Uma semana após a operação da polícia do Rio contra o Comando Vermelho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva finalmente falou sobre o assunto. (Até então, havia apenas postado um texto insosso nas redes.) A jornalistas estrangeiros, classificou como “matança” e “desastrosa” a ação dos policiais no complexo do Alemão. Quer que a Polícia Federal investigue as mortes, como se fosse atribuição dela.

As declarações são coerentes com o entendimento histórico de Lula e da esquerda sobre ações policiais com alta letalidade. Esse entendimento decorre de uma percepção crítica e há muito consolidada sobre a natureza da atuação da polícia no Brasil. É uma visão moldada – mais do que isso: definida – pela longa lista de episódios de violência de agentes do estado. Inclui torturas e assassinatos na ditadura militar mais recente. E chacinas como a do Carandiru, entre outras.

Há outros fatores, mas não é uma simplificação exagerada afirmar: Lula e a esquerda, ou ao menos boa parte dela, não gostam de polícia. Atribuem, tácita ou explicitamente, a violência extrema a que estão sujeitos a vasta maioria dos brasileiros mais pobres a uma pretensa falta de oportunidades a jovens das periferias e à ação cotidiana da própria polícia.

Pode haver alguma caricatura ou hipérbole nessa descrição; se há, porém, não se erra por muito. E essa descrição importa por que ela informa o modo pelo qual o presidente, seu governo e parcela expressiva da elite política brasileira, aí incluída a cúpula do nosso Judiciário, enxergam a crise aguda de segurança pública no Brasil. Usam a mesma lente para entender a operação da semana passada. Nela, cento e vinte e um mortos por ação da polícia só pode ser uma coisa, e uma coisa antes de tudo: uma matança. Para quem se importa com direitos humanos, e acredita que cada pessoa tem direitos apenas por ser uma pessoa, uma ideia construída há poucos séculos e codificada em nossas leis, embora ausente em nossa vida cotidiana, como descrever de outra forma o que ocorreu no Rio?

Para quem pensa assim, classificar como “matança” a ação policial é um reflexo moral automático. Provavelmente conforta a própria consciência. Reforça o senso de pertencimento a quem é igual. Dispensa maiores esforços intelectuais e morais. A etapa subsequente é igualmente simples: condenar a ação como “desastrosa”. O opróbrio moral embute a condenação política aos responsáveis – dos policiais que subiram o morro ao governador do Rio, Cláudio Castro. A solução, como disse a Secretaria de Comunicação do governo Lula num vídeo nas redes, passa por “mais inteligência e menos sangue”. “Não adianta nada matar 120 pessoas”, diz a propaganda.

A fraseologia da inteligência como solução para o problema do crime organizado, e como alternativa hipotética para o que poderia ter sido feito no Rio, conclui o ciclo vazio que consola quem pensa como Lula. Nessa visão, o que se chama de inteligência (de modo conceitualmente equivocado) é mais eficaz do que o uso da força policial – quase um antídoto a ela. Presume-se que só houve emprego da força porque não houve inteligência.

É possível cumprir mandados de prisão e busca e apreensão contra centenas de criminosos armados com fuzis, que dominam um território e usam táticas de combate irregular, com menor uso de força policial? Talvez. Lula e seus ministros podem apresentar opções e enriquecer o debate. Sem isso, vendem à plateia somente a ilusão de que “inteligência”, seja lá o que isso signifique na prática, é suficiente. Quem tende a concordar com o presidente comprará uma solução que não existe fora das redes sociais. (Se o objetivo da ação não era, na realidade, cumprir os mandados de prisão, uma dúvida mais do que razoável diante das características operacionais e táticas escolhidas pela polícia, assim como pelo alto número de criminosos mortos, trata-se de uma outra questão, para a qual são necessárias investigações do Ministério Público. Problema de inteligência é outra coisa.)

Carbono foragido

O único exemplo que a propaganda do governo oferece não é exatamente um sucesso de inteligência, por mais que se insista nisso em slogans e frases feitas, repetidas à exaustão. Como contraponto à operação no Rio, a propaganda do “governo do Brasil” e os ministros de Lula instrumentalizam a operação Carbono Oculto. Como o Bastidorexpôs, o governo Lula tomou politicamente de assalto uma investigação de promotores paulistas sobre a conexão do PCC com o mercado de combustíveis – um tema objeto de investigação do nosso jornalismo há anos.

É importante relembrar os fatos. Promotores paulistas avançam há anos nas investigações sobre as estruturas de lavagem de dinheiro do PCC. O que viria a se chamar operação Carbono Oculto, deflagrada em setembro, advém desse esforço – uma operação feita sob supervisão de juízes estaduais e executada com apoio da Polícia Civil. Ao trocar informações com a Polícia Federal e a Receita, os promotores foram surpreendidos com a decisão – política – do governo Lula de tomar a frente das investigações. A segurança operacional e, dentro dela, por definição, a inteligência que subsidiou o planejamento do caso, foi comprometida pela ação atabalhoada de Brasília. (Essa asserção fundamenta-se tanto no que dizem reservadamente fontes que participam das investigações quanto na leitura detida dos autos delas.)

Em vez de seguir um planejamento estratégico e operacional clássico, por meio do qual cada etapa de investigação se sucede à outra, num avançar firme e lógico, embora lento, de obtenção de provas, os Ministérios da Justiça e da Fazenda resolveram fazer algo, de fato, inédito. A Receita e a Polícia Federal criaram duas operações adicionais e simultâneas à Carbono Oculto: a Quasar e a Tank. Três operações deflagradas ao mesmo tempo, em varas distintas, mas com objetos similares – inclusive alvos. Para quem não é do ramo, pode parecer algo bom. Não é. É coisa de amadores. Ou coisa de quem quer faturar politicamente, em vez de entregar resultados. Não é como agem os profissionais.

