A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (1) uma operação contra a Go UP Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, e contra a ONG Instituto Conhecer Brasil, ambas controladas por Karina Ferreira Gama. As suspeitas são de fraude na execução de um contrato de 108 milhões de reais firmado com a Prefeitura de São Paulo e de emprego irregular de dinheiro público.
Foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão em endereços ligados à representante legal da Go UP, Karina Ferreira Gama, entre eles as sedes da produtora, do Instituto Conhecer Brasil e da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. A operação foi autorizada pela 1ª Vara Regional de Garantias do Tribunal de Justiça de São Paulo. Karina e suas empresas são o alvo do inquérito.
O contrato investigado foi firmado em junho de 2024 entre a Secretaria, na gestão do prefeito Ricardo Nunes, do MDB, e o Instituto Conhecer Brasil. A ONG foi a única concorrente na licitação. O Tribunal de Contas de São Paulo apontou 20 irregularidades e foi contrário à celebração do contrato. A prefeitura seguiu adiante mesmo assim.
O objeto era a instalação de 5 mil pontos de Wi-Fi em comunidades de baixa renda, com manutenção por 12 meses, ao custo de 1.800 reais por ponto. Segundo o inquérito, o valor é cerca de oito vezes superior ao praticado pela Prodam, empresa municipal que executa o serviço equivalente por 230 reais por ponto. Dos 5 mil pontos contratados, apenas 3 mil foram instalados, a um custo de 69 milhões de reais. Se o serviço tivesse sido feito pela Prodam, custaria 43 milhões. Ou seja: de acordo com a investigação, a prefeitura pagou 26 milhões de reais a mais para que o serviço fosse feito pelo Instituto Conhecer Brasil.
Um parecer da própria Secretaria identificou ao menos 16,5 milhões de reais em notas fiscais irregulares na prestação de contas do ICB. Entre as irregularidades estão: ao menos três notas emitidas pela organização têm com a própria Karina como destinatária, somando mais de 1,4 milhão de reais; quatro notas canceladas foram apresentadas como válidas, num total superior a 2 milhões de reais.
Apesar das irregularidades, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia aprovou a prestação de contas do ICB “com ressalvas” e determinou a devolução de 930 mil reais. A prefeitura afirma que o valor foi devolvido e que o contrato foi renovado para a instalação dos 1.800 pontos restantes. A situação atual da renovação não é de conhecimento público.
Responsável pela investigação, o delegado Antonio Carlos Munuera Silveira pediu à Justiça que o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) elabore relatórios de inteligência financeira do Instituto Conhecer Brasil para verificar a possibilidade de dinheiro da prefeitura de São Paulo ter sido usado para produzir o filme “Dark Horse”.
“Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme, utilizando as contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo”, diz um trecho da petição de Munuera à Justiça.
A suspeita existe por duas questões. Karina Ferreira Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil, é dona da GoUp Entertainmet, produtora do filme. O deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, autor do roteiro do filme, destinou emendas parlamentares às ONGs de Karina e contratou outra empresa dela, a GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, para prestar serviços à sua campanha eleitoral em 2022.
Uma terceira ONG ligada a Karina, a Academia Nacional de Cultura, recebeu 2,6 milhões de reais em emendas de deputados bolsonaristas do PL para produzir um documentário que ainda não foi lançado. Frias não é investigado no caso.
Em nota à imprensa, a Prefeitura de São Paulo disse colaborar com as investigações e afirmou que toda a documentação já havia sido enviada às autoridades. A íntegra está disponível aqui.
Em nota à imprensa divulgada antes da operação, Karina Ferreira Gama afirmou que o contrato com a prefeitura de São Paulo foi feito de forma regular. O Bastidor tenta contato para uma nova manifestação.

