A fintech usada por Mohamad Hussein Mourad para movimentar bilhões em recursos do crime organizado foi descrita pela Receita Federal e pelo Ministério Público como um “buraco negro” no sistema financeiro. Segundo as investigações do GAECO, a BK Bank disfarçava transações ilegais por meio de contas de difícil rastreamento — e, em cinco anos, girou 46 bilhões de reais.
O esquema veio à tona na operação Carbono Oculto, que partiu de maquininhas de cartão escondidas em casas de jogo clandestinas em Santos. As transações levavam a postos de gasolina fantasmas, ligados à distribuidora Aster — suspensa pela ANP — e à formuladora Copape, ambas associadas a Mourad. No centro da engrenagem, a fintech operava contas bolsão: contas únicas que recebem e enviam dinheiro de vários clientes ao mesmo tempo, sem individualização. O controle era feito por fora da contabilidade. Quem depositava ou recebia simplesmente não existia para os sistemas de fiscalização.
A Aster sozinha movimentou 2,2 bilhões de reais no BK Bank. A Copape, outros 247 milhões. Fundos e usinas ligados a Mourad responderam por mais 435 milhões. E a fintech paralela usada pelo grupo, o Bankrows, movimentou outros 311 milhões. Mourad expandiu seus negócios em paralelo à ascensão da fintech — comprou quatro usinas de cana e se associou a outras duas.
Entre 2022 e 2023, o BK recebeu 10,9 mil depósitos em espécie — 61 milhões de reais em dinheiro vivo, apesar de não ter autorização para operar com numerário. Segundo a Receita, os valores eram pulverizados e repassados a terceiros. O arranjo, segundo os investigadores, permitia “o livre trânsito de valores ilícitos”, misturados e irreconhecíveis.
A cadeia do esquema incluía cinco núcleos regionais ligados por contadores e empresas de fachada. A primeira pista surgiu com uma maquininha registrada em nome do Auto Posto Mingatto — que os sócios não reconheciam —, apreendida nos fundos de uma casa de jogos em Santos. Dali, os investigadores chegaram ao BK, que operava com redes de postos responsáveis por mais de 3 mil infrações registradas pela ANP — de combustível adulterado a bombas fraudadas.
O BK Bank foi criado em 2012, começou no segmento de vale-refeição antes de passar a emitir cartões de crédito pré-pagos e oferecer serviços de meios de pagamentos. Quando ainda se chamava Berlin Finance, a empresa venceu licitações para processar pagamentos da Câmara dos Deputados, do Senado, do Serpro e de diversas prefeituras. Em 2021, foi citada na CPI da Pandemia por intermediar repasses entre empresas do lobista Danilo Trento e de Francisco Maximiano, da Precisa Medicamentos. Pouco depois, trocou de nome, aumentou o capital para 9 milhões e se formalizou como instituição de pagamento.
Hoje, com sedes em Campinas, Barueri e Ribeirão Preto, o BK tem sócios que, segundo o Ministério Público, são testas de ferro. Um deles, Danilo Augusto, não tem patrimônio compatível com a titularidade da empresa. O fundador original, Mário Gardin, cedeu as cotas sem comprovar a origem dos recursos.
A reportagem procurou o BK Bank. Em nota, a fintech disse que foi surpreendida com sua inclusão na operação deflagrada na data de hoje. O Banco Central também procurado, mas não se manifestou até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto.
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