Documentos obtidos pelo Bastidor revelam que a operação para sanear a Reag envolve uma empresa dormente com capital de 250 mil reais, controlada por um ex-diretor do UBS que foi alvo de busca e apreensão numa investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre extorsão e estelionato. A empresa em questão é a Cedro Participações; o controlador dela, Rubens Elias Zogbi Filho.
Zogbi Filho é empresário e, até abril, tinha um cargo de destaque na filial do UBS (ex-Credit Suisse) no Brasil. (No Linkedin, ele ainda se apresenta como Head of Sales do banco suíço.) Ele convive há anos com a cobrança judicial de dívidas. A tal ponto que parte do salário dele no UBS era penhorado para pagar dívidas com a ex-mulher, credores e instituições financeiras. Ele e suas empresas são alvo de múltiplas ações judiciais, protestos e cobranças por dívidas. São, ao menos, 49 protestos em cartórios e quatro processos de execução de dívidas, além de registros de cheques sem fundo, restrições em bancos e dívidas junto à União.
A natureza da Cedro e os registros empresariais e pessoais de Zogbi Filho levantam sérias dúvidas sobre o real papel deles na operação para salvar a Reag. Em resumo, Zogbi Filho e a Cedro, uma de suas empresas de participação, não têm capital aparente para ajudar a assumir a nova Reag.
Desde que foi anunciada pela companhia ao mercado, no final de domingo, a operação de saneamento da Reag provoca controvérsias. Em tese, ela envolve a saída de João Carlos Mansur do comando do grupo. No lugar dele, entrariam executivos da Reag. Seria uma operação vagamente semelhante à que salvou o BTG quando André Esteves foi preso na operação Lava Jato. O objetivo é restaurar a confiança do mercado na companhia e demonstrar compromisso com uma governança firme.
O problema, no caso da Reag, é que, mesmo após a publicação de dois fatos relevantes, ninguém sabe se algo mudou na companhia – a presença de Zogbi Filho só aumenta a desconfiança. A Reag não explica qual é a participação do empresário Rubens Elias Zogbi Filho na transação.
Formalmente, a operação envolve a saída de Mansur e a venda de 87,38% do capital da empresa à Arandu Capital Holding. A Arandu, por sua vez, é formada por Dario Graziato Tanure, Felipe Oppenheimer Pitanga Borges e Cedro Participações Ltda. – essa última controlada por Zogbi. Os dois primeiros são, de fato, executivos da Reag. E foi assim que a companhia vendeu a operação ao mercado e à imprensa. Faltou mencionar Zogbi. (O nome “Cedro Participações” também confundiu muita gente. Remete à empresa homônima do grupo de Lucas Kallas, empresário mineiro da área de mineração e logística. A Cedro de Zogbi, porém, nada tem a ver com a Cedro de Kallas.)
Os nomes dos novos controladores só foram divulgados na segunda-feira (8) após exigências da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM. Em um primeiro comunicado, publicado no domingo (7), Mansur anunciou a venda, mas omitiu os compradores.
A venda ocorre dias após a Reag e Mansur serem alvos da operação Carbono Oculto, que investiga o uso de fundos de investimentos pelo Primeiro Comando da Capital, o PCC, a maior facção criminosa do país, para lavar dinheiro sujo obtido por fraudes e sonegação fiscal no setor de combustíveis.
Oficialmente, o negócio foi firmado nos seguintes termos: pagamento de 1 mil reais a Mansur. Além desse valor, serão 60 parcelas mensais equivalentes a 5% da receita líquida da companhia no mês imediatamente anterior. O maior desembolso, contudo, será de 100 milhões de reais, em virtude das compras pela Reag das gestoras Quasar, Empírica, Berkana, WM e Hieron. A forma de pagamento e a origem dos recursos não foram esclarecidas.
O histórico de dívidas
Zogbi, um dos compradores, tem uma trajetória, no mínimo, controversa. O empresário enfrenta na Justiça processos por repetidas inadimplências.
O Bradesco, por exemplo, passou 2024 e parte de 2025 cobrando dívidas de cartões de crédito que chegam a 227 mil reais. O Bastidor teve acesso aos autos. Na ação, o banco alegou que “adotou a conduta de contatá-lo, a fim de pudesse liquidar o débito sem a necessidade de intervenção judicial”, mas que “não restou outra alternativa senão a submeter a lide ao crivo do Poder Judiciário”.
Em 2 de setembro, o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu que Zogbi deve pagar o valor original, atualizado com juros, além de cobrir as despesas do processo e uma taxa de 10% para os advogados do banco.
