A ministra Rosa Weber foi eleita ontem à Presidência do Supremo Tribunal Federal sob uma expectativa aparentemente inatingível: preservar a legitimidade e autoridade da corte máxima do país durante as eleições mais tempestuosas desde a redemocratização. Ela assume oficialmente o cargo daqui a um mês, no auge da campanha. (A escolha de Rosa segue o rito da corte; não houve surpresa.)

Seja pelas ações do presidente Jair Bolsonaro, seja pelas decisões que os ministros tomaram ou deixaram de tomar no mandato dele, o Supremo tornou-se sócio da patuscada de 2022. Uma vez estabelecido o enrosco, será difícil sair dele a tempo de outubro.

O caminho até aqui é conhecido. Desnecessário relembrar o passado recente. Mas, se há jeito de proteger a integridade malferida do Supremo e, a um só tempo, o estado democrático de direito, esse jeito provavelmente envolve as virtudes de Rosa. Circunspecção, equilíbrio, razoabilidade e verbo nos autos, não em discursos – o Supremo precisará disso para se afastar da barafunda institucional da qual virou partícipe. 

Slogans gastos e pronunciamentos grandiloquentes, se repetidos amiúde como verdades morais inquestionáveis, aproximarão ainda mais o tribunal da política. Reforçarão a percepção, facilmente explorável na era digital, de que, a pretexto de defender a ordem constitucional, o Supremo trabalha para eleger Lula, em vez de se limitar, como se fosse fácil esse mister, a defender o estado democrático de direito de possíveis atos golpistas do presidente.

Se Rosa, a ministra mais discreta do tribunal, der o tom que lhe é natural por temperamento e hábito, sua liderança pode ser benéfica a um Supremo ainda conflagrado pelo estado permanente de guerra criado contra Bolsonaro. O silêncio de seus colegas nos momentos difíceis, e eles não serão poucos nos próximos meses, ajudaria, embora essa colaboração seja um tanto improvável. 

Sob o exemplo de Rosa, os ministros farão uma grande favor ao tribunal e a si mesmos se mantiverem uma certa bonomia, há tempos ausente, em face de questiúnculas e ataques menores. Nem toda crítica é “fake news”. Nem todo comentário incisivo e desagradável é “coisa de bolsonarista”. Nem toda decisão visa a preservar a ordem democrática. Um pouco menos de fatuidade cairia bem.

Essa bonomia não significaria genuflexão perante ameaças golpistas. Não expressaria fragilidade. Revelaria sabedoria para saber agir quando agir for realmente necessário. Se esse momento sobrevier, o momento da ação mais difícil diante de um presidente fora de controle, o Supremo precisará seguir as virtudes – e o exemplo – de Rosa.