O ataque do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ao sistema de votação do Brasil é uma manifestação de desespero de um ditador, mas incomoda o Brasil de diferentes formas. Tanto o governo Lula como a oposição bolsonarista ficam desconfortáveis.

Apesar dos inúmeros recursos para fraudes de que dispõe, Maduro corre o risco de perder a eleição no domingo, dia 28. Pela primeira vez a oposição tem um candidato único – Edmundo González – que o regime de não conseguiu anular.

O fato inédito é que Maduro conseguiu, sem querer, constranger o bolsonarismo. Ao dizer que o sistema eleitoral brasileiro “não é auditado”, ele repetiu o mantra de Jair Bolsonaro para tentar melar a eleição de 2022.

É terrível para o bolsonarismo que esta teoria da conspiração seja usada também por Maduro, tido como inimigo, o oposto do bem e um exemplo do que seria um governante de esquerda. Como é possível que Jair Bolsonaro e Nicolás Maduro estejam no mesmo barco, defendam a mesma tese? Porque tanto Bolsonaro quanto Maduro deslegitimar o sistema eleitoral é um recurso para tentar permanecer no poder.

Um efeito sintomático do incômodo causado por Maduro é que o senador Flávio Bolsonaro falou em fraudes nas eleições na Venezuela em um post em suas redes sociais. Mas se irritou com a óbvia constatação que seu pai e Maduro desconfiam de sistemas eleitorais. A realidade é que Maduro mostrou que pensa como Bolsonaro quando o tema é votação.

Há mais de dez anos as eleições na Venezuela têm evidências de fraudes em favor de Maduro. Cerca de 5 milhões de venezuelanos que moram no exterior e podem votar (a maioria, obviamente, deve votar contra Maduro), não conseguirão porque as embaixadas se recusam a registrá-los.

Em outra frente, cerca de 800 mil eleitores descobriram em cima de hora que o governo mudou seus locais de votação – não de um bairro para outro, mas de uma cidade para outra, às vezes a longa distância, segundo a candidata de oposição María Corina Machado, que foi impedida de concorrer pela Justiça.

O Tribunal Superior Eleitoral, que enviará dois observadores à eleição venezuelana, respondeu a Maduro com uma nota seca, em que diz que o óbvio: o sistema brasileiro é, sim, auditável.

A necessidade de responder a Maduro é um problema para o governo Lula, que enviará os observadores e o assessor especial da presidência, o ex-chanceler Celso Amorim. O Brasil está numa daquelas situações sem lado positivo: não ir à eleição venezuelana seria como abandonar o Acordo de Barbados, que o país patrocinou, e pelo qual Maduro se comprometeu a respeitar a eleição.

Por outro lado, os observadores brasileiros não estarão em condições de detectar fraudes. Mesmo que elas sejam tão escancaradas, outros países não poderão interferir. O TSE, que queria ficar quieto no seu canto, acabou envolvido por uma decisão da sua presidente, ministra Cármen Lúcia.