A nove dias da votação, a aritmética do segundo turno é mais dura para Lula do que o empate das pesquisas sugere. Flávio Bolsonaro tem 47% dos votos totais no Datafolha, Lula, 45%. Na Quaest, 46% a 44%. Dois pontos parecem pouco. Uma campanha vive de movimento: atos, carreatas, lives, o presidente pedindo que cada militante vá atrás de quem ficou em casa. Os votos dados no dia 4 pesam mais do que esse agito deixa aparentar. O comportamento do eleitor em sete segundos turnos, também.
Lula entrou no segundo turno 2,2 milhões de votos atrás. Redistribuídos os 9,3 milhões de votos dos outros candidatos, como as pesquisas medem, a desvantagem vai a 3,3 milhões – caso as pesquisas, ressalte-se, estejam captando corretamente a migração das intenções de voto. Há dois caminhos para zerá-la. Virar 1,65 milhão de votos de Flávio, 3% dos que ele teve. (Ganha uma emenda Pix de 2027 quem apostar nisso.) Ou levar às urnas de 10 a 12 milhões de eleitores que ficaram em casa no primeiro turno, mesmo que votem dois a um nele. É uma queda da abstenção que o país nunca viu. E que nenhum movimento político parece ser capaz de produzir.
Apesar das dificuldades matemáticas, e também pela pura falta de opções melhores, Lula aposta a virada em quem não votou no primeiro turno. Desde o dia seguinte ao primeiro turno, o presidente fala em 30 milhões de brasileiros que deixaram de votar. Insiste nisso. A campanha fez deles um de seus alvos centrais. Apoiadores passaram a mapear as seções em que mais gente ficou em casa ou votou num candidato nanico. Lula foi a atos de rua em Natal, Ceilândia e São Paulo. Na Avenida Paulista, pediu à militância que fosse atrás de quem não votou. O número é até maior do que Lula diz: a abstenção foi de 21,08%, 33,5 milhões de eleitores, a maior taxa de um primeiro turno desde 1998.
A história e o mapa dizem a mesma coisa sobre esse eleitor. Em sete segundos turnos desde 1989, só um teve mais votantes do que o primeiro. O mais importante: o ganho líquido de 2022 foi pequeno e não decidiu a eleição a favor de Lula. Veio do Sudeste e dos mais velhos. Os ausentes de 2026 se distribuem quase como o eleitorado que votou. Pendem pouco para Lula. Na prática, a virada exige uma combinação, para lá de improvável, das duas coisas: mobilizar milhões que ficaram em casa no primeiro turno e convencer eleitores que migraram para Flávio a mudar de ideia. Pode acontecer? Poder, pode. É para isso que existe campanha – e, no caso do Brasil, o uso desabusado da caneta do governo. Daí a virar realidade vão milhões de razões. E votos. É mais difícil e improvável do que pode parecer.
Em 2022, o comparecimento subiu 570 mil entre os turnos. É um saldo, entradas menos saídas: os totais do TSE não dizem quantos ausentes do primeiro turno voltaram, nem como votaram. A abstenção caiu de 20,95% para 20,59%. Nos outros seis segundos turnos desde 1989, o país perdeu entre 1,4 milhão (2018) e 4,6 milhões (2010) de eleitores de um turno para o outro. A exceção veio com transporte gratuito em quase 400 municípios, segundo turno para governador em doze estados e as duas campanhas com a militância na rua. Rendeu 0,36 ponto. Não veio de onde a campanha de Lula procura agora. Os 570 mil eleitores a mais foram um quarto da margem final de Lula, de 2,1 milhões de votos.
