A operação contra o Comando Vermelho, que deixou mais de 100 mortos no Rio de Janeiro, foi convertida pela oposição em oportunidade de recuperar espaço num momento de alta popularidade do governo Lula. Desde ontem, governadores e parlamentares de oposição atribuem ao governo federal e ao presidente responsabilidade difusa pelo que aconteceu. Não poderia ser diferente a um ano de uma eleição que será marcada pelo tema segurança.
A janela foi aberta pelo governador do Rio, Cláudio Castro, do PL de Jair Bolsonaro. Em situação difícil quando a reação dos traficantes à ação da polícia provocou pânico e paralisou a cidade, Castro fez uma reclamação pueril sobre o governo não ter emprestado blindados do Exército para a ação.
É difícil crer que Castro não soubesse que blindados do Exército não podem ser emprestados: para isso, teria de ser decretada uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que tem diversas implicações institucionais. Diante do revide do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, Castro recuou.
Mas isso não importa na política. A oposição entrou pela janela aberta por Castro e passou a atribuir a culpa do governo Lula porque a segurança pública será o principal tema da campanha eleitoral de 2026. Nas pesquisas de opinião, violência é a maior preocupação dos brasileiros. Na mais recente, feita pela Quaest, o tema tem 31% das respostas. A segunda maior preocupação, “problemas sociais”, tem 17%.
A oposição enxergou uma oportunidade de se recuperar em um ano difícil. Desde que o deputado Eduardo Bolsonaro conseguiu que o governo de Donald Trump aplicasse um tarifaço sobre o Brasil, a vida da oposição se tornou difícil. Governadores e parlamentares tiveram de defender o indefensável e perderam espaço político.
A popularidade do governo e do presidente Lula subiram. De acordo com a última pesquisa Datafolha, a avaliação de “ótimo/bom” de Lula subiu 9 pontos percentuais (de 24% para 33%) desde fevereiro. Da mesma forma, as intenções de voto em Lula para 2026 subiram e as dos potenciais candidatos da oposição caíram.
A operação nos complexos da Penha e do Alemão é, portanto, a melhor chance de recuperação que aparece desde a crise do Pix, em janeiro. O discurso da segurança pública, área na qual o governo federal pouco fez, sempre foi uma bandeira dos partidos de direita. Aproveitar a revolta popular pelo gigantismo do crime organizado para jogar a culpa no governo federal é uma saída óbvia.
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