O grupo Andrade Gutierrez, do qual faz parte uma das maiores construtoras do país e investigada na Operação Lava-Jato, protocolou um novo pedido de recuperação extrajudicial na 1ª Vara Empresarial de Belo Horizonte para renegociar dívidas de aproximadamente 11,6 bilhões de reais. É a segunda vez em três anos e meio que a empresa recorre ao mesmo juízo, na mesma vara, para reestruturar seu passivo financeiro.
Seis empresas aparecem no pedido de recuperação extrajudicial: a Andrade Gutierrez Engenharia (AGE), Andrade Gutierrez Construções e Serviços (AGCS), Andrade Gutierrez Investimentos em Engenharia (AGIE), que são brasileiras; e Andrade Gutierrez International (AGINT), Zagope SGPS e Inzag Germany, que são internacionais.
O pedido está dividido em dois planos. O Plano 1, de acordo com o documento, abrange dívidas das brasileiras: 3,4 bilhões de reais da AGE, 2,67 bilhões de reais da AGCS e 2,48 bilhões de reais da AGIE, totalizando 8,55 bilhões de reais. O Plano 2 cobre as dívidas das três entidades internacionais: a AGINT, com 2,81 bilhões de reais, e Zagope e Inzag, que somam outros 331 milhões de reais, totalizando 3,14 bilhões de reais.
No segundo plano, a Andrade Gutierrez propõe reestruturar os bonds emitidos na recuperação extrajudicial de 2022, com vencimentos em 2029 e 2040. Esses títulos haviam sido criados justamente para substituir passivos que já estavam inadimplentes.
Os dois planos contam com a adesão de um único credor signatário: a Vert Private Placements Companhia Securitizadora, com sede em Pinheiros, São Paulo. Ela detém entre 71% e 79% dos créditos sujeitos em cada uma das seis empresas. É esse credor único que, na prática, viabilizou juridicamente os planos, já que a lei de recuperações exige apenas que o signatário represente mais da metade dos créditos sujeitos para que o plano possa ser submetido à homologação e vincule os demais credores.
Na petição de mais de 1400 páginas, assinada pelos advogados Eduardo Augusto Mattar, Guilherme Bergamin de Barros, Victor Dias Vieira Clementino, Henrique Del Vecchio Rodrigues, Fernanda Oliveira Alencar e Ana Katarina Costa Marques, a Andrade alega três principais razões para o novo colapso.
A primeira é a paralisação de quase metade da carteira de projetos. Dois casos se destacam: um projeto de rodovia em Gana, avaliado em 1,4 bilhão de reais e correspondente a 15% da carteira do grupo, foi suspenso em dezembro de 2022 após o governo ganês dar calote em sua própria dívida interna; e uma usina hidrelétrica na República Dominicana, de 3,2 bilhões e equivalente a 32% da carteira, foi adiada por ordem do governo dominicano.
O segundo é o câmbio: o dólar superou 6 reais em dezembro de 2024, data em que a empresa deixou de pagar os juros dos bonds 2029. O terceiro é a taxa Selic: na época do primeiro pedido, em 2022, o Boletim Focus projetava a taxa básica em 7,75% ao final de 2025. Ela chegou a 15%. O custo financeiro das dívidas locais superou 203 milhões de reais por ano, com saldo total de mais de 1,9 bilhão.
Entre 2022 e 2025, as três empresas brasileiras acumularam prejuízos que, somados, superam 2 bilhões de reais.
Além de reestruturar as dívidas, a empresa pediu à juíza a suspensão imediata de todas as execuções e cobranças contra ela. Quer ainda que seja dispensada de apresentar certidão negativa de recuperação extrajudicial para continuar participando de licitações públicas. Citou como exemplo o edital do Metrô do Distrito Federal, cuja abertura de propostas está marcada para 2 de junho.

