A rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal alterou o ambiente no Senado e ampliou a incerteza sobre outras nomeações. Entre elas está a de Otto Lobo para a presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que passou a enfrentar um cenário mais adverso.

Senadores e integrantes da CVM ouvidos pelo Bastidor avaliam que a aprovação de Otto é difícil. A comparação com o caso de Messias é recorrente, embora por razões distintas. Messias caiu por falta de apoio político, sobretudo do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Otto tem apoio inclusive de Alcolumbre, mas acumula outras fragilidades que, somadas, levam a um possível desfecho semelhante.

O principal obstáculo e Otto é o caso Banco Master. Enquanto diretor e presidente interino da CVM, Otto acumulou decisões favoráveis ao Master e a empresas ligadas ao empresário Nelson Tanure, como mostrou o Bastidor.

Diferentemente de Messias, Otto não foi indicado por proximidade com o governo Lula. Ao contrário: sua indicação enfrentou resistência no Ministério da Fazenda. Seu nome ganhou força com o apoio de empresários, como os irmãos Wesley e Joesley Batista, da J&F, além de lideranças do Centrão e do próprio Alcolumbre, mas esse arranjo perdeu sustentação ao longo do tempo, em especial devido ao caso do Banco Master.

Na semana passada, Otto tentou reverter o cenário com uma rodada de conversas no Senado, especialmente com membros da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), responsável pela sabatina. A iniciativa não avançou. Como mostrou o Bastidor, o presidente da comissão, Renan Calheiros, e o relator, Eduardo Braga, mantiveram apenas contatos formais com ele, sem tratar do andamento da indicação. Na prática, isso consolidou um bloqueio à tramitação na comissão.

A posição da cúpula da CAE influencia o restante do colegiado, especialmente a bancada do MDB. Uma fonte a par das articulações de Otto no Senado afirma que houve receptividade pontual de alguns senadores, como Rogério Carvalho e Damares Alves, mas não há maioria favorável enquanto a liderança da comissão permanecer contrária.

Em abril, Renan Calheiros disse ao Bastidor que a indicação só avançaria se o presidente Lula confirmasse que mantinha a indicação. O relator Eduardo Braga tenta obter essa sinalização há semanas. Sem resposta, não há previsão para a conclusão do relatório nem para o agendamento da sabatina. Braga afirmou a interlocutores que, independentemente da posição de Lula, pode apresentar um parecer contrário à aprovação de Otto. A indefinição amplia o desgaste do indicado.

O prazo do mandato também pesa. Indicado para um mandato-tampão até julho de 2027, Otto teria cerca de 14 meses no cargo se fosse aprovado agora. A demora, portanto, joga contra. Segundo um integrante da CVM, cada dia a mais de demora significa um dia a menos de mandato, o que reduz o interesse político na nomeação e, consequentemente, o incentivo para mobilização no Senado.

Dentro da autarquia, o cenário já produziu efeitos. Inicialmente tratado como futuro presidente, Otto manteve aliados em posições estratégicas após deixar a presidência no ano passado. Em março, o atual presidente interino, João Accioly, promoveu mudanças e reorganizou essas áreas. Servidores da CVM associam a reestruturação ao risco de a indicação não avançar.

No Senado, cresceram os questionamentos sobre a atuação de Otto no caso do Banco Master. Em sessão da CAE, Renan Calheiros pediu esclarecimentos a Accioly sobre decisões envolvendo o banco durante a gestão de Otto. O tema passou a mobilizar não apenas a oposição, mas também senadores da base. Decisões da CVM também passaram a ser acompanhadas por órgãos de controle, como o TCU e a Polícia Federal, ampliando o desconforto em torno da indicação.

O caso se insere em um quadro mais amplo. O governo enfrenta dificuldades para avançar indicações em autarquias e agências reguladoras, com vagas abertas no Banco Central, no Cade, na CVM e em outros órgãos. No Senado, o processo de aprovação tem se tornado mais restritivo. Com indicações acumuladas e o calendário eleitoral, o ritmo diminuiu.

O Bastidor procurou Otto Lobo para comentar os pontos abordados na reportagem, mas ele preferiu não se manifestar.