A ASA Asset, gestora de recursos do grupo fundado por Alberto Safra, ainda não gera receita suficiente para cobrir os custos de sua operação e continua dependendo de recursos do próprio acionista para financiar sua estrutura.
Em documento entregue à CVM em junho, a gestora afirma que permanece em fase de expansão e ainda não alcançou um nível de receita compatível com suas despesas. A expectativa, segundo a empresa, é atingir uma rentabilidade adequada nos próximos anos. Até lá, a operação seguirá “substancialmente financiada” por Alberto Safra.
A dependência ocorre após um período de crescimento acelerado. A ASA Asset informa que iniciou suas atividades, em 2020, com 12 colaboradores. No fim de 2025, eram 432. Em documento apresentado neste ano, a empresa declarou ter 419 empregados.
A diferença entre os números não permite concluir quantos funcionários foram demitidos. Além de outras movimentações de pessoal no período, os documentos adotam classificações distintas.
Relatos feitos ao Bastidor, porém, indicam que dezenas de funcionários deixaram o ASA nos últimos três meses, sobretudo nas áreas de Asset e Wealth. Ao menos 12 ex-funcionários movem ações contra empresas do ASA. Os processos tramitam sob sigilo.
Um ex-funcionário, ouvido sob condição de anonimato, afirma que a fase de expansão foi marcada pela contratação de profissionais conhecidos do mercado, alguns atraídos por bônus e luvas elevados. Segundo ele, Alberto Safra demonstrava insatisfação com o desempenho de parte das estruturas montadas nos últimos anos.
O ex-colaborador relata ainda um enxugamento da área de Wealth e uma aproximação de suas atividades com o Private. Os documentos consultados não registram uma incorporação formal entre as duas áreas. O formulário da Asset, no entanto, informa que Rogério Freitas é responsável pela gestão do patrimônio de clientes de Wealth e Private.
As mudanças atingiram diferentes áreas do ASA. Émerson Dantas deixou Special Situations; Marcio Fontes saiu da gestão de fortunas; Fabio Okumura deixou o comando da gestora; Fabiano Zimmermann saiu da renda fixa; e Marcelo Nantes e Dimas Ramos deixaram, respectivamente, as áreas de renda variável e estratégias quantitativas.
A estrutura comercial voltada a clientes institucionais também foi fortemente reduzida. As movimentações aumentaram as dúvidas no mercado sobre uma possível revisão da estratégia do ASA, com menor peso de fundos próprios e maior uso de produtos de gestoras externas, como mostrou o Valor Econômico.
Os bônus de contratação usados durante a expansão também aparecem no balanço de outra empresa do grupo. No fim de 2025, a ASA SCFI, braço financeiro mais recente do ASA e instituição supervisionada pelo Banco Central, registrava 37,9 milhões de reais em despesas antecipadas relacionadas a bônus de contratação. O valor correspondia a cerca de 15% do patrimônio líquido da financeira. O balanço não identifica os beneficiários desses pagamentos, e o dado não se refere à ASA Asset.
Enquanto a gestora passa por ajustes, o braço de crédito segue uma trajetória de expansão. O principal fundo de crédito do grupo, o ASA FIDC, encerrou 2025 com patrimônio líquido de 2,55 bilhões de reais e chegou a 3,36 bilhões de reais em junho deste ano.
O balanço combinado do ASA FIDC e da ASA SCFI mostra lucro líquido de aproximadamente 35 milhões de reais em 2025. No mesmo período, as operações de crédito passaram de 1,45 bilhão de reais em junho para 2,9 bilhões de reais em dezembro, segundo compilação da XP Investimentos.
Em relatório publicado em julho deste ano, a XP afirmou que a estrutura de crédito do ASA ainda passa por uma fase de aceleração e é mais complexa do que a de seus pares. A avaliação, porém, é que essa estrutura tende a se simplificar à medida que a operação ganha escala.
Os números revelam momentos distintos dentro do grupo: enquanto a gestora ainda depende de Alberto Safra para sustentar sua estrutura, o negócio de crédito continua crescendo.
Segundo o ranking de gestão da Anbima de junho, o ASA tinha cerca de 13,4 bilhões de reais sob gestão. Publicamente, o grupo já informou administrar 27,8 bilhões de reais em uma métrica mais ampla, que inclui também outras verticais, como gestão de fortunas, tesouraria e emissão de CDBs.
O Bastidor procurou o ASA por e-mail na quarta-feira (5) e enviou perguntas detalhadas sobre os desligamentos, a reorganização das áreas de Asset, Wealth e Private e a situação financeira da gestora. Também ofereceu ao grupo espaço para uma entrevista com um porta-voz.
Na quinta-feira (6), voltou a procurar o ASA, desta vez por telefone e WhatsApp. Um assessor confirmou o recebimento das perguntas, mas, até a publicação desta reportagem, o grupo não havia enviado resposta nem aceitado o pedido de entrevista.

