O colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) rejeitou uma proposta de acordo apresentada por dois ex-diretores e decidiu levar a julgamento irregularidades nas recompras de ações feitas pela Ambipar em 2024. A reunião aconteceu de forma reservada na terça-feira (1º) e a decisão foi publicada na quarta-feira (2).

Thiago da Costa Silva e Pedro Borges Petersen, ex-diretores de Relações com Investidores da Ambipar, tentavam encerrar um processo que apura o descumprimento do limite de ações próprias mantidas em tesouraria. Petersen também é acusado de divulgar informações incompletas ao mercado sobre o uso desses papéis para pagar dívidas da companhia.

Advogados que atuam na CVM ouvidos pela reportagem tratam as acusações como descumprimentos regulatórios objetivos, infrações que com frequência terminam em acordo. Em 2025, o colegiado aprovou termos de compromisso em 42 dos 66 processos do tipo nos quais analisou propostas de acordo – quase 64% dos casos.

A própria Procuradoria Federal Especializada junto à CVM concluiu que não havia impedimento jurídico para um acordo. Thiago ofereceu 50 mil reais e Petersen, 300 mil reais. Para a autarquia, porém, o problema vai além desse processo.

Ao recomendar a rejeição das propostas, a área técnica afirmou que não era possível separar as irregularidades de um “contexto mais amplo correlato”. Citou outros processos envolvendo a Ambipar e fatos que extrapolam as acusações contra os dois ex-executivos.

O colegiado seguiu a recomendação por unanimidade. Participaram da decisão o presidente Otto Lobo e os diretores Igor Muniz, João Accioly e Marina Copola. A quinta cadeira está vaga.

O contexto citado pelos técnicos inclui uma investigação sobre as negociações com ações da Ambipar durante a escalada de preço dos papéis. Desde maio de 2025, a área de fiscalização apura indícios de irregularidades em operações realizadas pela companhia, seus controladores e pessoas ligadas a eles nos mercados à vista e de derivativos ao longo de 2024 e 2025.

A investigação alcança justamente o período em que as ações da Ambipar dispararam. Entre o fim de maio e agosto de 2024, os papéis subiram mais de 860%. A CVM ainda não apresentou uma acusação formal de manipulação de mercado.

Durante a alta, a própria Ambipar recomprava ações, o controlador Tércio Borlenghi Junior aumentava sua participação e fundos então geridos pela Trustee DTVM – de Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master – acumulavam milhões de papéis. Esses movimentos reduziram a quantidade de ações disponíveis para negociação no mercado.

É nesse cenário que o processo das ações em tesouraria ganha outra dimensão. Em junho de 2024, a Ambipar já havia recomprado 4,58 milhões de ações. As compras feitas por Borlenghi Júnior no início de julho reduziram o número de papéis considerados em circulação e fizeram a participação da tesouraria superar o limite regulatório de 10%.

Mesmo acima do teto, a companhia comprou outras 640 mil ações nos dias 11 e 12 de julho. Ao fim do período, mantinha 5,22 milhões de papéis em tesouraria. Dias depois, distribuiu 1,775 milhão de ações a administradores e funcionários e voltou ao limite permitido.

Vista isoladamente, a acusação contra Thiago da Costa Silva e Pedro Borges Petersen poderia ser tratada como uma falha de controle. Ao rejeitar o acordo, porém, a CVM indicou que pretende analisar o episódio dentro de uma questão maior: o que ocorreu nas negociações com ações da Ambipar enquanto a companhia, seu controlador e grandes fundos retiravam milhões de papéis do mercado e a cotação disparava.

Não é a primeira vez que a autarquia adota essa postura. Em julho, o colegiado rejeitou um acordo com uma ex-diretora da Reag em um processo por infração de caráter informacional. Na ocasião, a CVM também considerou inadequado encerrar o caso diante de um contexto mais amplo de possíveis irregularidades envolvendo a empresa.

A Ambipar está em recuperação judicial desde outubro do ano passado, para equacionar uma dívida de 10,7 bilhões de reais. Em julho deste ano, a empresa obteve apoio de credores para reestruturar parte dessa dívida. Na quarta-feira (2),no entanto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) retomou a discussão sobre qual o foro adequado para conduzir o processo de recuperação judicial da empresa e adiou a assembleia de credores que votaria o plano.

O Bastidor procurou nesta quinta-feira (3) a Ambipar e a defesa de Pedro Borges Petersen para comentar a decisão da CVM e as investigações em andamento. A reportagem tenta localizar os advogados de Thiago da Costa Silva. Até a publicação deste texto, não houve retorno.