O relatório da Polícia Civil de São Paulo que embasou a operação realizada ontem (5) contra Márcio França e outros 13 investigados traz mais indícios de corrupção envolvendo o grupo que já é investigado na operação Raio-X, deflagrada em 2020 – até o momento, a maior vitória dessa apuração foi a condenação, em dezembro de 2021, do médico Cleudson Garcia Montali a mais de 100 anos de prisão.

Agora, as escutas feitas em 2020 e transcritas na representação implicam Cláudio França, irmão do ex-governador de São Paulo. Ele, que também é médico, é acusado pelos policiais civis de promover a “mercantilização” da Saúde paulista.

Cláudio diz a Franklin Cangussu Sampaio (dono de empresas que seriam usadas no suposto esquema criminoso) como está o mapa político do estado e tenta ajudar o empresário a oferecer seus serviços pelo estado. 

Em um dos diálogos, Cláudio auxilia Franklin a marcar uma reunião com o deputado estadual Caio França, filho de Márcio. A ideia da dupla é viabilizar a anulação de um chamamento público e assim permitir a participação de uma das companhias do empresário.

Franklin reclama aos França por ter sido excluído da disputa por um contrato em Santos e afirma que consegue apresentar o menor preço e vencer a disputa.

Em uma rápida troca de mensagens entre Caio e Franklin, o deputado pede para que a conversa ocorra “pessoalmente” por achar “ruim fazer dessa maneira”. Os encontros ocorrem para discutir a suposta falta de publicidade.

A polícia faz questão de frisar que não investiga o deputado:
A polícia faz questão de frisar que não investiga o deputado: “não detectamos, até o presente momento seu envolvimento com os crimes em apuração”. Também fazem referência ao “foro de prerrogativa de função” do membro do Poder Legislativo Estadual” – isso importa porque há um movimento silencioso das polícias e do MP em evitar investigações envolvendo autoridades com foro privilegiado, pois perdem o domínio da apuração; além de desconfiarem da dominância da política nos que estão acima deles.

Mas não há o caminho do dinheiro supostamente superfaturado. São apresentadas apenas planilhas de lucros dos contratos firmados entre empresas de Franklin e o governo de São Paulo.

Apoios políticos

Cláudio e Franklin mapeiam a política paulista com base nos apoios ou não a Márcio França. Citam quais cidades passam por rotatividade de empresas – sempre creditando às mudanças a políticos e os apadrinhados contratados.

Um deles é o aliado de Geraldo Alckmin Pedro Tobias, ex-presidente do PSDB em São Paulo e deputado estadual. Franklin diz a um contato chamado “Decio Pref” que o escolhido para atuar em uma unidade de saúde de Santos foi justamente o concorrente na cidade de Promissão: “a gente tirou ele de lá entendeu”.

Apesar das conversas, não há qualquer menção sobre eventual envolvimento de Tobias com a suposta organização criminosa.
Apesar das conversas, não há qualquer menção sobre eventual envolvimento de Tobias com a suposta organização criminosa.

Viagem ao Pará

Os indícios apresentados contra Márcio França, além da doação eleitoral e de um ato como governador já noticiados pelo Bastidor, incluem uma viagem do então candidato a prefeito de São Paulo ao Pará. Segundo as conversas apresentadas, os assuntos foram a busca pelo apoio do grupo de organizações sociais que administrava os hospitais no estado do Norte do país – essas empresas também foram alvo da Operação SOS, conduzida pela Polícia Federal e relacionada à Raio-X.

O diálogo envolve Régis Soares Pauletti, gerente administrativo da Associação da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Pacaembu, e sua companheira, Hicléa, segundo a Polícia Civil de SP.
O diálogo envolve Régis Soares Pauletti, gerente administrativo da Associação da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Pacaembu, e sua companheira, Hicléa, segundo a Polícia Civil de SP.