Os dados do TSE por faixa etária mostram que, em termos líquidos, todo o ganho de 2022 veio dos eleitores com 70 anos ou mais, cujo voto é facultativo: 614 mil abstenções a menos nesse grupo, mais do que o ganho total. No resto do eleitorado, somado, a abstenção subiu. Entre 18 e 34 anos, subiu 340 mil. As mulheres com menos de 70 anos, segmento em que Lula lidera hoje nas pesquisas, faltaram mais no segundo turno do que no primeiro. Por região, 83% do ganho de comparecimento aconteceu no Sudeste, 70% só em Minas Gerais e São Paulo. O Nordeste somou 92 mil eleitores a mais. O Norte perdeu 250 mil. Por município, a abstenção caiu 0,74 ponto onde Bolsonaro tinha 20 pontos ou mais de vantagem no primeiro turno e subiu 0,15 ponto onde Lula tinha a mesma vantagem. Bolsonaro cresceu 7,1 milhões de votos entre os turnos e Lula, 3,1 milhões. Em jogo estavam os 9,9 milhões de votos de Simone Tebet, Ciro Gomes e dos nanicos, mais quem entrou ou saiu. Lula venceu por 1,8 ponto. Entrou no segundo turno 6,2 milhões de votos à frente e segurou um terço dessa vantagem. No saldo, Bolsonaro ficou com a maior fatia do que mudou de mãos. O ganho de comparecimento veio de onde ele era mais forte, mas não bastou para fechar a conta.
O mapa dos ausentes
Quem são os 33,5 milhões? Um quarto, 8,5 milhões, tem 70 anos ou mais. Para eles, o voto é facultativo. Metade fica em casa. Entre 18 e 34 anos, a abstenção é de 23%. Entre 35 e 69, de 15%. Os homens faltam mais do que as mulheres: 22% contra 20%. Abaixo dos 70 anos, 20% contra 16%. Onde estão? Sete em cada dez nos estados que Flávio venceu. O Sudeste tem 42% do eleitorado e 45% da abstenção. Os cinco estados com maior abstenção são Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso, todos de Flávio. Os de menor abstenção são Ceará, Roraima, Piauí, Sergipe e Paraíba, quatro deles do Nordeste de Lula.

A campanha trata o ausente como voto em potência. A conta mais simples testa essa premissa no cenário mais generoso para ela, o de que todos os ausentes votam no segundo turno: se cada ausente votar como votou o seu estado, a vantagem de Flávio cresce 1,2 milhão de votos. A utilidade dessa conta é dizer onde o eleitor está e o que o lugar dele votou. O resultado não sustenta a ideia de um reservatório de Lula. A abstenção é um pouco maior onde Flávio foi melhor. Os grandes estados dele concentram os ausentes. O limite da conta é que a geografia não revela o voto de quem não votou. Saber que um estado deu 60% a Flávio não diz como votariam os 20% que faltaram nele: quem fica em casa pode ser justamente quem menos se parece com a maioria do lugar. Tirar o indivíduo da média da região é a falácia ecológica, demonstrada em 1950 pelo sociólogo americano William Robinson. Ele mostrou que uma correlação entre regiões pode ter até o sinal contrário da relação entre as pessoas. Por isso o perfil importa tanto quanto o mapa. Ele aponta na direção oposta: dentro de cada estado, quem falta é menos escolarizado, perfil que pende – apenas pende – para Lula.
Pelos dados do TSE, que registra quem compareceu eleitor por eleitor e cruza esse registro com a escolaridade declarada no cadastro, 47% dos ausentes têm no máximo o ensino fundamental. (Há problemas no cadastro, mas, ainda assim, ele é útil.) A abstenção vai de 13,6% entre quem tem curso superior completo a 47,8% entre analfabetos. A obrigatoriedade pesa pelo menos duas vezes mais sobre o comparecimento dos mais escolarizados do que sobre o dos menos escolarizados. De acordo com os cientistas políticos Gabriel Cepaluni e Daniel Hidalgo, em estudo com os registros de 140 milhões de eleitores, as sanções explicam a diferença: pesam sobre serviços que a classe média usa.

O mapa fino muda pouco a conta. As margens aqui são calculadas sobre quem compareceu, brancos e nulos incluídos. Nos 5.571 municípios, 51% dos ausentes estão em cidades onde Flávio venceu por mais de cinco pontos, 30% em cidades onde Lula venceu por mais de cinco e 19% em cidades disputadas por até cinco pontos, quase a mesma divisão do eleitorado, de 50%, 32% e 17%. A relação entre faltar e votar em Flávio é fraca. A correlação entre a taxa de abstenção e a margem de Flávio é de 0,15 por município e 0,16 por zona eleitoral. Na escala, 1 significaria que os lugares de Flávio são sempre os que mais faltam. Zero, nenhuma relação linear. Na prática, cada 10 pontos a mais de margem de Flávio num município correspondem a só 0,2 ponto a mais de abstenção. Refeita por município ou zona a zona, nas 2.640 zonas eleitorais do país, a conta do ausente que vota como o vizinho dá a Flávio um saldo de 890 mil votos, um quarto a menos do que a conta por estado.
