Por mais que Lula tenha levado gente às ruas, mobilizado as redes e usado a força do governo, Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno como favorito. Em três semanas de campanha, Lula encurtou a distância em parte das pesquisas, sem alcançar o adversário na Quaest nem no Datafolha, que o deixam dois pontos atrás na véspera. Quem olha os votos de sete segundos turnos, o mapa da abstenção que examinei na semana passada e os recortes finais da Quaest encontra a mesma resposta: os votos da virada não estão onde a campanha de Lula foi buscá-los.
A conta é conhecida desde a noite do primeiro turno, quando Flávio saiu das urnas com 2,2 milhões de votos de vantagem, uma diferença que Lula só desfaz se crescer mais do que ele até domingo. Quem votou em um dos dois no dia 4 não muda de lado, como mostra a retenção acima de nove em cada dez eleitores que a Quaest mede nos dois campos, de modo que os votos da virada só podem sair dos eleitores dos candidatos derrotados, de quem não votou ou anulou o voto ou de quem ainda não se decidiu.
O primeiro grupo é o maior: 9,3 milhões de votos. A Quaest final dá nele 53% a Flávio e 35% a Lula. Nenhuma surpresa para quem acompanhou a reta final do primeiro turno, quando parte dos eleitores de Caiado, Zema, Renan Santos e Cury já havia migrado para Flávio no voto útil. O que a pesquisa encontrou é a distribuição que qualquer operador político, de um lado ou de outro, dava como certa. Se esse grupo votar como diz, a vantagem de Flávio aumenta em vez de encolher.
Sobra o grupo em que a campanha de Lula apostou desde o dia seguinte ao primeiro turno, o dos que faltaram, votaram em branco ou anularam no dia 4, que a Quaest reúne numa só categoria. Ali a pesquisa encontra um empate de 35% a 35%, com mais de um quarto do grupo ainda sem candidato na véspera da votação, o que deixa a ideia de uma reserva de votos à disposição do presidente tão sem sustentação quanto estava na semana passada. Pesquisas menores encontram Lula à frente nesse grupo, em recortes pequenos, sem que isso tire Flávio da frente no resultado geral de nenhuma delas.
Resta a Lula o comparecimento: perder menos eleitores do que Flávio no domingo, mesmo sem uma queda extraordinária da abstenção. Os dados e a experiência histórica dizem que isso não vai acontecer. O Datafolha encontra Flávio à frente entre os três quartos do eleitorado mais propensos a votar. Lula lidera no quarto restante, o dos que mais tendem a faltar. Em 2022, a única vez desde 1989 em que a abstenção caiu entre os turnos, o ganho veio dos eleitores com mais de 70 anos, concentrado onde Bolsonaro era mais forte. Bolsonaro cresceu 4 milhões de votos a mais do que Lula entre os turnos.
Os indecisos oscilaram ao longo do segundo turno. Encolheram na reta final, sem pender para um lado: são 2% no Datafolha. Numa eleição tão apertada, pesam. Para produzir sozinhos a virada, mantidas as demais escolhas, precisam ir para Lula numa proporção que nenhuma pesquisa indica. Eles tampouco são uma reserva a mais: cada indeciso de hoje também votou em alguém, anulou, votou em branco ou faltou no dia 4.
Nenhum dado aponta para a virada. As ruas cheias e a agitação nas redes mostram uma campanha mobilizada, mas mobilização não significa voto. No máximo, ajuda a levar à urna indecisos e ausentes. É a chance remota que resta a Lula. A Quaest e o Datafolha estimam 51% a 49% para Flávio nos votos válidos. A Quaest já desconta da sua estimativa os eleitores que tendem a faltar. Dois pontos parecem pouco. Em votos, com o comparecimento do primeiro turno, são cerca de 2,4 milhões, pouco mais do que a vantagem que Flávio abriu no dia 4. Um erro pequeno das pesquisas muda o vencedor. Lula ainda pode vencer, se aparecer na urna um eleitor que as pesquisas não encontraram. Flávio só precisa que os seus apareçam. É a vantagem que ele leva para o domingo.