Gilmar Mendes decidiu dançar. O ministro do Supremo Tribunal Federal transformou o pedido de indiciamento feito pelo senador Alessandro Vieira no relatório final da CPI do Crime Organizado — rejeitado na terça-feira — no ponto de partida de um contra-ataque político. Na avaliação de Gilmar, relatada a interlocutores e exposta publicamente na sessão da Segunda Turma e no X, não se trata apenas de reagir a um episódio isolado: é preciso combater o que ele identifica como um movimento organizado de desgaste e deslegitimação do Supremo em 2026, destinado a enfraquecê-lo a partir de 2027. Gilmar não entrará sozinho.

Na abertura da sessão da Segunda Turma, o ministro atacou Vieira diretamente. Criticou o senador, oriundo da Polícia Civil, por ter pedido o indiciamento de três ministros do Supremo – além dele, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes – e do procurador-geral Paulo Gonet, sem ter incluído no relatório da CPI pedidos de indiciamento de milicianos do Rio de Janeiro ou de integrantes de facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho.

“Quando vi o meu nome inserido nessa tal lista de indiciados por parte do senador relator deste caso, eu disse: é curioso. Ele se esqueceu dos seus colegas milicianos e decidiu envolver o Supremo Tribunal Federal por ter concedido um habeas corpus. Mas só esse fato narrado mostra exatamente que nós descemos muito na escala das degradações”, disse Gilmar. Em seguida, pediu à Procuradoria-Geral da República que abra investigação contra Vieira por abuso de autoridade na CPI.

No discurso, Gilmar recorreu a uma expressão do Mato Grosso para sinalizar sua disposição para o confronto: “Eu, como sabem, adoro ser desafiado. Lá no meu Mato Grosso, as pessoas dizem: ‘Não me convide para dançar porque eu posso aceitar’. (…) Mas outros se acoelham, tem medo. E assombração, também dizemos no interior, aparece para quem acredita nisso”.

Gilmar disse a pessoas próximas enxergar na atitude de Vieira um reflexo de um problema maior — e, na sua avaliação, mais perigoso: as falhas do presidente do STF, Edson Fachin, na condução política do tribunal. Gilmar e os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Dias Toffoli e Kássio Nunes Marques avaliam que a iniciativa de Fachin e de Cármen Lúcia de implementar um Código de Conduta, motivada pelo desgaste do caso Banco Master, é um erro de cálculo político.

Esse grupo avalia, segundo relatos de ministros e assessores ao Bastidor, que a discussão sobre o caso Master e o Código de Conduta será instrumentalizada por políticos para desgastar o Supremo e o Tribunal Superior Eleitoral neste ano de eleição — e que isso ajudará a eleger uma bancada de senadores favorável a aprovar o impeachment de um ministro a partir de 2027. O objetivo inicial desse movimento, ainda na avaliação de Gilmar e dos ministros mais próximos a ele, é enfraquecer a corte já no decorrer das eleições, visando a constranger os ministros a decidirem em desacordo com os interesses dos principais atores políticos do país. “Estão tentando nos emparedar”, disse um dos ministros à reportagem.

Alexandre de Moraes é, entre os ministros, o mais vulnerável a esse processo, diante dos indícios de ligação com o Banco Master. Mas Gilmar não acredita que o movimento pare aí. A interlocutores, disse que o bolsonarismo e o que chama de lavajatismo não se contentarão com o impeachment de um ministro: buscarão reformar o tribunal para enfraquecê-lo, a exemplo, na sua avaliação, do que fizeram Hugo Chávez na Venezuela e Viktor Orbán na Hungria.

Na visão de Gilmar e dos ministros que compartilham sua leitura, a ingenuidade de Fachin e de Cármen Lúcia reside em acreditar que a pressão política contra o Supremo se encerrará com a eventual queda de Moraes. Para esse grupo, se o movimento não for combatido, engolirá o tribunal inteiro — e a postura de Fachin e Cármen de buscar se distinguir dos demais colegas, na defesa do Código de Conduta, não os protegerá. Em resumo, segundo essa leitura, o que se apresenta como um movimento político legítimo para limpar o tribunal e reformá-lo progredirá fatalmente para uma implosão institucional da corte.

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema ilustra como o desgaste do Supremo já se converte em capital eleitoral. Pré-candidato à Presidência da República e em disputa direta pelo voto da base bolsonarista, Zema comentou o relatório de Vieira na terça-feira. Sobre Toffoli e Moraes, disse: “Esses dois, para mim, não merecem só processo de impeachment, merecem prisão”. Acrescentou que há uma “crise moral” no país: “Nós precisamos colocar para fora essas peças podres”.

No X, Gilmar respondeu: “É, no mínimo, irônico ver quem já geriu o Estado de Minas Gerais atacar o STF e seus membros após ter, durante sua gestão, solicitado ao Tribunal medidas que permitiram ao governo estadual adiar, por meses, o pagamento de parcelas de sua dívida com a União”.

Além de Gilmar, os ministros Flávio Dino, Cristiano Zanin, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Kássio Nunes Marques convergem na disposição de reagir de modo cada vez mais forte. O procurador-geral Paulo Gonet, também alvo do relatório de Vieira, tende a se posicionar, algo que evitava até agora. Gilmar convidou para dançar. Aceitaram.