Por mais que se espanquem os números, eles não ajudam Lula. O maior bolsão do país, a cidade de São Paulo, com 2,1 milhões de ausentes e 23,4% de abstenção, deu a Lula 4 pontos de vantagem. Os 30 maiores bolsões urbanos somam 8,6 milhões de ausentes, um quarto do total. Quase se anulam. Os das cidades de Lula, como São Paulo, Salvador, Fortaleza, Recife e Porto Alegre, rendem a ele um saldo de 360 mil votos. Os das cidades de Flávio, como Rio, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba, rendem 550 mil. Saldo: 190 mil para Flávio. Para Lula, a conta inteira é esta: mesmo que todos os 9,9 milhões de ausentes das cidades em que ele venceu por mais de cinco pontos votassem no segundo turno como os vizinhos, renderiam um saldo de 3,2 milhões de votos. Fica perto da desvantagem de 3,3 milhões, sem contar os ausentes do outro lado. Os 16,8 milhões de ausentes das cidades de Flávio renderiam a ele 4,1 milhões. A vantagem geográfica de Flávio está nas cidades médias, de 100 mil a 500 mil eleitores, que concentram 24% da abstenção e deram a ele 12 pontos de margem.
O Nordeste, para onde a campanha quer levar a mobilização, é a região que menos falta às urnas: 18,4% de abstenção, contra 22,7% no Sudeste. O Ceará, com 15,5%, é o estado que mais vota no país. Lula teve 64% dos votos válidos na região. Ainda há 8 milhões de ausentes nordestinos, mas, em 2022, a abstenção da região caiu pouco entre os turnos: o Nordeste ganhou 92 mil eleitores. Mesmo que ganhe dez vezes isso e todos votem como a região votou, o saldo para Lula é de cerca de 300 mil votos.
O voto dobrado
Escrevi na noite da eleição que Lula precisava de quase dois terços dos votos dados aos outros candidatos, ou de eleitores que ficaram em casa. A campanha priorizou a segunda hipótese. A vantagem de Flávio no primeiro turno foi de 2,2 milhões de votos. Antes que qualquer ausente entre na conta, os 9,3 milhões de votos dos outros candidatos se movem. A Quaest mede, em grupos pequenos da amostra, 42% dos eleitores de Caiado e 40% dos de Renan Santos migrando para Flávio, contra 23% e 14% para Lula. Só o eleitor de Cury se divide, 34% a 30% para Lula. Aplicada aos votos reais, se Flávio e Lula mantêm o que tiveram, essa transferência leva a vantagem de Flávio a cerca de 3,3 milhões. É uma simulação com grupos pequenos da amostra, não um placar.
O Datafolha de 13 e 14 de outubro, que agrupa os eleitores dos quatro derrotados, mede 46% deles com Flávio e 27% com Lula. Dá cerca de 4 milhões. A mesma pesquisa mediu a firmeza dessa migração: 76% dos eleitores dos candidatos derrotados dizem ter o voto decidido, contra 93% do eleitorado em geral. É aí que Lula ainda pode reduzir a diferença. Dos eleitores dos derrotados, 22%, cerca de 2 milhões de votos, dos dois lados, admitem mudar de ideia. Cada voto que sai de Flávio para Lula vale dobrado na conta. Os 51% a 49% das duas pesquisas já refletem essas transferências.
