Foragidos há quase dez meses, o dono da Copape, Mohamad Hussein Mourad, e seu sócio Roberto Augusto Leme Silva, conhecido como Beto Louco, afirmam, em propostas de colaboração premiada às quais o Bastidor teve acesso, que receberam informações sigilosas antecipadas sobre ao menos três grandes operações policiais que miraram o setor de combustíveis, como a Carbono Oculto, a Tank e a Quasar — todas deflagradas em 28 de agosto do ano passado.
A última informação da Polícia Federal é que Mohamad e Beto Louco vivem na Líbia. Eles tentaram fechar uma delação com o Ministério Público de São Paulo e com a Procuradoria-Geral da República. Uma versão anterior da proposta já foi rejeitada em maio pelas autoridades por omissões e ausência de informações novas para as investigações. A dupla firmou acordo com o Ministério Público da Bahia, homologado pela 2ª Vara Criminal de Feira de Santana, e revelou um esquema que causou prejuízo de 400 milhões de reais aos cofres públicos. Os relatos resultaram na operação Khallas.
Segundo as propostas de colaboração, o advogado Márcio Miranda Maia, acusado de receber propina dos empresários e de operar o esquema da Copape, era quem antecipava à dupla datas, alvos e detalhes das operações.
De acordo com o documento, o primeiro vazamento ocorreu em março de 2023, quando Maia alertou Mohamad e Beto Louco de que a operação Cassiopéia, do Ministério Público de São Paulo e da Receita Federal contra a máfia dos combustíveis, seria deflagrada no dia 21 daquele mês, com mandados de busca e apreensão nas residências e escritórios da Copape.
Os dois fugiram após o aviso e retornaram tempos depois. A operação ocorreu na data prevista. Segundo a delação, Maia afirmou que recebeu a informação sobre a Cassiopéia do ex-auditor Eugênio Evandro Fernandes, então coordenador dos auditores fiscais estaduais em Guarulhos, na Grande São Paulo.
Em abril de 2025, de acordo com Mohamad e Beto Louco, Maia os alertou sobre uma nova operação que miraria o setor de combustíveis nos dias seguintes. Nenhuma ação policial se concretizou.
As primeiras informações sobre as operações Carbono Oculto, Tank e Quasar começaram a chegar em julho de 2025, segundo os colaboradores. Maia informou que uma operação de grande porte seria deflagrada em 14 de agosto. Dias antes, avisou que ela tinha sido adiada para 28 de agosto por falta de disponibilidade da equipe da Polícia Federal do Paraná.
Em 26 de agosto, dois dias antes da deflagração, Maia fez novo contato, repassou a lista de empresas que seriam alvo das três operações e confirmou a data. Quando os dois questionaram Maia sobre a origem das informações, ele apontou que recebeu os dados do ex-auditor fiscal Vitor Manuel dos Santos Alves Junior, suspeito de receber propina dos empresários.
De acordo com a delação, Vitor disse que recebeu os dados de um servidor ligado ao Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo, o Cira/SP, que reúne representantes do MP, da Secretaria da Fazenda do Estado e da Procuradoria-Geral do Estado. Esse funcionário não é identificado na delação.
Nas propostas de colaboração, a dupla afirma que alertou outros envolvidos no esquema e avisou familiares sobre a operação, sem identificá-los. Também dispensou todos os funcionários da Copape e fugiu. Mohamad e Beto Louco não fornecem detalhes da fuga. Afirmam que foi por conta do seu aviso que parte dos alvos das três operações não foram encontrados.
A fuga resultou em um baixo número de mandados de prisão cumpridos. Como mostrou o Bastidor, nas buscas realizadas em escritórios na Faria Lima, em São Paulo, o Ministério Público de São Paulo e a Polícia Federal encontraram poucos materiais de interesse para as investigações. Foram apreendidos celulares, computadores e cadernos de anotações, mas parte dos endereços estava praticamente vazia.
Procurados pelo Bastidor, o advogado Márcio Miranda Maia e o ex-auditor Eugênio Evandro não responderam aos questionamentos. O ex-auditor Vitor Santos preferiu não se manifestar.
Os advogados de Mohamad e Beto Louco criticaram o vazamento de informações das propostas de delação. Afirmou que não comentará detalhes do conteúdo da colaboração. Leia abaixo a íntegra da nota da defesa.
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