O deputado federal Yury do Paredão, do MDB do Ceará, esteve a poucos dias de receber 15,1 milhões de reais em dinheiro público do Banco do Nordeste (BNB) para comprar um avião executivo através de uma empresa da qual é o único dono. O financiamento teve parecer favorável de duas instâncias do banco federal, com desembolso programado para 30 de junho, mas parou antes de ser liberado após questionamentos à operação. O Bastidor teve acesso aos documentos.

A empresa é a The Táxi Aéreo, fundada em outubro de 2024 e registrada em Juazeiro do Norte, base eleitoral do deputado. Até março deste ano, pertencia a outros dois sócios. Na mesma data em que Yury assumiu 100% das cotas, sua mãe, Marcia Maria Alencar Araujo, passou a administrar o negócio, e o capital social da empresa saltou de 80 mil reais para 4,08 milhões.

O dinheiro do BNB seria usado para comprar um Piper Malibu Meridian, avião de seis lugares avaliado em 17,8 milhões de reais. A aeronave ainda está registrada em nome do vendedor na Agência Nacional de Aviação Civil, a ANAC, com a venda apenas comunicada, não efetivada. A empresa tem autorização para operar como táxi aéreo desde janeiro, mas com sede oficial em Teresina, no Piauí, endereço diferente do usado no pedido de financiamento.

O processo avançou por duas instâncias internas do banco antes de travar. Em 22 de junho, o comitê da agência de Juazeiro do Norte e o Comitê Estadual do Ceará deram parecer favorável ao financiamento. O Comitê Estadual, porém, registrou ressalvas, apontando que a operação envolvia fatores de risco associados à fase de implantação do empreendimento, à estrutura de garantias apresentada e ao porte do financiamento em relação ao histórico creditício do grupo.

Por não se enquadrar nas regras normais do programa de crédito ao qual foi submetido, a proposta precisou ser encaminhada a uma alçada especial de decisão, o Comac, etapa final necessária para a contratação. É nesse ponto que o processo parou. Não há registro, nos documentos obtidos pelo Bastidor, de manifestação do Comac nem do setor jurídico do banco. A data programada para o desembolso passou sem que o dinheiro fosse liberado.

A área do banco por onde essa proposta tramitou é comandada por Raimundo Vandir Farias Júnior, diretor de Negócios do Banco do Nordeste desde outubro de 2025. Segundo fonte a par do processo de indicações no BNB, ele chegou ao cargo por influência de Yury do Paredão. Antes disso, construiu carreira em agências do Cariri, região que inclui Juazeiro do Norte, base eleitoral do deputado.

Procurado na quinta-feira (9), Yury disse ter desistido da operação, afirmando que não houve negativa do banco e que fará a compra da aeronave com recursos próprios. “Vou fazer com recurso próprio mesmo”, disse. “Não teve negativa alguma do banco. Apenas desisti de fazer a operação com eles”.

Um dirigente do banco disse em caráter reservado que a operação não aconteceu e não vai acontecer, mas não detalhou se a decisão partiu do banco ou do próprio deputado, nem se há registro formal de desistência.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o Banco do Nordeste informou que suas operações de crédito seguem rigoroso processo de análise, com decisões sempre colegiadas, e que eventual aprovação em etapas intermediárias não implica a contratação da operação. A instituição afirmou ainda que não comenta propostas ou clientes específicos, em observância ao dever de confidencialidade aplicável a operações de crédito.

O deputado Yury do Paredão é alvo de outra apuração. Em abril de 2025, o Bastidor revelou que a Polícia Federal investiga uma ligação de vídeo feita pelo deputado no dia em que a corporação apreendeu 600 mil reais de um grupo suspeito de comprar votos com dinheiro de emendas parlamentares desviadas no Ceará. O caso, batizado de Mercato Clauso, está no Supremo Tribunal Federal.