Felipe Nunes, diretor da Quaest, vê nos ausentes a questão decisiva do segundo turno. A pesquisa mediu quem se absteve ou votou em branco ou nulo no primeiro turno, um grupo que ela não separa: 43% dizem que votarão em Lula, 38% em Flávio, 17% vão anular, votar em branco ou faltar de novo. Aplicada só aos 33,5 milhões de ausentes, a proporção dá 14,4 milhões de votos a Lula e 12,7 milhões a Flávio, saldo de 1,7 milhão. Daí a leitura de Nunes de que, quanto menor a abstenção, melhor para Lula, e de que reduzi-la “não é suficiente, mas é essencial para Lula”. A medição da Quaest dá a Lula cinco pontos de vantagem nesse grupo. O recorte é pequeno, e quem a campanha levar às urnas pode não votar como quem ficar em casa. É uma inclinação pequena, como a que a ciência política costuma encontrar em outros países: quem não vota pende pouco para um lado. O comparecimento total mudaria poucos resultados, e os que muda são os apertados, mostra a coletânea de estudos de vários países organizada em 2007 pelos cientistas políticos Georg Lutz e Michael Marsh. Mesmo que os 39 milhões que se abstiveram, votaram em branco ou anularam votem no dia 25 exatamente como disseram à Quaest, o saldo é de 2 milhões de votos para Lula. Pelas medições disponíveis, é menos do que a vantagem de Flávio depois das transferências.
O raciocínio de Maurício Moura, cientista político e economista, parte de um dado que os registros do TSE confirmam: quem falta é menos escolarizado. Nesse grupo, Lula leva vantagem. Em 2022, 54% dos ausentes tinham no máximo o ensino fundamental, um grupo que era 41% do eleitorado. Entre eles, o Datafolha dava a Lula 56% a 38% no início do segundo turno. Suponha que quem não votou no primeiro turno vote dois a um em Lula no segundo, a proporção que Moura, em novembro de 2025, atribuía a Lula entre quem não concluiu o fundamental. A fragilidade é dupla. Uma é supor que quem falta vota como quem vota dentro do mesmo grupo. A outra é a própria proporção: nem o Datafolha de 2022 nem o de agora, com 56% a 36% para Lula entre quem tem até o fundamental, grupo mais amplo, chegam a dois a um.
Nessa hipótese, zerar os 3,3 milhões exige 10 milhões de votos válidos a mais, de 10 a 12 milhões de eleitores, conforme quantos votem em branco ou nulo. Se ninguém que votou no dia 4 faltar no dia 25, a abstenção precisa cair de 21% para algo entre 13% e 15%, uma queda líquida de 6 a 8 pontos. Nada parecido aconteceu num segundo turno presidencial. A única queda já registrada de um turno para o outro foi a de 2022: 0,36 ponto, 570 mil eleitores. Lula precisa de 17 a 21 vezes isso. É como levar às urnas, a mais, todo o eleitorado da Bahia, 11,3 milhões de pessoas. Depois de 1989, nenhum turno presidencial, primeiro ou segundo, teve abstenção abaixo de 16,75%. Em 1989, com 82 milhões de eleitores, metade do eleitorado de hoje, o segundo turno teve 14,39%. Desde 2002, o mínimo num segundo turno foi 18,99%, em 2006.
Onde se mediu o efeito de uma campanha inteira sobre o comparecimento, um salto dessa ordem levou meses. Nos Estados Unidos, com voto facultativo, as campanhas de Barack Obama e Mitt Romney em 2012 elevaram o comparecimento em 7 a 8 pontos nos estados mais disputados, depois de uma temporada inteira de campanha de rua, calculam os cientistas políticos Ryan Enos, de Harvard, e Anthony Fowler, da Universidade de Chicago. É um dos maiores efeitos já medidos, onde as duas campanhas mais investiram, num país em que o comparecimento ficou perto de 60% naquele ano. Lula tem nove dias. Uma queda de dois pontos, sem precedente, com os novos votos válidos divididos dois a um, reduz a diferença em cerca de 1 milhão de votos. Repetir 2022 reduz em 190 mil.
A disposição dos ausentes é baixa. A Real Time Big Data perguntou a 1.600 eleitores, entre 6 e 7 de outubro, se quem faltou no primeiro turno vai votar no segundo: 78% dos ausentes responderam que não ou que provavelmente não. O próprio Moura, para quem “o caminho para virar é a abstenção”, acha “muito difícil” esse tipo de campanha de mobilização, ainda mais sem disputa estadual em boa parte do país. O segundo turno chega sem eleição para governador em 21 das 27 unidades da federação, entre elas São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e oito dos nove estados do Nordeste. Em 2022, a abstenção caiu 0,47 ponto nos doze estados com segundo turno para governador e 0,24 ponto nas quinze unidades sem disputa, segundo os dados do TSE. Fora de Minas Gerais, as outras catorze unidades sem disputa, somadas, tiveram mais abstenção no segundo turno do que no primeiro.
