À primeira vista pode parecer estranho, e à segunda vista também, mas estrategistas influentes do presidente Jair Bolsonaro celebraram discretamente a mais nova vitória judicial do ex-presidente Lula.

Após o Supremo declarar Sergio Moro suspeito nos casos do petista e despachar o processo do sítio de Atibaia a Brasília, a juíza Pollyanna Martins Alves rejeitou a ratificação da denúncia do Ministério Público Federal e extinguiu a punibilidade de Lula. Em outras palavras, mais uma condenação por corrupção de Lula em duas instâncias virou pó.

O despacho da juíza é mais uma consequência lógica da heterodoxa decisão do ministro Edson Fachin de anular os principais atos de quatros processos contra Lula em Curitiba, medida que deixou o ex-presidente livre para concorrer em 2022. Ato contínuo, num movimento liderado pelo ministro Gilmar Mendes, o Supremo declarou Moro suspeito e aprofundou o alcance das decisões que beneficiaram Lula.

Até a decisão de Fachin, Bolsonaro não queria concorrer contra o petista. Meses depois, entretanto, após a consolidação da candidatura de Lula, os estratégias do presidente adaptaram-se à realidade e reconhecem a força eleitoral do petista.

Agora, acreditam que a esperada sucessão de atos judiciais favoráveis ao ex-presidente pode reavivar o antipetismo e despertar sentimentos de ojeriza de parte do eleitor médio a Lula.

Bolsonaro, assim, poderia articular, mais uma vez, um discurso de ataque a Lula e à corrupção da era petista – dessa vez, acrescentando os ministros do Supremo como “cúmplices” do ex-presidente, nas palavras de um ministro. “O sentimento de indignação pode ficar ainda mais potente”, diz um experiente aliado de Bolsonaro.