O Banco Master gastou 34,4 milhões de reais, entre 2022 e 2025, com algumas das maiores auditorias independentes do mundo. Deloitte, Ernst & Young, Grant Thornton, KPMG, PwC e UHY Bendoraytes foram contratadas pela instituição controlada por Daniel Vorcaro. Nenhuma delas fez ressalvas em seus relatórios sobre as contas do banco, apesar de terem notado indícios de inconsistências.
O Master foi liquidado em novembro pelo Banco Central e a Polícia Federal investiga uma extensa rede de fraudes de bilhões de reais. Os pagamentos constam dos dados enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado no Senado, que terminou nesta terça-feira (14). São pagamentos declarados pelo Master em seu Imposto de Renda.
Auditorias independentes não têm o poder das autoridades de controle e investigação, mas tampouco operam no escuro. Seu papel é testar se há evidências suficientes para sustentar os números apresentados por bancos ou empresas e avaliar riscos de distorções relevantes, causadas por erro ou má-fé. O trabalho é feito por amostragem e não equivale a uma investigação forense. Quando essas evidências falham, o esperado é que o auditor reduza a confiança no balanço ou qualifique sua opinião. No caso do Master, isso não aconteceu.
Entre 2019 e 2025, todos os balanços do Master receberam dessas empresas pareceres sem ressalvas – o nível mais alto de confiabilidade dentro das normas contábeis. Na prática, esses documentos funcionam como aval para investidores, reguladores e parceiros. Ajudam a sustentar captação de recursos, expansão e a própria imagem de solidez da instituição.
O Bastidor analisou os relatórios de auditoria entre 2019 e 2025, período que cobre a transformação do antigo Banco Máxima em Banco Master. Em 2019, o Banco Central autorizou a transferência de controle para Vorcaro. Dois anos depois, já sob a nova marca, o banco trocou de auditoria: saiu da UHY e passou para a KPMG.
A UHY foi responsável pelos balanços de 2019 a 2021. A KPMG assumiu de 2022 a 2024. Em 2025, foi contratada a PwC, mas o banco foi liquidado antes da emissão do relatório. Registros de pagamento indicam ainda que nem todos os contratos se limitaram à auditoria tradicional – incluíram outros serviços, não detalhados publicamente.
Nos primeiros anos, os alertas eram discretos. Em 2019 e 2020, os auditores chamavam atenção para créditos tributários acima de 50 milhões de reais, dependentes de lucros futuros, um risco típico de projeção contábil.
Em 2021, porém, o padrão muda. Sob auditoria da UHY, surgem problemas mais concretos em fundos como Orion FIP, Planner Cash II, Esmeralda FIDC, Centercob II FIDC e C3E FIDC. Os relatórios registram falta de demonstrações financeiras, ausência de documentação de lastro, desenquadramento regulatório e incertezas sobre créditos, muitos de origem judicial.
Em alguns casos, o próprio auditor admite não ter obtido evidência suficiente para validar saldos. Na prática, isso indica uma limitação relevante no trabalho de auditoria. Em situações mais graves, poderia levar a uma ressalva ou até à impossibilidade de emitir opinião. Ainda assim, esses pontos não alteraram o parecer final. Foram tratados como ênfase – um alerta que chama atenção para riscos, mas preserva a conclusão de que as demonstrações são adequadas.
A troca de auditoria, em 2022, coincide com uma nova fase do Master. A KPMG assume os trabalhos em meio à expansão do banco. Segundo dados da Receita Federal, foi também a auditoria mais cara, custou 16,3 milhões de reais.
O modelo de auditoria independente carrega uma tensão conhecida. O auditor é contratado e pago pela própria empresa que precisa avaliar. Quando há prestação de outros serviços, essa relação se aprofunda. Parte da literatura especializada aponta que essa dependência pode, em certos contextos, reduzir o nível de ceticismo aplicado na revisão das contas.
Nos relatórios de 2022 e 2023, os problemas de documentação mencionados anteriormente pela UHY deixam de aparecer nos documentos públicos da KPMG. Os pareceres seguem limpos, sem ressalvas ou ênfases. Não está claro se as falhas foram resolvidas, reclassificadas ou simplesmente deixaram de ser reportadas sob os mesmos critérios.