A literatura aponta na mesma direção: nas eleições municipais brasileiras de 2000 a 2020, o segundo turno produz mais abstenção do que a eleição de turno único. A abstenção do primeiro turno persiste no segundo, mostram os economistas Vítor Castro, Rodrigo Martins e Sergio Sakurai, em estudo de 2025. Na França, em eleições legislativas e locais, quando um terceiro candidato continua na disputa do segundo turno, o comparecimento sobe 4 pontos. Os brancos e nulos caem 3,7 pontos. Parte dos eleitores sem o seu candidato prefere faltar ou anular a escolher o menos ruim, mostram os economistas Vincent Pons e Clémence Tricaud. Há também uma razão defensiva para Lula cuidar da abstenção. Em 2022, a Quaest apontou alta propensão a faltar entre os eleitores de Lula no Nordeste e no Sudeste.
A caneta e a promessa
O governo e sua base no Congresso aceleraram o que podiam. Ao bolso, antes do dia 25, chegam duas coisas. A parcela de outubro do Bolsa Família, reajustada em 15% em setembro, cai entre os dias 19 e 23 para cerca de metade das 19,3 milhões de famílias atendidas em setembro. A outra metade recebe depois da eleição. O benefício médio passa de 675 para 777 reais, pela projeção do Planejamento. Por decreto do dia 9, os tributos federais sobre a gasolina ficam zerados por 30 dias, 26 centavos a mais de desoneração por litro, sem garantia de que cheguem inteiros à bomba. O pacote, com etanol e diesel, custa 5,2 bilhões de reais. O resto chega depois da eleição ou depende do Congresso.
O Senado aprovou na quarta-feira (14) o fim da escala 6×1, por 75 votos a 1, com o voto de Flávio. O Congresso promulgou a emenda nesta sexta. A jornada máxima cai para 42 horas em dezembro. Para 40, só em dezembro de 2027. Em dois dias, a Câmara, por 461 a 4, e o Senado, por 78 a 0, aprovaram o aumento do teto e o perdão, com condições, das dívidas federais dos microempreendedores. O texto espera a sanção de Lula. São 17,6 milhões de microempreendedores individuais, segundo o governo, 3,6 milhões deles com dívidas a perdoar, de 12,6 bilhões de reais, pela estimativa oficial. O teto de faturamento sobe de 81 mil para 110 mil reais em 2027. O Pix de até 5 mil reais por microempreendedor, anunciado no dia 13, ainda está em fase de desenho e depende de projeto de lei a ser enviado ao Congresso, com pagamentos previstos entre 2027 e 2030. O governo fala em 1 milhão de atendidos em até quatro anos. A ampliação do Pé-de-Meia aos universitários depende do Congresso.
Portanto, enquanto tem tinta na caneta, tem campanha. E Lula está deixando a sua seca.
Na quinta-feira (15), Lula prometeu uma PEC para garantir transporte público gratuito nos fins de semana em todas as cidades com ônibus, paga em parte com emendas parlamentares. Flávio chamou a promessa de “mirabolante”. A promessa revela o diagnóstico da campanha. Não muda a logística do dia 25: a gratuidade no dia da eleição já existe. É obrigatória nos dois turnos por resolução do TSE, com base em decisão unânime do Supremo de 2023. Estava prevista em 4 de outubro em pelo menos 22 capitais. Na região metropolitana do Recife, 624 mil embarques de ônibus foram gratuitos, 80% a mais do que num domingo comum. O Ipea mediu o efeito da onda de gratuidades de 2022, quando 297 municípios aderiram só no segundo turno, em estudo publicado depois na revista Electoral Studies: nenhum efeito significativo no comparecimento, com estimativa de três centésimos de ponto para baixo, nem na votação de Lula. Segundo os autores, o benefício foi usado por quem já tinha decidido votar.
