Há quase dois anos, o Banco do Brasil se recusa a informar o valor do contrato que mantém com o escritório do advogado Nelson Wilians, investigado pela Polícia Federal. Desde outubro de 2024 o Bastidor pede dados sobre os termos e os valores do contrato pelo qual o Nelson Wilians Advogados cuida de parte da carteira de processos de massa do BB. Procurado desde quinta-feira (13) para dizer se o contrato ainda está vigente, o banco também não respondeu.

O silêncio persiste mesmo depois de Wilians ter sido algo de três operações policiais e fiscais em menos de um ano, e depois de a CPMI do INSS ter aprovado, em 16 de outubro de 2025, requerimento pedindo à presidente do banco, Tarciana Medeiros, a rescisão dos contratos. Na ocasião, a CPMI pediu também que o Tribunal de Contas da União analisasse a legalidade do contrato.

Wilians presta serviços ao Banco do Brasil desde 2014. Num dos contratos com o banco, que lhe rendeu 677 milhões de reais – segundo disse em entrevista à Forbes Brasil –, seu escritório foi alvo de uma investigação, suspeito de simular a contratação dos advogados necessários para enfrentar a empreitada. Na CPMI, o deputado Sidney Leite (PSD-AM) falou em aproximadamente 1 bilhão de reais.

O contrato com o BB foi um trampolim para a expansão do escritório de Wilians. Na licitação de 2014 — a maior de serviços jurídicos já realizada no país, com 160 bancas inscritas —, o Nelson Wilians Advogados ficou em primeiro lugar em 30 das 54 categorias e regiões disputadas, que abrangiam as áreas trabalhista, penal, administrativa, tributária e de recuperação de crédito. O certame chegou a ser suspenso diante de mais de trinta recursos administrativos, seis representações ao TCU e uma representação criminal. 

Nesta sexta-feira (14), o escritório informou em suas redes sociais que Wilians se afastou da direção por prazo indeterminado. A administração passa a ser exercida por um Comitê Executivo, cuja composição a nota não detalha. Segundo o comunicado, a decisão foi comunicada pelo próprio advogado, que optou por dedicar-se a cuidar da família e a acompanhar as investigações.

O anúncio veio um dia depois de a Polícia Federal deflagrar a operação Arena, que apura lavagem de dinheiro e evasão de divisas ligadas ao setor de apostas. Foram 17 mandados em cinco estados, autorizados pela 4ª Vara Federal da Paraíba, com sequestro de bens de até 1,1 bilhão de reais. Wilians é considerado suspeito de participar de um esquema de lavagem de dinheiro da Pixbet. Em nota, o sócio de Wilians, Santiago Schunck afirmou que a relação do escritório com a bet é estritamente profissional e advertiu contra “criminalizar a advocacia”.

Em julho, Wilians já havia sido alvo da operação Distrato, do  Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo (CIRA/SP), sobre um esquema de créditos falsos de ICMS que teria gerado mais de 3,8 bilhões de reais em créditos tributários, com cerca de 752 empresas sob suspeita.

Em setembro de 2025, ele foi alvo de desdobramento da operação Sem Desconto, sobre descontos ilegais em benefícios do INSS pagos a pessoas pobres. Na ocasião, a Polícia Federal apreendeu obras de arte, relógios, armas e carros de luxo, entre eles uma réplica da McLaren MP4/8 de Ayrton Senna na casa de Wilians. O pedido de prisão preventiva foi negado pelo Supremo. Diante da CPMI do INSS, Wilians permaneceu calado. Relatórios do Coaf apontaram cerca de 4,3 bilhões de reais em operações atípicas nas contas do escritório entre 2019 e 2024.