O Banco Master declarou à Receita Federal que pagou 1,3 milhão de reais à Varajo Consultoria Empresarial Sociedade Unipessoal Ltda. Segundo a Polícia Federal, a empresa foi usada para disfarçar pagamentos a Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão bancária do Banco Central.

Santana foi um dos alvos da terceira fase da operação Compliance Zero. De acordo com a investigação, ele fornecia informações privilegiadas ao dono do banco, Daniel Vorcaro, em troca de propina.

A informação do pagamento à Varajo consta na Declaração de Imposto de Renda Retido na Fonte (Dirf) do Master, encaminhada à CPI do Crime Organizado. Conforme os dados, o Master declarou a despesa como prestação de serviços entre empresas. Não há detalhes sobre o contrato, nem a nota fiscal, apenas os códigos usados para a contabilidade junto à Receita Federal.

Para os investigadores, esse tipo de estrutura pode ser utilizada para dar cobertura contábil a pagamentos suspeitos, mesmo sem comprovação de prestação efetiva de serviço. Antes da prisão, Santana já havia sido afastado do cargo pelo Banco Central.

A Varajo foi constituída em 2010, com capital social de 10 mil reais, e seu sócio-administrador é Leonardo Augusto Furtado Palhares, apontado pela Polícia Federal como operador de Vorcaro.

A PF sustenta que Belline Santana e Paulo Souza, ex-diretor de Fiscalização do BC e mais recentemente chefe-adjunto de Supervisão Bancária, atuavam como “consultores” informais de Vorcaro. Ambos participavam de um grupo que orientava o banco sobre estratégias perante o regulador, incluindo sugestões sobre documentos, processos administrativos e tratativas institucionais.

Mensagens obtidas pela investigação e reveladas pelo O Globo reforçam a suspeita de intermediação. Em uma conversa de WhatsApp, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, afirma: “Hoje tem que pagar a primeira do Belline, ok?”. O banqueiro responde: “OK”. Em seguida, orienta: “Mas veja se Leo pode pagar. E reembolsamos dia seguinte. Bem importante isso”.

Em outro trecho, Zettel diz: “Na verdade, ia pagar Léo e Léo pagar por ele. Mas peço a ele pra pagar primeiro”. Para a PF, as mensagens indicam uma tentativa de realizar os pagamentos por intermédio de Leonardo Palhares, ligado à Varajo, como forma de ocultar a origem dos recursos.
Além do afastamento, Santana e Souza foram submetidos a medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica, proibição de deixar os municípios onde residem, entrega de passaportes e impedimento de acessar o Banco Central ou manter contato com outros investigados.

Em nota, a defesa de Belline Santana afirma:

“Os advogados do Sr. Belline Santana esclarecem que estão avaliando todo o material das investigações conduzida pela Polícia Federal, conforme disponibilizado pelo Supremo Tribunal Federal, sendo que todos os esclarecimentos serão apresentados oportunamente às Autoridades.

Vale destacar desde já que o Sr. Belline Santana, como servidor de carreira, sempre exerceu suas atividades no Banco Central do Brasil (“BCB”) de forma técnica e, principalmente, lícita, dentro dos limites legais, observando-se a natureza prudencial inerente à referida Autarquia na supervisão do Sistema Financeiro Nacional.

Isso significa dizer que não houve, de sua parte, favorecimento a qualquer Instituição Financeira, muito menos ao Banco Master, esperando-se que seja resguardado o regular contraditório nas instâncias competentes.

O exercício regular das funções do Sr. Belline Santana perante o BCB também não se confunde com outras atividades, igualmente lícitas, não havendo desvio de finalidade ou obtenção de vantagem indevida”.

O Bastidor também procurou Leonardo Augusto Furtado Palhares, mas não obteve resposta até a publicação.