Nas últimas semanas, o governo de Goiás publicou em jornais e outros tipos de mídia anúncios voltados à atração de investimentos e novos negócios, com textos bastante particulares: “Em Goiás, bandido não se cria. Mas os bons negócios se multiplicam” e “Só dois negócios não prosperam em Goiás: blindagem de automóvel e segurança privada”.
O uso incomum da segurança pública num anúncio sobre negócios não é piada, é estratégia. Dois anos antes da eleição presidencial, a pré-campanha do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do União Brasil, está nesses anúncios. Caiado quer ser candidato a presidente em 2026 e o discurso da linha dura na segurança é sua identidade.
Este ano, o governo de Goiás gastou 51,1 milhões de reais em publicidade. No ano passado foram 131 milhões. A diferença, de acordo com quem acompanha os dados locais, é o deslocamento de parte do investimento em veículos locais para os nacionais.
A campanha do governo de Caiado faz sentido para um pré-candidato. Divulgada na semana passada, a última pesquisa Quaest com a avaliação do governo Lula mostra que a violência passou a ser a segunda maior preocupação dos brasileiros, com 19% de citações, atrás apenas da economia (21%) e à frente de questões sociais (18%) e saúde (15%). Há um ano, 12% dos entrevistados citavam a violência com principal preocupação.
Caiado e outro pré-candidato para 2026, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, investem na segurança pública como plataforma para se contrapor ao presidente Lula. Apesar de o governo federal não ter ingerência direta na segurança – é uma missão dos estados -, a violência se tornou um tema eleitoral para presidenciáveis.
Caiado e Tarcísio fazem um discurso conservador e linha dura. Foram a favor do projeto que proibiu as saidinhas de presos, vetado em parte por Lula. Ambos são contra a instalação de câmeras nos uniformes de policiais, prática que diminuiu significativamente casos de abusos e de assassinatos praticados por policiais. Caiado e Tacísio fazem o discurso corporativo que agrada às forças policiais e impulsionou o bolsonarismo entre as tropas. E agrada parte expressiva do eleitorado.
No caso de Goiás, a letalidade policial aumentou na gestão de Caiado, de acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Caiado repete o slogan “em Goiás, bandido não se cria”, um eufemismo para o popular “bandido bom é bandido morto”, repetido no país por políticos nas décadas passadas. É um recado bem entendido por eleitores adeptos da linha dura.

