A Polícia Federal cumpriu, na manhã desta terça-feira (23), nove mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao banco Digimais, do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Segundo os investigadores, há suspeita de fraudes contra o Sistema Financeiro Nacional.
A operação batizada de Miragem apura indícios de que gestores do Digimais manipularam demonstrativos contábeis e registros regulatórios para tentar enganar o Banco Central, ocultando a real situação financeira da instituição.
A Justiça determinou o bloqueio de 670 milhões de reais de diretores do Digimais, incluindo Edir Macedo. O bispo não foi alvo de mandados de busca e apreensão porque mora nos Estados Unidos.
A investigação começou a partir de relatórios do Banco Central, que monitora de perto a situação financeira do Digimais. No fim do ano passado, o banco de Edir Macedo extinguiu o conselho de administração. A crise na instituição se prolonga, ao menos, desde 2022, como mostrou o Bastidor.
De acordo com a Polícia Federal, a fraude consistiu na supervalorização de ativos podres ou de baixa liquidez. Com isso, os balanços do banco apresentavam situação financeira regular, apesar dos prejuízos que se acumularam ao longo dos últimos anos, devido à inadimplência e à exposição da instituição a papéis do Banco Master. Dessa forma, era possível continuar a captação de recursos, por meio da emissão de CDBs, estratégia que se apoiava na expectativa de cobertura pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em caso de quebra, e não na real capacidade patrimonial do banco.
A primeira etapa do esquema ocorreu em fevereiro de 2023, quando o fundo ID112 (FIDC-NP) — um dos veículos usados na operação — adquiriu 7,7% dos direitos creditórios pertencentes à família Villela, por 9 milhões de reais. Ao serem transferidos para o fundo Guidare, esses créditos foram reavaliados em 100 milhões de reais, com base em pareceres jurídicos que, para a PF, serviram apenas para justificar a valorização artificial dos créditos.
Em junho do mesmo ano, em operação similar, a mesma estrutura de fundos comprou outros 9,25% dos direitos creditórios dos Villela, por 22 milhões de reais, e os reavaliou em 130 milhões de reais, também com base em pareceres jurídicos, para inflar os títulos. A operação seria repetida em mais duas oportunidades, em setembro daquele ano, inflando papéis comprados por 40 milhões de reais para quase 350 milhões de reais.
Na segunda etapa da fraude, identificada em dezembro de 2025, o Digimais vendeu 741,3 milhões de reais em cotas do fundo de investimento Hermon à sua controladora indireta, a holding B.A. Empreendimentos e Participações. Foi nessa transação que a Polícia Federal encontrou indícios diretos de fraude ao Sistema Financeiro Nacional.
A operação inflou diretamente o balanço do Digimais e abriu espaço para que o FGC pudesse injetar até 7 bilhões de reais no banco, garantindo a liquidez necessária para que o BTG Pactual pudesse efetuar a compra da instituição de Edir Macedo. A negociação, no entanto, não foi finalizada.

