O banqueiro Daniel Vorcaro afirma ter assinado, em 3 de março, um termo de confidencialidade com a Procuradoria-Geral da República para uma primeira tentativa de colaboração premiada. Na sua versão, sua segunda prisão, no dia seguinte, 4 de março, foi uma forma de a Polícia Federal atrapalhar sua tentativa de delação, na qual faria referências ao diretor-geral, Andrei Rodrigues.
Oficialmente, Vorcaro assinou um termo de confidencialidade para a colaboração no dia 19 de março, quinze dias após sua prisão. A data de 3 de março, portanto, é uma novidade. Na versão de Vorcaro, a coincidência da assinatura do termo e a prisão mostram que a PF tenta evitar que ele fale.
O relato consta da íntegra do depoimento prestado por Vorcaro em 28 de agosto ao juiz João Azambuja, auxiliar do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal; ao assessor do ministro, Victor Fernando Gonçalves Cordula; ao promotor de Justiça Daniel José Monteiro Dias, que atuou como representante da Procuradoria-Geral da República; e a cinco advogados de defesa de Vorcaro, entre eles Daniel Bialski e Tiago Machado.
A conversa foi o início de uma terceira tentativa de colaboração, feita por videoconferência a pedido da defesa de Vorcaro. Na petição protocolada um dia antes, a defesa alegava que Vorcaro vinha sofrendo intimidações desde que manifestou interesse em retomar as tratativas para a delação.
A prisão de 4 de março aconteceu na terceira fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça no mesmo dia, menos de um mês após assumir a relatoria do caso, em 12 de fevereiro. A decisão da operação foi tomada sem o parecer da Procuradoria-Geral da República, como é de praxe, após Mendonça ignorar o pedido do procurador-geral Paulo Gonet por mais tempo para se manifestar.
“Desde o começo, quando eu assino o termo de confidencialidade, foi no dia 3 de março, a polícia logo em seguida, ela já tinha… já sabia de todos os atos que deveriam ser feitos, a polícia, ela emite a minha prisão no dia seguinte”, disse Vorcaro na audiência.
No depoimento, Vorcaro cita diversas vezes o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Relata viagens conjuntas, pagamentos de ingressos para eventos e a presença de namorada do delegado em festas do Banco Master. Questionado por seu advogado se retomaria o nome de Rodrigues numa eventual nova colaboração, o banqueiro respondeu que o delegado “estaria, sim, dentro do contexto” dessas relações, que classificou como tendo cruzado “linhas de moralidade” e possivelmente “linhas de ilicitude”. Perguntado se acreditava que colaborações anteriores não avançaram por causa dessa relação, respondeu: “Isso eu tenho certeza”.
Vorcaro relatou ainda intimidações durante o transporte que se seguiu à sua prisão de novembro, incluindo as falas de agentes de custódia durante seu deslocamento de São Paulo a Brasília e durante o transporte de helicóptero até a sede da PF. Disse que passou a receber recados repassados por advogados, que não quis identificar, com frequência quase diária durante o tempo em que mantinha tratativas de colaboração dentro da corporação, e que sua mãe, que mora em Belo Horizonte, recebeu e-mails anônimos com ameaças de morte contra ele.
A defesa formulou, ao final da audiência, um requerimento para tentar apresentar uma nova proposta de colaboração premiada. O despacho do juiz auxiliar não decidiu o pedido, só retornou os autos para o gabinete do ministro Mendonça.
Procurados na tarde desta quinta-feira (3), a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a defesa de Vorcaro não se manifestaram até a publicação desta reportagem.