O escândalo no INSS tem potencial para ser o mais danoso à popularidade do presidente Lula. O fato de as vítimas diretas da corrupção serem pessoas pobres é infinitamente mais grave do que nos casos clássicos, em que políticos e empresários se apossam do dinheiro público.
Os bilhões de reais desviados por emendas parlamentares saem do orçamento da União, mais etéreo. O dinheiro do INSS foi tirado do bolso vazio de aposentados e pensionistas e virou uma Ferrari, um Porsche e um Rolls Royce para os operadores do esquema.
Os protagonistas da fraude são sindicatos, onde Lula da Silva fez sua carreira antes de entrar para a política. As vítimas fazem parte da população mais pobre, um dos grupos de eleitores fiéis de Lula. Desde janeiro a popularidade do presidente está em seu pior momento histórico, ele perdeu a confiança até mesmo dos grupos que historicamente o apoiaram As vítimas do escândalo do INSS fazem parte deste grupo.
Até agora, o governo foi beneficiado pela oposição, que não se dedicou a explorar o caso, talvez cuidadosa pelo fato de a fraude ter atravessado todo o governo Bolsonaro. Mas o escândalo é como um vazamento em uma usina nuclear.
Esta gravidade não está espelhada nas atitudes do governo até agora. O ministro da Previdência, Carlos Lupi, responsável por indicar o presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, que conviveu dois anos com os desvios, permanece no cargo.
Lupi tem relações com as entidades que estavam se aproveitando dos aposentados e pensionistas e levaram deles R$ 6,3 bilhões desde 2019. Desde a semana passada, com um escândalo nas costas, ele fez o seguinte: tentou manter Stefanutto no cargo, deu entrevistas desastradas e foi à comissão de Previdência da Câmara, onde foi ajudado por parlamentares governistas. Em nenhuma dessas frentes, o ministro deu as respostas necessárias.
Lula tem dificuldades de demitir ministros, prefere que eles peçam para sair. Desde a quinta-feira, dia 24, o Planalto vaza informações contra Lupi para forçá-lo a pedir demissão. Frágil no Congresso, Lula reluta em tirar um ministro que se tornou um zumbi para não correr o risco de perder, ainda que momentaneamente, o apoio do PDT.
Lupi é dono do PDT há mais de 20 anos, desde a morte de Leonel Brizola. Foi ministro do Trabalho no governo Dilma e teve de sair, quando seus assessores foram acusados de cobrar propina de ONGs para firmar convênios.
Na semana passada, o governo tentou fazer uma espécie de explosão controlada da bomba. Fez um anúncio conjunto da Polícia Federal e da Controladoria Geral da União e promoveu uma entrevista coletiva com três ministros. Prometeu criar uma forma de devolver o dinheiro às vítimas, mas sem prazo.
A Polícia Federal começa a divulgar detalhes da investigação, que mostra como o dinheiro dos aposentados foi desviado e o que virou. Cada uma das vítimas poderá pensar naquele dinheiro descontado do seu pagamento, talvez fazer uma soma, e comparar com carros e proprietários que os responsáveis pelos desvios compraram. 2026 está logo ali.