O resultado? A “inteligência” falhou e a operação vazou. Os líderes da Copape, principal empresa de combustíveis na estrutura associada à lavagem do PCC, fugiram para o exterior dias antes da deflagração das três operações. E seguem foragidos. No dia das operações, o governo convocou uma entrevista coletiva com ares de cerimônia de posse de ministros. Havia muita pompa. Os ministros da Justiça, Ricardo Lewandowski, e da Fazenda, Fernando Haddad, deram declarações fortes, de que o governo atingira o crime organizado, de que aquela era a maior operação de combate ao crime na história do Brasil – o tipo de hipérbole da qual Lula gosta. Naquele mesmo momento, a PF já sabia que os líderes haviam fugido. Nunca houve uma operação de tamanho impacto com tamanha falha operacional.

Também participaram da coletiva o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e a cúpula da Receita. O discurso de todos foi político. Em vez de apresentar nomes e descrever em detalhes quais eram os crimes e as evidências, tanto os ministros quanto seus subordinados ativeram-se a adjetivos e afirmações grandiloqüentes. Faltaram fatos e provas para sustentar o slogan populista de que a polícia havia chegado a Faria Lima. As evidências dos autos confirmam o quanto as investigações estavam em estágio incipiente – promissor, mas incipiente. O governo tentava fazer num dia, por meio de anúncio, o que requer anos, por meio de trabalho duro. Era a política tomando conta do tipo de trabalho profissional e técnico, conduzido sob controle Judiciário, que não cabe a ministros de governo. É mais um disparate que, na bagunça institucional do Brasil de 2025, passa incólume.

A opção pelo confronto – político

E, no entanto, é um disparate que diz muito sobre a mentalidade do governo Lula e a contribuição que se pode esperar dele no combate ao crime organizado. Não à toa, a resposta do governo federal à operação no Rio foi, em resumo, um desastre institucional e político, como também analisou o Bastidor. Lula estava em viagem internacional, e os ministros não souberam como reagir. É um governo que opera em alta rotação política, cujas lideranças inspiram-se no presidente para tratar partidariamente fatos e crises, mesmo em assuntos em que a solução talvez não passe pelo confronto político.

Qual a opção do governo Lula? Partir para o ataque, ainda que com ziguezagues, a Cláudio Castro – mesmo antes de obter informações confiáveis sobre os objetivos da operação, os métodos dela es circunstâncias das mortes; algo a ser feito, repita-se, pelo Ministério Público. Tanto o governo Lula quanto o Judiciário ignoraram, mais uma vez, essas atribuições institucionais. Até o ministro Alexandre de Moraes resolveu pedir explicações ao governador do Rio – uma atitude difícil de explicar tecnicamente. Em seguida, a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Cármen Lúcia, resolveu pautar o julgamento de Cláudio Castro na corte. Ele pode ser cassado pela acusação de abuso de poder político e econômico nas últimas eleições. Se é impossível ignorar a força das provas nesse caso, também é impossível ignorar a coincidência temporal entre a operação e a marcação do julgamento.

Diante do norte de Lula quanto à segurança pública e a opção constante pela batalha política, não surpreende que Haddad e Gleisi Hoffmann tenham achado por bem acusar Cláudio Castro de conivência com o crime organizado. Como demonstrou o Bastidor, os ministros associaram uma ação da ANP e da Receita contra uma refinaria com o Comando Vermelho – algo que não tem a mais vaga correspondência com a realidade, nem mesmo na versão narrada pelo próprio governo. São coisas distintas. (O Bastidor revelou como a ação da ANP, que deveria ser uma agência independente, tem fragilidades graves.)

A reação um tanto disparatada dos ministros de Lula trai não só a mentalidade consolidada na esquerda quanto ao uso de força policial. Mostra a dificuldade de entender que existem diferenças entre organizações criminosas, tanto em métodos quanto objetivos. Nem toda criminalidade organizada visa apenas ao lucro. Há organizações criminosas, como o Comando Vermelho, que mantêm relações profundas, cultural e socialmente, em seus locais de domínio. Não usam o controle territorial apenas para extrair dinheiro das pessoas que lá vivem; em muitos casos, também vivem e moram nos mesmos locais. Estabelecem laços fortes nas mesmas comunidades que dominam. Vale para facções como o CV, vale para muitas das máfias europeias, por exemplo. Por isso também é enganoso o discurso de que o verdadeiro traficante não está no morro. Trata-se de uma frase feita que aloca num lugar distante e inatingível, sempre sem sujeito, o responsável pelo problema. Nem sempre, portanto, “asfixiar financeiramente” a organização criminosa é suficiente ou sequer possível sem o confronto armado.

Enquanto a elite de Brasília viver sob as ilusões de um país que não existe mais, se é que já existiu, os problemas mais crônicos da segurança pública no país seguirão sem solução. É impossível resolver um problema que se desconhece. E Brasília desconhece a gravidade da violência extrema que define a experiência da maioria dos brasileiros. Desconhece o medo. E parece querer desconhecer a realidade dos policiais que estão na linha de frente de uma guerra que se prefere ignorar. A mentalidade predominante em Brasília, e não apenas no governo Lula, dificulta o avanço até mesmo de propostas possivelmente meritórias. Mantém o país preso entre a crítica ligeira e outra mentalidade parasitária – aquela resumida no velho slogan “bandido bom é bandido morto”. A matança, infelizmente, também é de ideias – e de inteligência.

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