Em 2024, os alertas retornam com outro foco. A KPMG passa a destacar cerca de 19,6 bilhões de reais em ativos sem preço de mercado, avaliados com base em projeções internas. São ativos cujo valor depende menos de preços observáveis e mais de estimativas da administração. Esse tipo de ativo exige maior grau de julgamento e, por isso, maior ceticismo do auditor. A qualidade da documentação e a rastreabilidade das operações tornam-se centrais para sustentar os valores registrados. Entre esses ativos estão fundos hoje citados em investigações, como estruturas lastreadas em créditos ligados ao extinto Besc. Trata-se das cártulas, papéis sem valor algum que o Master e a Reag precificaram por bilhões de reais para inflar balanços.
A própria auditoria reconhece que a precificação envolve incertezas relevantes, especialmente quanto ao risco de crédito e à realização futura. Ainda assim, o tema permaneceu classificado como “principal assunto da auditoria”. O parecer seguiu sem ressalvas.
O mesmo padrão aparece em direitos creditórios e precatórios, que somavam cerca de 8,73 bilhões de reais. A auditoria registra dúvidas tanto sobre a mensuração quanto sobre a comprovação de titularidade desses ativos. Nesses casos, não basta estimar valor: é necessário demonstrar que o ativo existe e pertence a quem o registra. Quando há incerteza sobre a cadeia de cessão, a própria existência do ativo pode ser colocada em dúvida.
Essas fragilidades coincidem com o foco das investigações. Segundo a Polícia Federal, há suspeitas de irregularidades na constituição e negociação de créditos. A corporação aponta que o Master fabricou cerca de 12 bilhões de reais em créditos sem lastro e os negociou com o BRB.
A atuação da KPMG no caso ganha peso à luz de seu histórico recente. A firma é investigada pela Comissão de Valores Mobiliários no caso Americanas, por sua atuação como auditora em parte do período em que vieram à tona inconsistências bilionárias como as do Master. Há 13 processos sancionadores envolvendo a empresa na CVM, por diferentes razões.
No ano passado, a KPMG também foi sancionada pelo PCAOB, regulador dos Estados Unidos, por falhas em auditorias realizadas no Brasil. A punição atingiu 38 auditorias feitas entre 2020 e 2023, incluindo trabalhos para Bradesco, JBS e Sabesp. A multa foi de 700 mil dólares. Antes disso, a KPMG havia sido multada em 40 mil dólares, em 2023, por falhas na auditoria da Petrobras, e em 15 mil dólares, em 2017, por problemas de reporte ao próprio regulador.
O Bastidor procurou as empresas de auditoria citadas na tarde de quinta-feira, 9. A KPMG informou que, desde 2025, não é mais a auditora externa do Banco Master – e que, por cláusulas de sigilo e regras profissionais, está impedida de comentar casos envolvendo ex-clientes.
Sobre as sanções aplicadas pelo PCAOB, a empresa afirmou que problemas de controle de qualidade identificados em 2019 não foram totalmente corrigidos no prazo, mas que “essas constatações não afetam as demonstrações financeiras nem as opiniões de auditoria emitidas”. A firma acrescentou que, desde então, implementou melhorias em controles, treinamento e supervisão.
A Grant Thornton disse que a legislação brasileira exige auditorias independentes e impõe confidencialidade sobre informações de clientes, razão pela qual não pode comentar casos específicos. A empresa afirmou ainda que segue padrões profissionais rigorosos em sua atuação.
Deloitte e PwC informaram que responderiam às perguntas, mas não houve retorno até a publicação. Ernst & Young, UHY Bendoraytes e a defesa de Daniel Vorcaro e do Banco Master não responderam aos contatos da reportagem.
Confira o valor paga a cada auditoria:
| Companhia | Total Recebido (R$) |
| Deloitte Touche Tohmatsu Consultores Ltda | R$ 12.076.638,59 |
| Ernst Young Assessoria Empresarial Ltda | R$ 794.535,00 |
| Grant Thornton Auditores Independentes Ltda | R$ 3.000.000,00 |
| KPMG Assessores Ltda | R$ 4.083.844,74 |
| KPMG Auditores Independentes | R$ 12.086.998,27 |
| KPMG Corporate Finance Ltda | R$ 110.787,17 |
| PwC Strategy& Do Brasil Consultoria Empresarial Ltda | R$ 162.682,21 |
| UHY Bendoraytes e Cia Auditores Independentes | R$ 1.700.173,29 |
| UHY Bendoraytes Finanças Corporativas Ltda | R$ 415.000,00 |
| TOTAL | R$ 34.430.659,27 |
Fonte: Elaborado pelo Bastidor a partir de dados da Receita Federal.

