A indicação do advogado Otto Lobo para comandar a CVM, a Comissão de Valores Mobiliários, terá de passar novamente pelo crivo do presidente Lula. Na semana passada, depois de três meses de espera, o processo andou no Senado, com o envio do nome à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), responsável por sabatinar os indicados pelo governo.

O avanço, porém, não significa caminho livre. O presidente da CAE, Renan Calheiros, do MDB de Alagoas, disse ao Bastidor que a indicação só seguirá adiante se o governo confirmar que o nome continua valendo. A mesma avaliação se aplica ao advogado Igor Muniz, indicado para uma das diretorias da CVM com apoio de uma ala do PT da Bahia.

“Recomendei aos relatores que confirmem com o presidente Lula a atualidade das indicações. Só depois disso, se for o caso, anunciarei o calendário (das sabatinas)”, afirmou Renan. Na terça-feira (14), o senador Eduardo Braga, do MDB do Amazonas, foi escolhido relator da indicação de Lobo. O senador Rogério Carvalho, do PT de Sergipe, relata a indicação de Muniz.

Como mostrou o Bastidor, as escolhas de Lobo e Muniz foram mal recebidas pelo mercado financeiro e contrariaram o Ministério da Fazenda, que defendia outros indicados para a CVM. A crise do Banco Master agravou esse mal-estar. Lobo já foi diretor da autarquia e assumiu a presidência interinamente após a renúncia de João Pedro Nascimento, em julho de 2025. Nesse período, inclusive como presidente interino, acumulou decisões favoráveis ao Master e a empresas ligadas ao empresário Nelson Tanure.

Com o avanço das investigações sobre o banco, cresceu a resistência à sua indicação. O Ministério da Fazenda não assimilou a escolha e atua nos bastidores para enfraquecê-la. A situação de Lobo se deteriorou mais em fevereiro, durante uma audiência do atual presidente interino da CVM, João Accioly, na Comissão de Assuntos Econômicos.

Na sessão, o senador Renan Calheiros questionou se a indicação de Lobo tinha caráter político e se ele havia atuado em favor do Master quando passou pela CVM. O episódio ampliou o desconforto em torno do nome de Lobo e reforçou, dentro do governo, a avaliação de que sua indicação se tornou politicamente mais difícil.

Procurado pelo Bastidor, Otto Lobo afirmou que precisa “respeitar toda a liturgia do processo” neste período que antecede a sabatina e que aguarda a decisão do presidente da CAE sobre quando a análise de seu nome será pautada. Igor Muniz não respondeu aos contatos da reportagem.