As fraudes contábeis da Americanas começaram muito antes de 2016, ano que está no centro da ação penal já em curso contra os ex-diretores da varejista. Foi o que disseram três dos quatro ex-executivos da companhia que firmaram colaborações premiadas com o Ministério Público Federal, cujos relatos foram reunidos em despacho sigiloso obtido pelo Bastidor, assinado pela juíza Giovana Calmon, da 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. Ela autorizou as buscas e apreensões cumpridas na quinta-feira (25) contra os três principais acionistas de referência da Americanas, Carlos Alberto Sicupira, Paulo Lemann e Eduardo Saggioro Garcia.
O documento de 62 páginas, que autorizou a segunda fase da Operação Disclosure, reúne dois laudos periciais, mensagens de WhatsApp, e-mails e documentos internos da varejista. Nele, constam informações reveladas pela ex-diretora de controladoria Flávia Carneiro, pelo ex-diretor comercial Márcio Cruz, por Marcelo Nunes, ex-diretor financeiro, e pelo ex-diretor de relações com investidores e principal interlocutor da empresa com os bancos, Fábio Abrate.
Nas colaborações firmadas com o MPF, Flávia, Cruz e Nunes revelam que souberam das fraudes, respectivamente, em 2007, 2009 e 2010. Até agora, as provas documentais da investigação se concentravam em 2016 porque foi naquele ano que a Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, passou a exigir que os bancos informassem as operações de risco sacado nas cartas de circularização enviadas às auditorias.
Flávia Carneiro foi a primeira a chegar perto do problema. Quando entrou na B2W, braço de e-commerce das Lojas Americanas, em 2007, ela afirma que verificou se os números estavam corretos. Encontrou inconsistências e as levou a seu superior, Carlos Padilha. A resposta foi para resolver em doses homeopáticas, porque a empresa estava prestes a abrir capital. As irregularidades eram, naquele momento, num volume muito inferior ao que viria a seguir.
Ela relata que, como Padilha trabalhou anteriormente na auditoria, eles começaram a usar o conhecimento dos procedimentos internos das auditorias para antecipar e neutralizar as verificações das empresas que passaram pela Americanas. Além da Deloitte, a Ernst e Young, PwC e KPMG. Para cada uma, havia estratégias distintas.
Dois anos depois, em 2009, Márcio Cruz assumiu como diretor estatutário comercial e disse ter encontrado centenas de milhões de reais em verbas que não podiam ser cobradas de fornecedores. Levou o problema a Miguel Gutierrez, então presidente da companhia. Gutierrez se mostrou surpreso com o tamanho do que havia. Segundo Cruz, o chefe achava que era um valor menor.
O orçamento aprovado anualmente pelo Conselho de Administração era definido com base nos resultados do ano anterior, que já eram fraudados. Cada novo ciclo partia de uma base irreal e exigia ainda mais fraude para ser cumprido. Abrate e Cruz dizem que o orçamento era “quase uma obra de ficção”.
O esquema tinha duas partes que se equilibravam. A primeira eram as VPCs fictícias, verbas de propaganda cooperada lançadas na contabilidade como se fossem incentivos reais de fornecedores, reduzindo artificialmente o custo das mercadorias e inflando o resultado da empresa. Eles citam ainda as chamadas operações de risco sacado, que são financiamentos bilionários com bancos registrados não como dívida, mas disfarçados de contas a pagar a fornecedores. A VPC reduzia o saldo de fornecedores e o risco sacado o aumentava.
O fechamento dos resultados seguia um ritual mensal. Eles detalham: a V0 continha os números reais, e as seguintes incorporavam as fraudes. Um arquivo chamado 00.anotações reunia, lado a lado, os lançamentos corretos e os fraudulentos, e servia de base para as versões adulteradas divulgadas ao mercado. Os montantes de VPCs fictícias eram calculados tendo como parâmetro a margem bruta orçada e as expectativas dos analistas de mercado, monitoradas por um arquivo interno chamado verdes e vermelhos. Quando os resultados reais ficavam abaixo do esperado, a diretoria ajustava os números. Numa mensagem enviada a Gutierrez, Nunes escreveu que “optamos por não deixar aparente, porque esse valor está dentro do custo de antecipação de recebíveis e nunca abrimos.”
As cartas de VPC falsas eram produzidas no Word. Pegava-se uma carta verdadeira, alteravam-se datas e valores, imprimia-se e entregava-se aos auditores. Segundo Nunes, a solução encontrada foi criar e-mails dos fornecedores dando o de acordo para verbas de VPC. “Os fornecedores não tinham noção de que os e-mails das cartas de VPC eram alterados”, disse. A prática foi confirmada pelos outros três delatores. Em sua delação, Nunes classificou o processo como “totalmente amador.”
As auditorias
Flávia conta que ia até a auditora para entender a diretriz com a qual os documentos seriam tratados. Em determinado momento, a KPMG exigiu verificar transações que nos sistemas eram falsas. A solução foi chamar João Guerra, diretor de TI, que alterou o próprio sistema SAP para que as fraudes passassem despercebidas. A contabilidade pegava as informações do sistema, jogava num Excel e alterava antes de encaminhar à auditoria. A planilha entregue não refletia o que estava no sistema. Guerra não é alvo da operação.
