O ex-diretor do Banco Central, Paulo César Neves de Souza, recebeu 3 milhões de reais de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, pela venda de uma fazenda em Juruaia, interior de Minas Gerais. Segundo o jornal Valor Econômico, o negócio aparenta ter sido fraudado para o pagamento de propina a Souza, um dos alvos da terceira fase da operação Compliance Zero na quarta-feira (6).

O imóvel, de 21,78 hectares, foi vendido em fevereiro de 2021 para a Pipe Participações, na qual Zettel figura como sócio. À época, Souza era diretor de fiscalização do Banco Central.

O Valor Econômico também encontrou rastros de parceria entre Souza e Zettel em outra empresa, a Noah Empreendimentos e Participações. Essa companhia tem como sócios Luís Roberto Souza, irmão do ex-diretor do BC, e a Pipe Participações. A empresa tem capital social de 3,1 milhões, valor semelhante ao da venda da fazenda.

A suspeita de investigadores é de que a venda do imóvel tenha servido apenas para legitimar o pagamento de propina a Souza. Na prática, ele ficaria usufruindo da fazenda, que fica na região cafeeira de Minas. O registro do imóvel em cartório mostra que, nos últimos 20 anos, a fazenda levantou diversos empréstimos para o custeio de produção de café.

Paulo Souza foi afastado das atividades no Banco Central depois de ter sido o autor de um documento que serviu como álibi para Vorcaro ser solto em novembro, uma semana depois da primeira fase da Compliance Zero. No texto, afirmava ter recebido o banqueiro na instituição para tratar da venda do Master a investidores árabes e à Fictor, que pediu recuperação judicial em fevereiro deste ano.

Antes de deixar o Banco Central, Paulo Souza usou o cargo para defender o Banco Master. Segundo as investigações, ele atuava como um consultor informal de Vorcaro na autarquia, fornecendo informações privilegiadas e orientações sobre a documentação que o Master precisava encaminhar para viabilizar a venda ao BRB.

Em 2023, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto pediu a Souza que fizesse um pente-fino nas contas do Master. A análise apontou que não havia qualquer irregularidade. Dois anos mais tarde, já sob o comando de Gabriel Galípolo, o BC revisou o trabalho e encontrou um rombo de 11,5 bilhões na contabilidade do banco, não reportado por Souza.

Além do dinheiro, a Polícia Federal diz que Vorcaro pagou a Souza uma viagem aos parques da Disney e da Universal, em Orlando, nos Estados Unidos.

No mesmo ano, quando terminou o mandato de diretor, Souza foi nomeado chefe-adjunto do Departamento de Supervisão do Banco Central. Na decisão que determinou a terceira fase da Compliance Zero, o ministro André Mendonça cita uma conversa entre ele e Vorcaro, na qual o banqueiro o parabeniza pela nova função.

Embora não tenha sido preso, Paulo Souza foi obrigado a usar tornozeleira eletrônica e está proibido de frequentar o Banco Central. Além dele, o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária Belline Santana também foi alvo de medidas cautelares semelhantes. Ele é suspeito de ter recebido propina por meio de uma empresa ligada indiretamente a Zettel.