Em meio à análise da compra do Banco Master pelo BRB, o Banco Central autorizou o conglomerado de Daniel Vorcaro a vender o Banco Voiter ao ex-CEO do Master Augusto Lima. Dois meses após a operação, ambos foram presos durante uma ação policial que investiga a suposta venda de 12 bilhões de reais em títulos falsos pelo Master ao BRB.
A cronologia mostra que, em um intervalo curto, o BC avaliou três pedidos de transferência de controle de instituições ligadas ao grupo Master: a venda do próprio Banco Master ao BRB, a do Banco Voiter a Augusto Lima e a do Banco Letsbank a Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro. Apenas a operação envolvendo Lima recebeu aval da autoridade monetária, embora os três fossem os principais responsáveis pelo conglomerado prudencial junto ao BC.
Em 28 de março, o BRB anunciou a intenção de comprar 58% do Banco Master. O comunicado surpreendeu o mercado, já que, naquele momento, a situação financeira do conglomerado de Vorcaro era alvo de questionamentos. Para analistas, o interesse do banco estatal refletia o capital político do controlador do Master, que buscava apoio para atravessar a crise.
No mesmo mês, o BC e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, abriram procedimentos preliminares para examinar possíveis irregularidades na transação. Meses antes, em setembro de 2024, BC e Cade já haviam recebido outra solicitação: a venda do Banco Letsbank, também do grupo Master, para Maurício Quadrado, sócio de Vorcaro entre 2021 e 2024.
Em fevereiro de 2025, o Cade aprovou a compra do Letsbank por Quadrado. No mesmo mês, o BC homologou a mudança de nome do banco para Bluebank. A autorização para conclusão do negócio, porém, não veio. Em agosto, o BC negou a operação, e o Bluebank permaneceu sob controle do grupo Master, que voltou a usar o nome Letsbank.
A trajetória de Augusto Lima foi diferente. Assim como Quadrado, Lima deixou o Master em 2024. No ano seguinte, apresentou proposta para adquirir o Banco Voiter (antigo Indusval). O contrato foi assinado em 5 de junho de 2025. Em 10 de julho, o banco passou a se chamar Pleno. Poucos dias depois, em 24 de julho, o BC aprovou a mudança de nome e a transferência do controle do Voiter/Pleno do Master para Lima, com vigência a partir de 11 de agosto. A decisão foi publicada no Diário Oficial em 18 de agosto.
A autorização a Lima e a negativa a Quadrado ocorreram enquanto o BC avançava na análise da venda do Banco Master ao BRB. Em julho, uma auditoria da autoridade monetária identificou irregularidades em operações de venda de ativos do Master para o BRB realizadas desde o fim do ano anterior. Em setembro, o BC vetou a compra. No mês seguinte, a Polícia Federal abriu inquérito para apurar suspeitas de gestão fraudulenta e outros crimes no Banco Master. No centro da investigação da PF, estão créditos supostamente fraudados em entidades da Bahia sob controle indireto de Lima – daí a prisão dele.
Baiano, Augusto Lima foi o arquiteto do Credcesta, a unidade de negócios de crédito consignado do Master – um dos produtos mais lucrativos do banco. Lima montou o Credcesta após a privatização da Empresa Baiana de Alimentos, a Ebal, em 2017, no governo de Rui Costa. A Ebal oferecia um cartão a servidores do estado. Por meio dessa empresa, Lima avançou na união entre a folha de pagamentos dos servidores e o oferecimento de crédito consignado. Depois, exportou o modelo para outros estados e municípios.
Foi pelo sucesso desse negócio que Lima se associou ao Master. Tornou-se um dos pilares do banco. O empresário baiano mantinha e estreitou fortes relações na política e no Judiciário. É próximo de próceres do PT da Bahia, como Costa e Jaques Wagner, mas também de lideranças do União Brasil, como ACM Neto e o prefeito de Salvador, Bruno Reis. É casado com Flávia Peres, ex-ministra do governo Bolsonaro. Suas relações políticas e empresariais eram complementares às de Vorcaro e Quadrado.
A crise do grupo Master chegou ao ponto máximo nesta semana. Na terça, o BC decretou a liquidação extrajudicial de quatro empresas do conglomerado: Banco Master, Banco Master de Investimento, Master Corretora e Banco Letsbank. Também instaurou Regime de Administração Especial Temporária no Banco Master Múltiplo, controlador do banco digital Will Bank – poupado da liquidação porque, segundo o BC, ainda pode ser vendido e reestruturado. Caso não tivesse sido vendido para Lima, o Banco Pleno teria tido um desses destinos.
No mesmo dia, Vorcaro e Lima foram presos pela PF, no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura fraudes no sistema financeiro.
O Bastidor questionou o BC sobre os critérios técnicos que levaram à aprovação da venda do então Banco Voiter, enquanto a operação do Banco Letsbank foi rejeitada. Também pediu esclarecimentos sobre a autorização para a transferência do banco a Lima, dada enquanto o BC ainda investigava possíveis irregularidades atribuídas ao executivo no Master. Não houve resposta.
Em nota, o Banco Pleno reafirmou seu compromisso com ética, transparência e conformidade regulatória. “O Banco Pleno, atual denominação do Banco Voiter, não é alvo da Operação Compliance Zero e não há nenhuma participação da instituição nos fatos apurados”, diz o comunicado.
A defesa de Augusto Lima afirmou ter recebido com “absoluta surpresa” a operação. “Augusto Lima já havia se desligado definitivamente de todas as suas funções executivas no Banco Master em maio de 2024. As operações atualmente investigadas são posteriores à sua saída e, portanto, não guardam qualquer relação com sua atuação profissional”.