Em 2016, três bancos incluíram o risco sacado nas cartas de circularização, mas a auditoria só se atentou a dois deles, Itaú e Santander. O Bradesco passou despercebido, por um erro, segundo os delatores. A solução foi pedir diretamente aos bancos que retirassem as informações. A companhia recebia o modelo da carta da auditoria, omitia a informação de risco sacado e reenviava ao banco sem ela.
Os bancos
Quando a CVM publicou o Ofício Circular nº 1 de 2016, os bancos passaram a ser solicitados a informar as operações de risco sacado nas cartas de circularização enviadas às auditorias. Abrate foi designado por Timótheo Barros, diretor executivo da Americanas, com ciência de Gutierrez e Anna Saicali, outra diretora, para negociar diretamente com as instituições financeiras. O argumento era que se os bancos declarassem o risco sacado nas cartas, a Americanas pararia de fazer a operação. Segundo Abrate, os bancos cederam para não perder uma operação que lhes rendia muito dinheiro.
No Santander, André Juaçaba não apenas concordou em omitir as operações como orientou a Americanas sobre como redigir a própria solicitação ao banco de forma que este pudesse respondê-la sem mencionar o risco sacado. A decisão foi levada ao Comitê Executivo do banco, presidido à época por Sérgio Rial, o mesmo executivo que meses depois assumiria a presidência da Americanas. No Itaú, escalou até o Comitê Executivo composto por Cândido Bracher e mais quatro diretores.
Abrate descreve a tensão do processo numa mensagem enviada ao grupo Auditoria 2016. “Vamos com tudo. Itaú não é Santander. Assunto azedou muito. Podemos ter efeitos colaterais”, escreveu. O resultado foi o mesmo nos dois bancos. Nenhum número sobre o risco sacado nas cartas.
O início do fim
Em agosto de 2022, Gutierrez anunciou que seria substituído por Sérgio Rial na presidência. Nunes diz que ficou desesperado, porque o novo presidente inevitavelmente tomaria conhecimento das fraudes. De acordo com o seu relato, outros diretores ficaram tranquilos, confiantes de que Gutierrez daria um jeito. A escolha de Rial contrariava a praxe da empresa de promover talentos internos e, segundo os delatores, surpreendeu a cúpula. Carneiro descreve que o G30, grupo das principais lideranças da empresa, ficou em comoção porque era “um cara de banco assumindo a empresa, e que não estava habituado às práticas ilícitas que eram cometidas nas Americanas.”
Durante a transição, dois comentários espontâneos de Rial chamaram atenção. Num deles, o novo presidente contou que havia encontrado num emprego anterior um problema contábil enorme e que havia resolvido conversando diretamente com os bancos, um por um. No outro, falou sobre recuperação judicial, dizendo que a medida é boa para a companhia porque protege e congela as dívidas, mas ruim para o controlador porque afeta a imagem. Cruz descreve que ele e Barros saíram da conversa se perguntando se Rial seria “o cara que ia ajudar a resolver os nossos problemas.”
A partir de agosto, Timótheo Barros solicitou a Nunes que levantasse as informações dos últimos dez anos. Nunes produziu uma planilha com várias abas, cada uma com a informação verdadeira ao lado da falsa, e em seguida foi pedida uma apresentação em PowerPoint com o problema. A apresentação foi modificada durante meses, com Gutierrez pedindo a inclusão de novos dados enquanto tentava ganhar tempo. Durante o processo, Barros chegou a sugerir que Nunes fosse demitido por estar apresentando resistência às versões fictícias. Nunes recusou sair por conta própria, dizendo que só sairia se fosse demitido.
Numa reunião de 27 de dezembro de 2022, Saggioro e Rial ouviram a apresentação durante quatro horas. As poucas perguntas foram de natureza técnica e nenhuma tocou no problema central. A apresentação usava o termo fornecedor banco em vez de risco sacado. O Santander era banco credor da Americanas e Rial havia sido seu presidente, portanto sabia da existência das operações. Mesmo assim não fez nenhuma pergunta. Todos saíram da reunião sem entender se os dois haviam compreendido o que foi apresentado ou se já sabiam.
Em 4 de janeiro de 2023, numa nova reunião, Rial disse que sabia do risco sacado, mas tinha entendido que estava contabilizado como dívida. Ao ser informado de que não estava, André Couvre, o novo diretor financeiro que acabara de assumir o cargo, disse que aquilo era fraude e que todos seriam processados e presos. Rial tentou apaziguar a situação, pedindo calma.
Dois dias depois, em 6 de janeiro, Rial levou Sicupira e Saggioro para ouvir a apresentação sobre as fraudes. Sicupira fez poucas perguntas e não demonstrou grande reação. A mais reveladora, segundo Cruz: perguntou se os bancos estavam informando o risco sacado nas cartas de circularização. Ao saber que não, concluiu que a dívida não existia. Ao final, ninguém tinha certeza se Sicupira havia compreendido o que lhe foi apresentado ou se já sabia de tudo.
