paulo de conluio para evitar a derrota concretizada em 28 de outubro de 2018 – nem isso foi confirmado pela Justiça.
A PGE corrobora essa conclusão em uma das inúmeras manifestações: “Impende repisar que as provas produzidas consistem em matérias jornalísticas que informam a divulgação de notícias falsas por meio da internet, muitas delas relacionadas ao período eleitoral – sobretudo a reportagem do jornal Folha de São Paulo do dia 18 de outubro de 2018”.
No julgamento no TSE, em outubro do ano passado, os ministros admitiram que não havia uma prova sequer de que o presidente e seu vice usaram do WhatsApp para mentir aos eleitores – apenas o ministro Sérgio Banhos duvidou publicamente da existência dos disparos. Porém, a corte mandou diversos recados ao capitão reformado sobre mentiras eleitorais.
O TSE também aproveitou uma ação contra o então deputado estadual Fernando Francischini (cassado até 2026) para mostrar ao presidente da República que não está de brincadeira. Mas o caso não passou disso. Bolsonaro e Mourão continuam mandando no Brasil e tiveram suas contas eleitorais aprovadas pelo mesmo TSE que os absolveu.
A PGE até concordou com a quebra dos sigilos fiscal e bancários de Luciano Hang e das empresas supostamente contratadas por 12 milhões de reais para enviar material bolsonarista a eleitores. Nem isso mostrou qualquer irregularidade. O PT sabia da fragilidade do pedido de investigação que fez ao TSE. O argumento foi o de que 10 mil mensagens teriam mudado os rumos eleitorais e impediram Fernando Haddad – candidato escolhido por Lula de dentro da prisão – de assumir o Palácio do Planalto ao lado de Manuela D’Ávila.
Os documentos (se é que é possível chamar assim o material) levados pelos petistas com apoio indireto do PDT do desafeto Ciro Gomes, além da notícia da Folha, contêm cópias de mensagens distribuídas por WhatsApp. Porém, não uma prova sequer de que houve financiamento bolsonarista ou pedido dos atuais presidente e vice para que isso fosse feito.
Corroboram a fragilidade do processo – que movimentou o TSE e gastou dinheiro público durante anos – o fato de o então relator do processo ainda em 2018 e 2019, Jorge Mussi, indeferir alguns testemunhos por “falta de interesse útil”. Soma-se a isso pesquisa divulgada há quase quatro anos mostrando que 73% dos eleitores não receberam mensagens com mentiras contra Bolsonaro, Mourão, Haddad ou Manuela.
O levantamento do Ibope também mostrou que 75% dos eleitores que receberam tais mensagens não foram influenciados pelo material. Há ainda que ser considerada a vitória de Hang contra a Folha de S.Paulo por indenização devido à notícia publicada pelo jornal que deu início a toda essa confusão. O pagamento só não ocorreu porque Dias Toffoli suspendeu a decisão em fevereiro deste ano.