A União Federal também iniciou um processo para cobrar dívida de Zogbi. Em 18 de junho de 2024, ele teve dinheiro bloqueado após cancelar um acordo de parcelamento. O valor atualizado chega perto dos 50 mil reais.
O nome do empresário aparece repetidamente nos Diários de Justiça do Estado de São Paulo nos últimos anos, sempre em meio a disputas judiciais relacionadas a cobranças e execuções de dívidas.
As menções mais recentes, de 2025, revelam uma sequência de bloqueios judiciais sobre valores de sua conta bancária. Em 8 de janeiro, por exemplo, o Diário de Justiça da 1ª instância da capital paulista registrou um despacho determinando o bloqueio de quantias de seu salário, o que levou Zogbi a recorrer ao Judiciário com um pedido de desbloqueio, alegando tratar-se de verba de natureza alimentar.
Ainda em janeiro, uma nova publicação trouxe outra ordem de penhora de valores. Mais uma vez, ele disse que os recursos atingidos correspondiam a sua remuneração mensal e que, portanto, estariam protegidos pela regra da impenhorabilidade.
A situação se repetiu em fevereiro. Uma movimentação judicial indicou bloqueio em sua conta. Dias depois, novamente aparece nos autos um registro de penhora de salário, seguido de pedido do devedor para que os valores fossem liberados.
Em maio, a cena se repetiu: outro despacho confirmou a retenção de verbas de Zogbi, que, mais uma vez, apresentou petição ao juízo defendendo o caráter alimentar dos recursos.
As publicações mais antigas reforçam esse histórico. Já em 2023 e 2024, o nome de Zogbi surgia em diferentes páginas dos Diários de Justiça, associado a execuções e ordens de bloqueio. Embora os detalhes variem, a tônica é a mesma: decisões judiciais determinando a constrição de valores e tentativas da defesa em demonstrar que se tratava de salário.
Mas não é só. O empresário foi alvo da Polícia Civil em São Paulo no ano passado ao ser apontado como pivô de um esquema de fraude na administração de contratos de locação dos boxes e lojas do shopping Feira da Madrugada, no Brás, na capital paulista.
As investigações mostraram que empresários cotistas de um fundo chamado Talismã —controlador da concessão da Feira da Madrugada— adquiriram lojas por um preço muito abaixo daquele determinado pela prefeitura de São Paulo no edital da concessão.
Ele e os demais sócios eram suspeitos de cometer abusos contra comerciantes, que incluiriam agressões físicas, extorsões estelionato. O empresário e os sócios negaram o envolvimento.
Em 2022, o empresário teve que comparecer à CPI da Pirataria, na Câmara de Vereadores de São Paulo, para explicar seus negócios como CEO da Centuria Ivestimentos, ex-cotista do fundo de gestão que administra o Circuito das Compras da Feira da Madrugada. Zogib disse ter vendido sua participação em 2021, após oito anos no negócio.
Zogbi aparece como proprietário de três empresas de participação. A Cedro, usada na operação com a Reag, foi criada em 2015 como empresa de prateleira. Depois, foi assumida por Zogbi, que aumentou o capital social dela para 250 mil reais. A Cedro não tem movimentações societárias e corporativas relevantes. Se participava de algum negócio antes da operação com a Reag, não há registro público disso. Zogbi teve outras empresas – a maioria declarada inapta pela Receita ou baixada, sempre com dívidas em aberto.
O Bastidor procurou Zogbi nesta terça-feira (9). Enviou seis perguntas sobre a participação dele na Arandu, o quanto a Cedro desembolsará e qual a origem dos recursos que serão utilizados para pagar os 100 milhões em dívidas da Reag. Não houve retorno.
A reportagem também buscou a Arandu e a Reag. Foram feitos mais sete questionamentos diretos. Não houve esclarecimentos sobre Zogib.
Em nota, a Arandu disse que “o valor da transação está composto única e exclusivamente em razão de débitos que os vendedores contraíram na aquisição das gestoras que hoje integram o grupo da companhia”.
Disse ainda que “com relação ao preço a ser oferecido na OPA (Oferta Pública de Aquisição), informamos que a definição do preço a ser efetivamente ofertado depende de informações futuras, que não podem ser conhecidas nesse momento. É o caso, por exemplo, do valor que efetivamente será pago na aquisição de controle, dado que o contrato celebrado prevê ajustes de preço. A companhia manterá o mercado informado acerca desse assunto”.
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