Em 10 de janeiro, na reunião com a auditora Claudia Elisa da KPMG, ela chegou transtornada e fez perguntas que deixaram a equipe completamente enrolada, até perguntar diretamente se havia fraude. A equipe ficou sem resposta mas disse que não havia. Após a reunião, Rial disse que foi péssima e que a equipe deveria ter aberto o jogo. Dias antes, ao tomar conhecimento da situação, Claudia Elisa havia ligado para Carneiro dizendo que a equipe havia acabado com sua carreira e que aquilo seria um escândalo. Claudia Elisa havia pedido a Rial que aguardasse antes de lançar o fato relevante. Rial não quis esperar.
Em 11 de janeiro de 2023, a Americanas divulgou o fato relevante que revelou ao mercado o rombo bilionário.
Sobre os controladores
Nenhum dos quatro delatores afirmou categoricamente que Sicupira, Lemann ou Saggioro sabiam das fraudes. Mas nenhum disse que não sabia. Quando perguntados diretamente, responderam que não podiam dizer.
Os quatro descrevem que a Americanas é uma empresa em que nada subia a hierarquia sem ser comunicado, em que o Conselho aprovava metas que só podiam ser atingidas com fraude, e em que a LTS Investiments, holding dos controladores, acompanhava o dia a dia da companhia de perto. “Ninguém era autônomo”, disse Abrate. “Por mais poder que você tivesse, não tomava nenhuma decisão sozinho. Zilhões de e-mails, zilhões de WhatsApp. Eu fazia isso para cima, Anna fazia isso para cima, Miguel fazia isso para cima. E assim era a dinâmica de Miguel com Beto, de Miguel com o Saggioro.”
Cruz perguntou diretamente a Gutierrez se Sicupira sabia das fraudes. Gutierrez disse que não. Cruz acrescenta que “se alguém tem ciência inequívoca sobre isso, seria o Miguel”, e que a negativa pode ter servido para manter os controladores blindados.
No despacho que autorizou a última operação contra os controladores da Americanas, a juíza Giovana Calmon reconheceu que não há, até agora, provas diretas de conversas em que Sicupira, Lemann ou Saggioro tenham participado de discussões sobre as fraudes. Mas sustentou que essa ausência é parte do padrão identificado na investigação. Para a magistrada, exigir prova documental explícita de envolvimento dos acionistas neste estágio das investigações seria, nas palavras dela, “extremamente ingênuo.” Executivos com esse nível de experiência e acesso a assessorias jurídicas qualificadas sabem que certos assuntos não devem ser formalizados.
O Bastidor procurou nesta sexta-feira (26) os advogados dos citados na matéria. As defesas de Marcelo Nunes, Flávia Carneiro e Fábio Abrate informaram ao Bastidor que não irão se manifestar sobre o caso. A Americanas não respondeu aos contados da reportagem e a defesa de Márcio Cruz não foi encontrada para comentar.
Ontem, por meio de nota, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Sicupira, acionistas-referência das Americanas, disseram que as investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo MPF, incuindo aquelas com base em acordos de delação premiada, “indicam que o Conselho de Administração e os acionistas de referência foram continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria da companhia”. Procuradas, as defesas de Beto Sicupira e Paulo Alberto Lemann não respoderam.
O Bastidor também procurou o Santander e o Itaú na tarde desta sexta-feira, por meio de suas assessorias de imprensa.
Ao Santander, perguntou se o banco confirma as discussões com a Americanas sobre o tratamento do risco sacado nas cartas de circularização, qual foi a participação de André Juaçaba e Sérgio Rial nas tratativas e com base em qual análise jurídica, contábil ou regulatória a instituição sustentou o entendimento de que as operações deveriam ser tratadas como comerciais. O banco não respondeu até a publicação desta reportagem.
Ao Itaú, perguntou se o banco confirma que o tema foi levado ao Comitê Executivo, qual foi a participação de Gustavo Balassiano, José Rudge e dos integrantes do comitê, com base em qual análise o banco sustentou a classificação do risco sacado como operação comercial e se houve revisão interna desse posicionamento.
Em nota, o Itaú disse que não é investigado e que colabora com as autoridades desde 2023, prestando todas as informações solicitadas sobre o caso Americanas. O banco afirmou que sofreu perdas bilionárias com o episódio e que já comprovou, por meio de documentos apresentados à Justiça, “a lisura de sua conduta e da atuação de seus funcionários”. Disse ainda que recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização, que sempre alertou auditores e reguladores sobre a existência das operações de risco sacado e da exposição da varejista a fornecedores, e que chegou a interromper por mais de seis meses as operações de risco sacado com a companhia. O Itaú afirmou, por fim, que sempre atuou com “rigor ético e regulatório” e que confia no trabalho das autoridades.