A PEC dos fins de semana é outra coisa, uma política permanente. A equipe econômica estima, de forma preliminar, um custo de cerca de 6 bilhões de reais por ano. A tarifa zero, na versão ampla, ficou fora do programa de governo registrado no TSE “por prudência”, disse em agosto o deputado Jilmar Tatto. Precisa de 308 deputados e 49 senadores, em dois turnos de votação em cada Casa. Lula não disse quando a enviará. A eleição é em nove dias. É uma promessa de quarto mandato, dirigida ao eleitor que depende do ônibus.
O voto que decide
A aritmética da abstenção esconde um fato aparentemente incontornável: o eleitor que pode virar a eleição votou no dia 4. A Quaest estima que 18% dos votos de Flávio foram decididos nos sete dias finais, 10% no próprio domingo: 10 milhões de votos tardios, parte deles o voto útil de quem preferia Caiado, Renan ou Cury. Entre os eleitores de Lula, 84% decidiram antes de a campanha começar. O Datafolha mostra o movimento entre as suas duas pesquisas: Flávio oscilou de 49% para 47% dos votos totais, dentro da margem de erro de dois pontos. Lula ficou nos 45%. Branco, nulo e indecisos subiram juntos dois pontos. A parcela de eleitores de Flávio que diz votar nele para impedir o quarto mandato de Lula caiu de 25% para 17%. No potencial de voto da Quaest, Lula tem 47% e Flávio, 46%.
Esse é o eleitorado em disputa. Ele pode se mover de dois jeitos: trocar de candidato ou ficar em casa. Para zerar os 3,3 milhões, Lula precisa converter 1,65 milhão de eleitores de Flávio, 3% do total dele, ou um em cada seis dos votos tardios. É a conta mais curta. Não é fácil: 95% dos eleitores de Flávio dizem ao Datafolha que o voto está decidido. Pelo outro caminho, 3,3 milhões de eleitores de Flávio, 6% do total, precisam faltar ou anular o voto. A campanha de Lula não mostrou querer esse caminho. A estratégia tem duas frentes: trazer os ausentes e elevar a rejeição a Flávio. A segunda é tratada como meio de ganhar votos, não de esvaziar as urnas do adversário. Numa eleição apertada, o eleitor tardio de Flávio que fica em casa vale metade de um que troca de lado. A campanha, pelo que diz em público, ainda não o procura. Na França de 2012, com comparecimento perto de 80%, a campanha de François Hollande bateu em 5 milhões de portas, com o pico entre os dois turnos. Não mudou o comparecimento. Ganhou votos equivalentes a um quarto da sua margem final, mostra um experimento de Vincent Pons, economista de Harvard. As contas que passam pelos ausentes exigem uma queda líquida da abstenção sem precedente.
Há ainda o viés das pesquisas. Os principais institutos subestimaram Flávio no primeiro turno, de 2 pontos (Quaest) a 6 (Real Time). Erraram pouco em Lula. Se o padrão se repetir, o empate de 51% a 49% esconde uma vantagem maior. É uma hipótese, não uma correção. Em 2022, o Datafolha deu a Lula quatro pontos na véspera do segundo turno. A urna deu 1,8. Minas, o espelho do país, resume o problema. A Quaest não divulgou pesquisa de segundo turno no estado. A última, de 25 a 28 de setembro, dava a Lula 35% a 31% no primeiro turno e um empate de 41% a 40% no segundo. A urna deu a Flávio 4,9 pontos de vantagem, 588 mil votos. Lula venceu em mais municípios, 452 contra 401, mas Flávio levou nove dos dez maiores colégios. Oito das dez cidades com maior abstenção do país são mineiras. As duas pesquisas do segundo turno, porém, reproduzem bem o voto declarado no primeiro.
No dia 25, a abstenção pode cair. Nunca caiu mais do que 0,36 ponto de um turno para o outro. Subiu em seis dos sete segundos turnos presidenciais. Os 33 milhões ficam onde estão: sete em cada dez nos estados de Flávio, quase metade no Sudeste, um quarto acima dos 70 anos. Lula procura ali um eleitor que pende pouco para ele, num turno em que a abstenção quase sempre sobe. O mapa não diz em quem votarão. A pesquisa não diz quais deles voltarão. Os 33 milhões são reais. A ilusão é tratá-los como votos à espera de Lula. Quem decide o dia 25 já votou no dia 4.